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A campanha da crise

24 Apr

A pré-campanha já está a acontecer e misturada com os primeiros momentos de negociação com a Troika.

As acusações incessantes de José Sócrates contra a oposição acompanham o estranho crescendo na resignação dos portugueses, que parece que assistem passivamente a uma marcha lenta no caminho para uma irreversível perda de soberania. Impávida e serenamente continuam os brandos costumes, a conformação, a acomodação.

Defender Portugal é o slogan da máquina socialista, que desde o Congresso parece apostada em ganhar de novo o ímpeto triunfante conferido pela banda sonora do Gladiador.

E a trilha parece já quase tão gasta como as bobines onde roda a música do PCTP-MRRP, mas esta é a imagem de marca de Sócrates. O líder da ‘esquerda moderna’, do Estado Social e mais recentemente, baluarte da humildade democrática, continua exatamente no mesmo sítio – o do chefe guerreiro, com postura belicosa perante as investidas da Direita e dos seus aliados “irresponsáveis”, a “esquerda radical”.

Disparar para todos os lados e apostar no tópico da estabilidade, aproveitando-se das fragilidades do PSD, que começa novamente a denunciar a sua instabilidade interna e falta de rodagem governativa, é a estratégia do secretário-geral do PS, agora também conhecido como Querido Líder.

Os ataques de Pacheco Pereira, que denuncia a apresentação prévia do PEC IV a Passos Coelho e a sua tendência inicial de aprovação, com o famoso SMS, para além do caso Fernando Nobre, são os últimos tiros no pé dos laranjas.

Fernando Nobre, a ansiada estrela das listas sociais-democratas, e que podia ter sido uma importante carta mediática para afastar as televisões do congresso socialista e uma medida de aproximação de eleitores independentes, acabou por resultar inversamente, tal a inexperiência e imprudência do candidato, agora assombrado pela égide da traição de princípios e acusado de oportunismo, arrogância e inexperiência por toda a esquerda.

Enquanto isso, um tímido desmentido do PSD sobre as suas ambições na Presidência da Assembleia da República e uma entrevista incómoda de Nobre na RTP. O silêncio do único partido que pode viabilizar este desejo, o CDS-PP, tornou-se inquietante. E o clima de vitória na direita arrefeceu, com a fragilidade de uma coligação entre democratas-cristãos e centristas a ser cada vez mais notada.

O Bloco de Esquerda, que pode ser muito penalizado pelo voto útil nas Legislativas de junho, aposta a carta da responsabilidade e até da governabilidade, num ensaio de coligação com a CDU, que deixa a porta aberta para futuros entendimentos e a convergência da extrema-esquerda. Segundo números divulgados na semana passada, caso tivessem concorrido em coligação nas eleições de 2009, teria conquistado mais 8 deputados, num total de 39, mas a habitual luta ideológica que divide a esquerda impede de pensar numa bem sucedida junção, mesmo perante a ameaça de rutura interna no Bloco.

Unidos com o BE contra o FMI, os comunistas usam o slogan da ‘política patriótica e de esquerda’. A Geração à Rasca, não só dos jovens, mas também dos trabalhadores e dos reformados, sacrificados “pelas políticas de direita”, invade o discurso de Jerónimo e Louçã, que culpam PS e PSD, na eterna rotatividade governativa, pelo “colapso sistémico” do Estado e os acusam de “sabotagem orçamental”, como atirava Louçã no domingo passado.

O discurso destes partidos continua baseado em palavras de ordem e faz da campanha uma espécie de manifestação contínua. No entanto, continua perdido algures no meio de um Período Revolucionário em Curso, com as bandeiras da estatização da economia e da soberania nacional anti-europeísta a flutuarem sem grande aparato acima de propostas populistas de revoluções de algibeira para um eleitorado com falta de esperança e desiludido, como é normal, com um sistema de vira o disco e toca o mesmo que tem provado, da pior maneira, as suas fragilidades.

A crise, realmente sistémica, de acumulação de dívida e de falta de planeamento estratégico, dá fôlego a quem propõe política diferente e alimenta o desespero dos descrentes, cujo Sebastião teima em não aparecer e não parece estar escondido nos programas eleitorais de PS e PSD, que, dizem as apostas, vão ser exercícios nulos de propostas inexequíveis, porque o único programa a votos nestas eleições devia ser o do FMI, chamado em conjunto pela situação de ingovernabilidade a que os dois maiores partidos se deixaram conduzir, pondo teimosia, caprichos e orgulhos vaidosos à frente do interesse nacional.

