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O Golfo, 20 anos depois

28 Feb
por João M. Vargas |

Vinte anos passados sobre o final da Guerra do Golfo, as relações entre o Ocidente e o mundo árabe pouco parecem ter mudado. Muitas revoltas, muitas mortes, algumas vinganças e outra Guerra do Golfo depois, o mundo não está efetivamente mais seguro. Mas, vinte anos depois, o que se mantém igual e o que mudou?

A Guerra do Golfo, a primeira, começou em 1990, depois das tropas iraquianas invadirem o Kuwait. Na altura, Saddam Hussein era líder do Iraque e vinha de uma dura batalha com o Irão (1980-88). À frente dos EUA estava George H. Bush coadjuvado por um Secretário da Defesa de nome Dick Cheney e auxiliado militarmente, entre outros, por um comandante das forças armadas chamado Colin Powell.

Apesar do lugar na História que a Guerra do Golfo passou a ocupar, não foi, de longe, uma luta longa e sangrenta. Na verdade, os combates entre as tropas da coligação liderada pelos EUA e o exército iraquiano duraram apenas cerca de um mês e meio. Desde a invasão do Kuwait, que despoletou a ação americana, até à chegada a um acordo de paz passaram apenas seis meses. O Iraque invadiu o Kuwait a 2 de agosto de 1990 e a 28 de fevereiro do ano seguinte o presidente Bush decretava o cessar-fogo que permitiria os acordos de paz com Saddam Hussein.

Doze anos depois do fim da ofensiva americana, os confrontos voltaram ao Iraque. Novamente Saddam era o líder árabe, mas no lado americano já estava outro Bush (George W.). Dick Cheney era agora vice-presidente e Colin Powell tinha a pasta de Secretário de Estado. Ao contrário do primeiro confronto, desta vez a coligação não tinha o apoio da ONU e carecia de um motivo convincente para a invasão. E desta vez a guerra demorou mais tempo. É até ainda prematuro dizer que já terminou, uma vez que a paz ainda não chegou ao Iraque.

No final da primeira Guerra, Saddam continuou no poder, após um acordo de paz com as forças da coligação. Na altura, algumas vozes criticaram o George H. Bush por não ter capturado o líder iraquiano. Dick Cheney defendeu, na altura, o seu presidente, dizendo que “fez o que estava certo, quer quando o decidimos expulsar do Kuwait, mas também quando o presidente achou que já tínhamos atingido os nossos objetivos e que por isso não íamos meter-nos em problemas tentando derrubá-lo”. O que é certo é que, em 2003, o filho do presidente e o próprio Cheney voltaram ao Iraque para derrubar Saddam.

Vinte anos depois, pouco mudou nas relações entre o Ocidente e o mundo árabe. Quis a História que esta efeméride se comemore em plena crise política nos países árabes. A Tunísia viu cair Ben Ali e o Egito perdeu Hosni Mubarak. Em muitos outros países os protestos sobem de tom e na Líbia os EUA poderão estar prestes a intervir, perante a resistência de Muammar Kadafi a abandonar o poder.

Por outro lado, outra das peças-chave da primeira Guerra do Golfo continua a ser, e talvez cada vez mais, uma importante presença no nosso dia a dia: o petróleo. Duas guerras depois, chegamos a uma importante conclusão: o Ocidente tem maior poder militar, mas os países do Médio Oriente têm um poder muito mais subliminar, para controlar o quotidiano dos ocidentais.

Mas vinte anos depois, Saddam já não é o Presidente do Iraque. A dinastia Bush está, para já, afastada do governo americano, entregue agora a um muito mais diplomata Barack Obama. Porém, nem por isso podemos dizer que o mundo está mais seguro. Olhando em retrospetiva para o século XX e para a primeira década do século XXI, assistimos a países amigos que se tornam inimigos e, depois, novamente amigos. Assistimos a revoluções em prol de um bem maior que originam, na verdade, males ainda maiores. E assistimos a um mundo cada vez mais fragmentado diplomaticamente.

No meio de tantas guerras e revoluções, Portugal tem-se mantido quase à margem. Apesar do apoio quase constante às posições americanas, nunca chegamos a ter sequer um papel secundário. Mas, nalguns casos, pode ser realmente positivo não passar de figurantes.

+++Este artigo foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.+++

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