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Obras a metro

22 Feb
por Maria José Vilas Boas |

A interrupção do serviço ferroviário na totalidade do Ramal da Lousã, anunciada em Dezembro de 2009, rapidamente culminou nos protestos da população local, que viu o seu principal meio de transporte para o emprego desaparecer e ficou com o acesso a outros serviços indispensáveis dificultado, como é o caso dos serviços de saúde e educação, na sua maioria localizados para além das suas áreas de residência e implicando deslocação até Coimbra ou até a outras principais cidades do distrito.

O motivo do encerramento da linha centenária que fazia a ligação entre a freguesia de Serpins (Lousã) e Miranda do Corvo prende-se com o projeto Metro Mondego, que prevê a instalação de um sistema ferroviário que se espera mais moderno, mais prático, mais eficiente, mais ecológico e mais seguro. O grande objetivo é melhorar a rede ferroviária da terceira maior área metropolitana de Portugal, ligando Coimbra B a Serpins através de um metro ligeiro de superfície, do tipo “tram-train”, compatível com a circulação em eixos urbanos e suburbanos.

O Sistema de Mobilidade do Mondego (SMM) contempla, não só a requalificação da Linha da Lousã, com a criação de um troço suburbano entre Serpins e Sobral de Ceira, mas também um troço urbano entre Sobral de Ceira e Coimbra B, que, por sua vez, dará acesso à Linha do Hospital, a ser construída numa segunda fase. Esta última facilitará o transporte de pessoas no centro da cidade de Coimbra, abrangendo as zonas da Câmara, do Mercado, da Universidade e do próprio Hospital.

Considerado um projeto bastante ambicioso, quando concluído contará com duas linhas remodeladas segundo o modelo de bitola europeia, que se estendem por um total de 41,6 Km abrangendo 43 estações e unindo três concelhos. De forma a otimizar o tempo das deslocações e contribuir para o conforto dos passageiros, serão também efetuadas obras adjacentes a algumas das novas estações. O vídeo de apresentação disponível online apresenta todos os pormenores do projecto.

A criação da empresa Metro Mondego, S.A. data de 1996, mas só em 2006, ano em que se comemorou o centenário do Ramal, é que o “tram-train” começou a ganhar contornos mais reais. Em 2008 surge o Movimento de Defesa do Ramal da Lousã, que exigia mais esclarecimentos sobre as alterações que iriam ser feitas e, receando o que acabou mesmo por acontecer, apelava à não suspensão do transporte que servia milhões de pessoas anualmente, sugerindo que se encontrassem outras alternativas.

De facto, o SMM apresentou alternativas, mas não impediu o cancelamento do serviço ferroviário. Atualmente, e desde a desativação do Ramal, a população da Lousã e de Miranda do Corvo tem à sua disposição serviços rodoviários alternativos que não satisfazem quem neles tem de se deslocar diariamente.

Na edição do Jornal de Notícias do dia 2 de dezembro de 2009, a propósito de uma manifestação do Movimento, era notável o descontentamento dos membros, como é o caso de Isabel Simões, que declarava: “Continuamos a não querer o encerramento da linha, porque há outras soluções e, portanto, não se admite que se feche impunemente uma linha centenária sem estudar outras alternativas e, além do mais, agora pugnamos pela segurança dos transportes alternativos”.

Para agravar a situação de descontentamento social que se fazia sentir há já um ano, no final de 2010 e início de 2011 surge a hipótese do novo Orçamento de Estado obrigar ao cancelamento das obras do Metro do Mondego.

Novamente surgem manifestações e são entregues abaixo-assinados na Assembleia da República provindos de cidadãos indignados com a “irresponsabilidade do governo”, que, após dispensar milhares de euros na desativação do Ramal e no início das obras, “decide suspender a construção de um empreendimento fundamental para a região do Mondego e para a população que lá habita”. O Parlamento ponderou a situação e foi já anunciado que as obras continuarão, sendo apenas sujeitas a uma recalendarização.

O Ramal da Lousã torna-se assim mais um dos troços ferroviários desativados em Portugal, mas espera-se que, ao contrário de muitos outros, este volte a ver os comboios passar.

+++Este artigo foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.+++

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