Longe do desejado entendimento com Passos, o CDS-PP de Paulo Portas tenta apostar na outra face do descontentamento, culpando as políticas do governo socialista pelo desemprego e pelo endividamento, apontando o dedo ao despesismo das obras públicas e tentando apanhar os votos que escapam ao PSD e obrigá-lo a uma coligação pós-eleitoral, colocando os populares no arco governativo, como tanto gosta e deseja. Portas é o líder partidário com mais anos de serviço. Isso nota-se, na estratégia, na calma, no aproveitar dos momentos certos. Calculista? Sim. Demagógico? Quase sempre. Eficaz? Igualmente.

Os dados estão lançados, a campanha ainda não começou e a pré-campanha é apenas um conjunto de discursos vazios, aqui e ali, com uma preocupante ausência de ideias para o país. Que independentemente de cálculos ‘coligativos’ entre esquerda e direita, já iniciados, haja mais do que slogans e circo mediático, haja iniciativa e confiança para lidar, o melhor possível, com um tempo de sacrifício e privação que, embora muitos tenham aclamado como a salvação de Portugal, pode estar bem longe de o ser.

*** Texto ao abrigo do novo Acordo Ortográfico ***

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Líderes partidários em confronto

18 Apr

A calendarização dos debates televisivos para as Eleições Legislativas de dia 5 de junho já foi disponibilizada. Os confrontos políticos ocorrerão nos três canais generalistas portugueses e serão, à partida, respetivamente dirigidos por Vítor Gonçalves (RTP), Clara de Sousa (SIC) e Judite de Sousa (TVI). O candidato a quem será feita a primeira pergunta será sorteado em cada um dos encontros.

Ao todo, são dez debates que ocorrerão durante três semanas. Em confronto estarão dois candidatos a Primeiro-Ministro, de cada um dos partidos com assento parlamentar, tal como ocorreu nas Eleições Legislativas de 2009.

A RTP foi a estação de televisão eleita para abrir e encerrar este ciclo de debates. Cada um terá inicio entre as 20 horas e 45 minutos e as 21 horas. O primeiro debate, no próximo dia 6 de maio, colocará em confronto Paulo Portas e Jerónimo de Sousa.

A duração dos debates é de 45 minutos, à exceção do debate entre o líder do PS, José Sócrates e o líder do PSD, Pedro Passos Coelho, que usufruirá mais 15 minutos de perguntas e respostas.

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+++Este artigo foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.+++

“Imprensa e Revolução”

13 Apr

No dia 6 de abril, a Associação 25 de abril, na Rua da Misericórdia, em Lisboa, recebeu reconhecidos convidados para um debate, aberto ao público, intitulado “Imprensa e Revolução”. O encontro reuniu nomes como Marcelo Rebelo de Sousa (diretor do Expresso até 1983), Jorge Correia Jesuíno (Ministro da Comunicação Social nos Governos Provisórios), José Rebelo (jornalista e correspondente em Portugal do jornal Le Monde, até 1991), Vasco Lourenço (capitão de abril e presidente da Associação 25 de abril) e José Carlos Vasconcelos (director do Jornal de Letras, Artes e Ideias), e foi moderado por António Reis, fundador do Partido Socialista.

A revolução de abril serviu de mote para a discussão sobre as principais mudanças ao nível da imprensa e da comunicação no pós-25 de Abril, momento de transição, não só a nível político, mas também de mentalidades e maneiras de olhar a comunicação social. O primeiro passo estava dado no longo caminho que culminaria na libertação da censura. Um caminho que, só por si, acarretava um enorme conjunto de responsabilidades, acima de tudo porque passar de uma situação de controlo total, por parte de organismos de censura, para uma liberdade de expressão absoluta, fazia-se sob a égide de um clima de grande tensão social e política.

Passando em revista alguns dos momentos mais marcantes da imprensa portuguesa no pós-revolução, é José Rebelo quem partilha a sua experiência internacional, referindo que na época o jornal Le Monde seleccionou uma equipa especial só para cobrir a situação vivida em Portugal, com mais de 15 jornalistas. A verdade é que “o 25 de abril veio preencher um vazio. Os acontecimentos em Portugal com os cravos nas espingardas e os jovens capitães, foram emblemáticos e marcaram uma época que é hoje fundamental na História portuguesa” .

