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Finalmente, uma manifestação

12 Mar

Para este sábado, dia 12 de março, está marcada aquela que é tida como a grande manifestação dos jovens de hoje. Convocada via Facebook, esperam-se milhares de jovens em protesto em onze cidades do país. O local onde deverá haver maior concentração de manifestantes é Lisboa, estando agendada uma descida da Avenida da Liberdade. Mas, sobre este protesto, há muitas dúvidas que se levantam.

Em primeiro lugar, ainda não se esclareceu quem é o responsável pelo movimento. Sabemos quem o convocou na Internet, mas não sabemos quem vai estar, de facto, na linha da frente da manifestação. Aliás, os “organizadores” dizem, no seu manifesto, que esta é uma manifestação apartidária e afastada das organizações formais. Contudo, esse poderá ser realmente o grande obstáculo ao sucesso do protesto. Será muito complicado que uma manifestação pacífica tenha um grande impacto se não houver uma grande força organizadora que a impulsione.

Mas outra das grandes questões que se levanta é precisamente o pacifismo da manifestação. Mais uma vez, os “convocadores” defendem-se dizendo que é um protesto pacífico. Não obstante, não se assumem como responsáveis pela manifestação. Então como se poderá garantir que uma manifestação com milhares de jovens e sem uma liderança ou, pelo menos, uma condução, não acabe em violência?

Depois, levanta-se mais uma grande pergunta: qual é, afinal, a grande reivindicação dos protestantes? Diz-se que o objetivo é dizer “basta” e acabar com a situação social que se vive hoje ou, melhor dizendo, que os jovens vivem hoje. Ainda que seja um propósito muito vago, já constitui alguma base reivindicativa. Contudo, tem-se visto pela Internet que nem todos clamam pelo mesmo. Se é verdade que a esmagadora maioria tem uma parte do “discurso” que é comum, cada um acrescenta depois mais algumas reivindicações, completamente fora do contexto. Por exemplo, se todos vão reivindicar que não haja precariedade no emprego, também se assiste a quem peça o fim da NATO, numa manifestação cujo objetivo não é, claramente, esse. Ou seja, não haver uma noção clara daquilo que se vai pedir pode ser mais um grande entrave ao sucesso do protesto.

A falta de alguém, de algum grupo ou de alguma organização que siga “à frente” tem ainda outro aspeto negativo. Este protesto pretender dizer “basta” e mudar o rumo “das coisas”. Para isso, já se sabe, é preciso uma rutura com as políticas atuais e uma renovação em quem governa. Porém, este protesto não propõe nada disso. Não é oferecida nenhuma alternativa ao que temos atualmente. Simplesmente, a manifestação servirá para dizer que o que temos tem que acabar. Mas em troca de quê? Não sabemos, nem sabemos a quem perguntar. Porque não sabemos quem é o responsável.

Falando em responsáveis, não podemos ignorar quem está na verdadeira origem deste protesto: os jovens. Os jovens vão sair à rua descontentes com o estado a que o país chegou por causa da classe política. Impõe-se, então, a pergunta: se estão tão descontentes, por que é que não foram votar nas últimas eleições, há menos de dois meses? Alguns dirão: “mas os que se manifestam foram votar, quem se absteve também não sai à rua”. Pois bem, podemos aceitar a justificação mas, nesse caso, o epíteto de “geração” não faz sentido, quando é apenas uma minoria que lhe parece pertencer.

Mas a abstenção nas eleições até pode ter uma explicação: a música dos Deolinda que impulsionou o movimento surgiu após o ato eleitoral. E a verdade é que, diga-se o que se disse e não pondo em causa a legitimidade dos protestos, a “geração à rasca” só se lembrou que estava “enrascada” e que tinha que sair à rua quando um grupo musical fez uma música que o recordou. Nos últimos dois meses, a situação portuguesa não piorou drasticamente em relação ao ano passado. Por isso, fica a sensação que se os Deolinda não tivessem feito a música, ninguém se ia manifestar.

Apesar de todas estas interrogações, não faltemos ao essencial: a situação social e económica dos portugueses e, em especial, dos jovens é preocupante e urge tomar medidas para a inverter. Podemos questionar os propósitos da manifestação, aquilo que é reivindicado, quem são os responsáveis, que alternativas é que poderão surgir. Mas não podemos ignorar que, apesar de não ter sido um movimento espontâneo, vai trazer à rua preocupações reais. Seria bom que o Governo e os deputados, aqueles que realmente podem fazer alguma coisa, refletissem bem sobre o estado atual de Portugal. Nunca é tarde para mudar, é certo, mas quanto mais tarde for a mudança, mais difícil será efetivá-la.