Com uma imprensa fortemente reacionária, conservadora e impulsiva, embora “tenhamos procurado agir com bom senso, escorregámos em algumas cascas de banana”, revela Jorge Correia Jesuíno, falando sobre o convite que lhe foi feito pelo MFA para exercer funções nos organismos de comunicação social, liderados na época pelo Conselho da Revolução.

Marcelo Rebelo de Sousa discutiu a posição política assumida pelos jornais da época. A título de comparação afirma inclusivamente que também nos dias de hoje se vive uma crise na imprensa e que a importância concedida à televisão tem vindo progressivamente a tomar o lugar dos jornais.

No final, era incontornável fazer um comentário à situação atual do país e estabelecer paralelismos com a história que o público tão bem conhece e que ali foi recordada. Dava-se agora lugar à reflexão interior com algumas das últimas palavras de Marcelo Rebelo de Sousa quando partilhou com a audiência que no seu entender “o 25 de abril e a Democracia, constroem-se todos os dias”.

+++Este artigo foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.+++

Passos Coelho e Seguro – «tango» à vista?

27 Mar

As declarações de Pedro Passos Coelho, líder do PSD, na célebre carta que enviou à Agência Reuters (21 de março), ainda antes da queda do governo de Sócrates, foram peremtórias: um novo Governo «de maioria alargada» aumentaria a legitimidade política para impor mais medidas de austeridade. Certamente, Passos Coelho não se estaria a referir a uma coligação com o CDS, visto que esta representa apenas um lado do espetro político português, o direito, por sinal. O destinatário era outro – o Partido Socialista.

Do lado socialista, a resposta surgiu por uma das vozes críticas da governação de José Sócrates, António José Seguro. Já depois do pedido de demissão por parte do primeiro-ministro, o deputado socialista – que é recorrentemente apontado como candidato à sucessão de José Sócrates à frente do PS, embora não seja candidato nas próximas diretas – afirmou que o país necessita de uma «maioria política e social», desejando igualmente que «a próxima campanha eleitoral conserve os mínimos de confiança essenciais para que esse entendimento possa acontecer no futuro». Seguro referiu que «esse entendimento não significa arranjos de poder, significa disponibilidade para, num momento de grande crise e dificuldades, os partidos políticos darem o seu contributo, entenderem-se, criarem situações de compromisso para resolverem os problemas do país».

Estas declarações não foram bem recebidas no interior do PS, como ficou patente na reação do dirigente socialista, Vitalino Canas, que criticou o momento do apelo de Seguro. Outros membros do Secretariado Nacional do PS e presidentes federativos próximos de José Sócrates contactados pela agência Lusa escusaram-se a assumir publicamente críticas à posição defendida por António José Seguro, embora todos eles não tenham escondido o seu incómodo por ser alegadamente «inoportuna», «desenquadrada com a realidade» e «puramente tática» em termos de médio prazo.

Posteriormente, o Presidente do PSD, na entrevista que deu sexta-feira à SIC, voltou a falar desta possibilidade, realçando que «com o PS, sim, com Sócrates, não». Passos Coelho disse ainda acreditar que existem muitos socialistas desiludidos com a postura e a forma de atuar do primeiro-ministro demissionário, José Sócrates, demonstrando-se recetivo a construir pontes com aqueles a que outrora Miguel Relvas, secretário-geral do PSD, chamou de “reformadores de esquerda”.

Desta forma, e tendo em conta, as disponibilidades demonstradas pelos dois lados da barricada, fica a questão: Haverá possibilidade de um “tango” governativo do Bloco Central, caso haja, desta vez, um “câmbio” no Partido Socialista?

+++Este artigo foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.+++

Entrevista a Pedro Passos Coelho

25 Mar

Dois dias depois da demissão de José Sócrates e no dia em que uma sondagem dá maioria absoluta ao PSD, se as eleições fossem hoje, Pedro Passos Coelho vai à SIC para dar a sua primeira entrevista. Acompanhe e comente em direto, no Clique.

Entrevista a Pedro Passos Coelho

Impressões sobre a demissão de Sócrates

23 Mar

A demissão de José Sócrates, consequência do chumbo do quarto Pacto de Estabilidade e Crescimento, aconteceu ao início da noite de hoje, com o primeiro-ministro a devolver a palavra aos portugueses e a declarar a impossibilidade do seu governo depois da decisão da maioria parlamentar.

A equipa do Clique deixará, por aqui, as suas Impressões sobre o tema.

«Cavaco Silva ainda não aceitou a demissão de José Sócrates e só esta sexta-feira, após a reunião com todos os partidos, o deverá fazer.

A saída do primeiro-ministro, já anunciada e esperada, surpreende por tardia. A verdade é que o governo deu provas de resistência, aguentou a pressão dos mercados e de um Parlamento hostil, mas não conseguiu honrar as suas promessas aos portugueses.

É certo que a pressão da União Europeia, com uma visão dominada pelo PPE, e em reação aos ataques especulativos dos mercados, não permitia grande margem de manobra ao governo, pese embora os resultados positivos da execução orçamental, que não chegaram para acalmar o stress da especulação e levaram aos sucessivos PEC’s, que castigaram “os mesmos de sempre”, hoje insatisfeitos e a exigir mudança, nas ruas e nas suas vidas.

A precipitação do Governo com o PEC 4, a vontade adormecida do PSD chegar ao governo e as sondagens instáveis que nunca mais dão maioria absoluta a ninguém precipitaram-nos para a situação que hoje se verificou, resultado da teimosia de todos os partidos, da falta de tolerância do próprio Executivo e da ignorância, por todos, do interesse nacional.

Esperemos que hoje se abra caminho para uma nova mentalidade, para soluções válidas para os problemas do país e para um governo verdadeiramente patriótico e preocupado com os seus cidadãos. A solução pode vir do próprio PS, do PSD, ou de coligações múltiplas, a verdade é que não há quem se possa desligar de toda a situação em que o país está envolvido, uma culpa que não deve morrer solteira.

Se o FMI chegar por estes dias a sensibilidade não deverá ser o seu forte, mas os objetivos traçados para o défice terão de ser cumpridos e a saúde das Finanças portuguesas terá que continuar em tratamento. Resta saber quais as gorduras que serão retiradas na lipoaspiração do próximo Governo e esperar que seja o próprio povo a ter uma atitude proativa, uma postura corajosa e participação acesa na vida política do país, porque, citando José Sócrates, deve ser dada confiança à “vontade”, à “energia” e à “força dos portugueses”

Pedro Miguel Coelho, editor de Portugal

«Vim para casa ao telefone com uma amiga e em conversa questionávamos a possibilidade de José Sócrates se demitir. “Não, não acredito que ele faça isso”, garanti eu. Liguei a televisão à espera de não ver mais do que as últimas informações que me tinham chegado. Fi-lo na altura certa. A SIC anunciava a demissão de Sócrates. Imediatamente corri para ver as reacções nas redes sociais e as opiniões divergem: uns vêem na demissão de José Sócrates uma nova esperança, outros temem o futuro. Confesso que pertenci também ao conjunto de pessoas que ansiava por este dia. Mas agora que chegou estou ainda em choque e junto-me aos que enfrentam um grande receio do que aí vem.

Sempre ouvi dizer: “depois da tempestade, vem a bonança”, aqui espera-se que venha a mudança. Mas toda a mudança implica uma reflexão, uma atitude. Eu só vejo oposição. A oposição opõe-se entre ela mesma e opõe-se ao país. A constante campanha política que é feita pelos partidos da oposição não consegue gerar um diálogo em prol dos interesses comuns da nação, em prol do bem dos portugueses.

Pedro Passos Coelho afirmou no seu discurso após o anúncio da demissão que é preciso acabar com o “jogo das culpas e vitimação”. E que é urgente os agentes políticos assumirem as responsabilidades das suas decisões e não criar “um clima emocional que visa impor ao país soluções que não são as mais correctas.” Acrescenta que é preciso esquecer os lugares já conquistados e “olhar para todos nós para buscar as melhores soluções e melhores respostas”. Falou na urgência de uma “estratégia verdadeiramente nacional.” Um discurso que, na minha opinião, foi ao encontro daquilo que os portugueses querem ouvir.

É bom que cheguem até nós estas palavras de esperança, que seja dado um novo rumo, que se lute e construa uma nova mentalidade, um novo modelo social. São precisas novas soluções. Mais do que nunca o país precisa de nós e nós precisamos que o país (e a nossa representação na Assembleia da República) se una.»

Liliana Borges, editora-adjunta

«A demissão de José Sócrates apanhou poucos desprevenidos. Era relativamente fácil prever como ia acabar esta quarta-feira, 23 de março. Ainda assim, torna-se difícil saber o que pensar nesta altura sobre toda a situação a que Portugal chegou. Olhando para trás, é difícil dizer onde começou; para a frente, é impossível prever onde vai parar.