+++Este artigo foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.+++

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Canção ao lado?

10 Mar

Quando, há três anos, os Deolinda lançaram o seu primeiro álbum, Canção ao Lado, nada fazia prever que, tempo depois, comporiam uma música que se arrisca a ser o hino de uma geração. Hoje, em pleno 2011, os Deolinda já vão no segundo álbum e a música Parva que Sou ecoa um pouco por tudo o que é rede social ou associação juvenil.

Rui Tavares, na sua crónica no jornal Público, o mesmo jornal cujo diretor Vicente Jorge Silva cunhou o termo “geração rasca”, indignou-se pelo epíteto dado. Diz o eurodeputado, concordando com a música, que a “geração rasca” foi, afinal, «a mais bem preparada de sempre no país». E, na mesma linha, Rui Tavares refere que realmente a sua geração foi parva mas, avisa, «ninguém pode ser parvo tanto tempo assim».

Contudo, o hit Parva que Sou não é pacífico e gera as reacções mais antagónicas. Se há os que lhe conferem um cariz revolucionário ou intervencionista, também há os que criticam a sua mensagem. Isabel Stilwell, directora do jornal Destak, diz mesmo que são parvos os jovens que estudaram e são escravos, mas «parvos porque gastaram o dinheiro dos pais e dos nossos impostos a estudar para não aprender nada». Também Pedro Marques Lopes, colunista do jornal Diário de Notícias, caracteriza a canção como «o hino dos que desistem, (…) dos que culpam os “outros” e se esquecem que são eles também os responsáveis por esses “outros” mandarem».

Seja como for, a forma viral como a música dos Deolinda se espalhou pela internet sem sequer ter ainda sido editada em estúdio é notável. E, guerrilhas à parte, parece inegável que a letra caracterize, de facto, uma geração. Por exemplo, canta Ana Bacalhau que esta é a “geração casinha dos pais”. Goste-se ou não de admitir e causas para isso à parte, o que é verdade é que de facto os jovens cada vez saem mais tarde de casa. Ou, também como canta a música, a primazia dada ao carro que está “por pagar”, antes de ter filhos e marido.

Mas, segundo os Deolinda, esta é também a “geração sem remuneração” mas que não se incomoda com essa condição. Ou a “geração ‘vou queixar-me para quê?’”, se há alguém pior na TV. No final de cada verso, lá se explica que esta é a geração parva em que para ser escravo é preciso estudar.

Convicções políticas de lado, a letra de Parva que Sou tem o mérito de chamar a atenção para uma realidade: a dos jovens descontentes com o seu futuro, ou a falta dele. Não se discute se é legítimo ou não, apenas que a música conseguiu colocar na agenda mediática um tema que teimava em não ser capa de jornal durante vários dias seguidos.

Apesar da sua jovem carreira, os Deolinda já não são novatos no que respeita a este tipo de música. Em 2008, no seu primeiro trabalho, gravaram uma música intitulada Movimento Perpétuo Associativo. A letra, tal como esta de 2011, é habilmente construída para caracterizar a sociedade em que vivemos. Tudo se baseia numa simples estrutura que alterna entre versos como “Agora sim, damos a volta a isto!” com “Agora não, que é hora do jantar…”.

Esta letra poderá sintetizar o que muitos julgam ser a sociedade portuguesa de hoje, em que muitos se queixam e poucos se mexem. E na letra de Parva que Sou o problema volta à baila, quando se fala na inacção dos jovens que tanto se queixam.

Movimento Perpétuo Associativo poderá ser, então, o verdadeiro poema fundador da geração à rasca, mas que ninguém reparou. Porque, já em 2008, Deolinda dizia que havia muito para fazer, muito para mudar. E criticava todos aqueles que “achavam que não podiam”. Com Parva que Sou, Ana Bacalhau e companhia não estão com meias medidas: depois de uma letra em que se apresentam os problemas de que alguns jovens se queixam, fica o chamamento porque, afinal, esta é “a geração ‘eu já não posso mais!’, que esta situação já dura há tempo demais”.

Em 2008, Movimento Perpétuo Associativo passou quase despercebido. Foi preciso surpreender dois Coliseus (ou quatro, se quisermos ser rigorosos) com uma música a chamar os jovens de parvos para que houvesse uma movimentação. Será desta vez, agora que foram mais espicaçados, que os jovem vão dar “a volta a isto”, ou terá sido apenas mais uma “canção ao lado”?

+++Este artigo foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.+++