A verdade é que, agora, Portugal está ainda mais desgovernado. Cabe agora ao Presidente da República decidir o que fazer e são várias as opções que tem ao seu dispor. Em primeiro lugar, a consulta dos partidos com acento parlamentar é inevitável. Depois, Cavaco Silva poderá optar por convocar eleições, se não for encontrada uma solução no atual quadro parlamentar. Porém, há ainda outra hipótese: a formação de um governo de iniciativa presidencial, sem recorrer a eleições. Para isso, seria necessário que os partidos representado na AR conseguissem entender-se de modo a formar um governo maioritário (e, só assim, uma alternativa viável).

A formação de um governo de iniciativa presidencial seria a que pouparia mais dinheiro ao país e a que teria um efeito mais imediato, já que não seria necessário esperar por eleições. Por outro lado, seria também uma forma de responsabilizar uma maior faixa política pelas decisões que viessem a ser tomadas. O grande problema desta solução reside, simplesmente, num ponto: que partidos formariam este governo? A hipótese mais lógica seria uma coligação PS+PSD. Contudo, a liderança do executivo ficaria novamente nas mãos dos socialistas. Além disso, Sócrates e Passos Coelho já demonstraram que não trabalharão juntos o que impossibilita esta solução, já que Sócrates garante que se vai recandidatar, em caso de eleições. Excluindo esta hipótese, ter-se-ia que recorrer aos partidos à esquerda do PS. Mas PCP e BE não entrariam num governo que ajudaram a derrubar. Assim sendo, restaria a hipótese de um solução PSD+CDS+PCP ou BE. O BE parece a milhas de qualquer coligação com a direita, por opção de ambos os lados. Restaria o PCP. Apesar de toda a diferença ideológica entre PSD/CDS e PCP, não me parece uma hipótese tão implausível quanto isso. Pelo menos, de todas, seria a que para mim faria mais sentido.

Mas falar de cenários é sempre fácil. Normalmente, o difícil é acertar. Ainda assim um governo de salvação nacional, a três (como PPC disse que queria) e evitando eleições seria a solução mais sensata no atual contexto político e económico. Para isso, seria preciso a esquerda e a direita engolirem muitos sapos. Mas, a bem do país, não valeria a pena?

PS – Uma palavra para o comportamento deplorável de José Sócrates, Teixeira dos Santos e Pedro Silva Pereira. Num debate que definia o futuro da nação, não se percebe como é que o PM abandona a sala ao fim de alguns minutos; como é que o Ministro das Finanças abandona a sala numa altura em que se ouvi a intervenção de fundo do maior partido da oposição; e como é que o Ministro da Presidência, chegando tarde, abandona a sala antes das votações. Ficou hoje demonstrado, na AR, de que é que este governo é, afinal feito. Manuela Ferreira Leite, no seu discurso, destacou que Sócrates só conseguiu iludir os portugueses durante um certo tempo, com as suas promessas, até ser hora de prestar contas a Bruxelas. Hoje, se ilusões existiam, ficaram desfeitas. Mais uma vez, Sócrates sai muito mal da fotografia. Mais uma vez, Manuela Ferreira Leite sabe o que diz. É pena que muitos tentem evitar não ver ambos.»

João Vargas, diretor de Conteúdos

«Visto que Portugal já está afundado numa crise económica e, agora, numa crise política, não sei até que ponto a demissão de Sócrates terá sido a melhor opção a tomar. Segundo ele, «tomei a decisão correcta», mas essa decisão talvez pudesse ter sido adiada ou, melhor ainda, repensada. A grande questão é: e agora?»

Marta Spínola Aguiar, redatora

«Eis-nos chegados ao final de uma situação incomportável. E eis que, chegados ao ponto em que a corda rebentou, as perspetivas são do precipício e não da melhoria. Ter um Governo é melhor que não ter um Governo. Foi a machadada final, perpetrada por partidos com uma agenda política duvidosa e oportunista, na decrescente confiança dos investidores em Portugal. Não se viaja em barcos sem homem do leme, da mesma forma que não se investe num país que não se governa a si próprio; e quanto menos dinheiro vier de fora, cada vez menos teremos por cá, já que não nos podemos esquecer que ele sai…mas não volta a entrar. Nunca fui apoiante de Sócrates, nunca gostei dele. Mas a verdade é que não sei até que ponto não era preferível ele continuar como Primeiro-Ministro do que não termos Primeiro-Ministro nenhum.»

Gonçalo André Simões, diretor de Estrutura e Finanças

«A demissão de José Sócrates parecia inevitável, daí que tal não tenha surpreendido. Surpreendente, ou não, será o que ainda está para vir.

O Primeiro-Ministro continuou com o mesmo discurso: tomou o seu lugar de vítima, naquela que considerou uma coligação negativa da oposição para derrubar o governo, e apontou o dedo à oposição, em especial o PSD, pela crise política e pela falta de apresentação de alternativas.

No entanto, José Sócrates terá de se queixar de si mesmo, ou pelos menos, envergonhar-se das suas ações mais recentes. Saltou várias formalidades que fazem da democracia o que ela é: um sistema transparente. Jogou demais nos bastidores, promovendo PEC’s à revelia daqueles que o deviam auxiliar para bem do país, e, deste modo, não seria de esperar outro resultado se não aquele que assistimos.

É verdade que o PSD, principal partido da oposição, não apresentou alternativas ao PEC 4, mas a realidade é que seria difícil encontrar alternativas às medidas de austeridade propostas pelo governo. Só se poderia mudar o caminho, mas o destino seria o mesmo: cortes na despesa (prestações sociais e salários) e aumento das receitas (impostos).

Assim, o partido de Passos Coelho fez o seu papel no jogo político. Derrubou o executivo de Sócrates, preparou o caminho para o seu governo, de maioria absoluta ou de coligação, onde terá de preparar também um pacote de austeridade, quer por ação do FMI, quer para evitar este, correspondendo aos desejos do PPE, do qual faz parte, e aos quais Sócrates ia ao encontro.

Apesar de tudo isto, a minha grande expetativa está no papel que os três partidos menos representados na Assembleia terão na legislatura que se avizinha. Sem uma maioria absoluta para um único partido formar governo, o papel destes ganha enorme relevo, nomeadamente pela crescente incompatibilidade entre Sócrates e Passos, e assim a impossibilidade de um governo de bloco central.»

Ricardo Soares, editor de Atualidades

E foi desta. A polémica em torno dos sucessivos planos de austeridade levados a cabo pelo executivo de José Sócrates atingiu o seu apogeu. Hoje, todos os partidos da oposição chumbaram o PEC IV e José Sócrates considerou não ter condições para liderar. E depois de sucessivas ameaças, foi desta que se demitiu.

Embora a indignação da bancada socialista, do Governo e do primeiro-ministro demissionário possa ter tocado muitos portugueses, o discurso de demissão de Sócrates a nada mais soou do que a preparação de campanha para as eleições de julho. Portugal não conhece e não confia no projeto de Pedro Passos Coelho e do PSD e a confiança eleitoral não se constrói em quatro meses. Portanto, a deserção de José Sócrates é a forma que este encontrou de, havendo eleições antecipadas, em julho regressar para vencer.

Despedimentos, falência de empresas, cortes e congelamento de salários e de pensões, aumento dos custos com a Saúde… Isto é um Plano de Estabilidade e Crescimento (PEC). As condições de vida de crianças, estudantes, trabalhadores, doentes e pensionistas agravam-se cada vez mais. Nada foi bom. E tudo em nome de um objetivo maior: recuperar a confiança dos mercados e liquidar a dívida soberana. Sem recorrer a ajuda externa.

Recorrer a ajuda externa e subjugar-se a essa ajuda foi aquilo que José Sócrates e os seus ministros fizeram até ao dia de hoje. O país está absolutamente dependente das motivações da Alemanha e da França e os planos de austeridade nada resolveram. 13 mil milhões de euros é quanto o Governo socialista quer obrigar os portugueses a pagar em três anos. E obrigou a Assembleia da República a optar entre as suas políticas ou o caos.

E o caos socrático é o Fundo Monetário Internacional (FMI) – que cegamente cortará em Saúde, no Ensino, em pensões, em salários, tudo em nome da liquidação da dívida portuguesa e de uma nova cara para apresentar aos mercados. Em que é que tudo isto difere dos PECs? Em nada. Segundo o PS, a alternativa ao caos é… o caos!

A Assembleia da República chumbou a quarta temporada da saga PEC. José Sócrates demitiu-se do seu cargo de primeiro-ministro, mas esta não será uma saída definitiva. Por agora, há que agir bem e depressa.

Sara Recharte, editora de Internacional

Impressões da entrevista a Sócrates

15 Mar

A entrevista a José Sócrates na SIC ocorreu num período de eminente crise política, fruto de um conjunto de acontecimento em catadupa: o Primeiro Ministro anunciou um pacote de novas medidas de austeridade em Bruxelas, mas só passados três dias fez uma comunicação ao país. Pelo meio inúmeras reações, entre elas a do PSD, com o partido de Passos Coelho a rejeitar este novo PEC e a ameaçar inviabilizá-lo.

Sobre este e outros temas, como a crescente manifestação popular, com a Geração à Rasca e a greve das transportadores em plano de fundo, Sócrates respondeu Às perguntas da jornalista Ana Lourenço, sobre essas respostas aqui ficam as Impressões de alguns elementos da equipa Clique.


«Com respostas que, uma vez mais e não supreendendo ninguém, não responderam às muitas perguntas dos portugueses, José Sócrates centrou o seu discurso numa crítica à oposição, com (praticamente) exclusivas referências ao Partido Social Democrata, que acusa de rejeitar negociações. Provocou os restantes partidos: «Se têm medidas melhores porque não as apresentam?». Talvez elas sejam apresentadas Senhor Ministro, não são é ouvidas.

Foi discutida também a existência ou não de uma crise política: o Primeiro-Ministro esclareceu que «em primeiro lugar, queria que os portugueses soubessem que não estou ligado ao poder (…) mas ao cumprimento do dever, que passa por evitar uma crise política».  Evitar? A crise política não está, apenas, na aprovação ou reprovação do PEC, mas sim na confiança que os cidadãos têm (ou não) no seu Governo e é a isto que o  Srº Primeiro-Ministro não atenta. Sobre a manifestação de sábado pouco foi falado. Vai cair rápido no esquecimento. E, infelizmente, não basta uma manifestação «calma e pacífica» para que se oiça todo um país. Mas já é um começo mostrar descontentamento e lutar contra a apatia e abstenção cívica e política.  Agora resta saber quanto tempo mais aguentará o «povo a gritar», limitando-se a ouvir o seu eco, sem nenhuma resposta.»

Liliana Borges, editora-adjunta


«Mais uma vez, José Sócrates não conseguiu surpreender pela positiva. Pelo menos a mim. O seu discurso (sim, não considero que tenha realmente havido uma entrevista e a Ana Lourenço falhou nesse sentido) foi pobre e uma mera repetição daquilo que tinha falado ontem, na conferência de imprensa marcada há última da hora.

Confesso que estava curiosa pois havia uma série de cartas em cima da mesa que eram fundamentais debater: a manifestação, o caso dos camionistas, o estado do país… mas o Primeiro-Ministro parece que, cada vez mais, se recusa a aceitar os verdadeiros problemas e a encará-los como tal. Procura, então, comparar Portugal com outros países da Europa, continua a pedir alternativas de medidas e afasta a ideia de crise política que está cada vez mais à vista. E nós, sempre que tentamos obter mais esclarecimentos, ficamos assim… na mesma e entalados nesta confusão que se instalou no país. A minha grande questão é: até quando?»

Marta Spínola Aguiar, redatora


«José Sócrates teve um discurso previsível, bem ao seu estilo. Referiu que compreendia a angústia daqueles que se manifestavam, mas não disse nada que os anime. Falou muito de crise política, mas quase sempre na terceira pessoa, e quando o fez na primeira foi para reafirmar que tudo faria para evitar essa crise. Mas a verdade é que elaborou mais um PEC, este às escondidas do país e para os senhores de Bruxelas.

Foi uma entrevista pobre, sem que aquilo que foi dito acrescente muito ao que já foi ruminado. No entanto, entre o discurso de vitimização, que atira a culpa para cima dos outros (PSD em especial), e a defesa com o argumento de mostrar aos mercados e à Europa a vontade de Portugal em executar o orçamento – mais do mesmo – o Primeiro-Ministro realçou dois pontos importantes: os prejuízos que o país teria com a vinda do FMI e a falta de alternativas no debate político.

É certo que o discurso é pobre, a atuação política também não é muito melhor, mas infelizmente as alternativas não trazem uma luz ao fundo de túnel, pelo menos no imediato.»

Ricardo Soares, editor de Atualidades