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O Piano

17 Apr

O piano soava triste, enchendo a casa com uma melodia de mágoas. Era um choro inquieto, tocante. As paredes, mudas de respeito, escutavam o gemido assaz sofrido que melancolizava o salão, calando-se perante a dor das teclas brancas e pretas que, pausadamente, se moviam ao toque das mãos finas e pálidas de uma mulher.

A pianista debruçava o corpo sobre o piano, qual abraço unificador, formando o cordão que imiscui músicos e música e que os tornam num só. Piano e pianista eram partes de uma essência una, a essência que define a arte das notas musicais.

De cabeça curvada e olhos fechados, com a proximidade singular dos que se amam e conhecem, a pianista sorria misteriosamente para o piano. Não era um sorriso logicamente compreensível, os sorrisos não existem para serem lógicos. Mas a pianista sorria, sorria ilogicamente como todos os artistas, dotados dessa aparente falta de razão que tanto os engrandece, por amarem incondicionalmente a sua arte. E todos sabem que amar não obedece a uma conduta logicamente regrada. Pena que não se ame mais! Pena que não se seja mais ilógico.

O piano soava triste. E, ainda assim, a mulher sorria.

Era o sorriso de uma pianista que amava um piano. Era o sorriso de uma mulher que amava uma parte de si. Era o sorriso de um ser humano realizado. E quantos de nós sorriem como as tantas pianistas que amam pianos?

Quantos de nós sorriem?

O piano soava triste. E com ele uma pianista sorria.

Sorria uma mulher feliz.

Samuel Pimenta escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.

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Por vezes, o mundo pára

3 Apr

A criança brincava com um galho de uma das cerca de dez amendoeiras floridas que a rodeavam. O menino, moreno, um pequeno turco vestido de azul-escuro, agitava o galho como se pegasse num ceptro de ouro, qual gesto imperial. Imerso nas suas fantasias de criança, onde a imaginação governa sem censura e perseguições, o menino sorria inocentemente. Por vezes, corria à volta das amendoeiras vestidas de pétalas rosa, chutando as pedras brancas que cobriam o chão. E ria, ria com a gargalhada doce que todas as crianças usam para encantar o mundo.

Bem perto do menino turco, um cão brincava com o recipiente de onde bebia água. Era outra criança. O cachorro, preso por uma corrente, tocava com a pata dianteira direita no rebordo do recipiente e entornava um pouco da água que tinha para se refrescar. Era a sua forma de se entreter. Nem se lembrava que, se continuasse assim, ficaria sem água para beber. Mas quem exige que as crianças se lembrem do que aos outros lhes compete lembrar?

Cão e menino e menino e cão continuaram na sua brincadeira, cada um imerso no seu mundo fantasioso, um mundo que se reflecte no olhar através de um brilho que todos sabem distinguir, mas que ninguém sabe o que é. O cão entornava água e latia, como que resmungando com ela por lhe ter molhado as patas e o focinho. O menino atirava o ceptro de faz-de-conta para longe, como se fosse o seu jeito de conquistar novos reinos desconhecidos. E menino e cão e cão e menino continuaram a brincar, sós.

Enquanto o cachorro mirava o recipiente que tanto o intrigava, uma pedra caiu ao seu lado; fora o menino a atirá-la, sem olhar. O cão virou-se para a criança, como se a pedra lhe tivesse sussurrado que está nos desígnios do destino que homens e cães se encontrem. Latiu, como que exigindo ao menino que o olhasse. O menino parou de brincar, intrigado com o som que acabara de invadir o seu mundo. Deparou-se com os olhos grandes e curiosos de um animal que o observava atentamente. O cão voltou a latir, como que pedindo ao menino que se aproximasse e o soltasse. Podiam brincar juntos, era isso que duas crianças faziam quando se encontravam.

O menino analisou o cão atentamente. Aproximou-se. O cachorro voltou a latir, abanando a cauda em jeito de satisfação; esperava que o menino o soltasse para que pudessem correr juntos à volta das amendoeiras floridas. A criança deteve-se, intimidada com a agitação do animal. E como que entendendo que seria melhor se se mantivesse quieto, o cão sossegou, pousando a cabeça sobre as patas dianteiras. Foi o suficiente para que o menino caminhasse até junto dele. A criança fez uma festa na cabeça do cachorro. E ambos sorriram.

Estava em terras da Turquia, onde observava cão e menino atentamente. Senti o mundo parar. É que o mundo, por vezes, pára.

Diz o homem que o cão é o melhor amigo do homem. Diz o cão que o homem é o melhor amigo do cão. Companheiros desde os primórdios das civilizações, homens e cães tornaram-se irmãos de alma, já que o sangue não o permite. São amigos. São amigos no verdadeiro sentido desse valor banalizado a que tantos se referem como amizade. Homens e cães e cães e homens são amigos autênticos, dos que não vivem uns sem os outros.

E dos que fazem com que o mundo pare, quando se encontram.

Samuel Pimenta escreve ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico.

Quando tombam as fortalezas de um poder fugaz

20 Mar

«A melhor fortaleza que existe está em não ser odiado do povo», disse Maquiavel sobre os príncipes de uma Europa quinhentista, essa Europa antiga que só se conhece nos amarelados livros da História. Disse Maquiavel que «ainda quando o príncipe tenha fortalezas, de nada servirão elas se o povo o odiar». Sábio que foste, Nicolau Maquiavel. Sábio que és.

Tunisinos, egípcios, líbios, marroquinos, sudaneses, iemenitas, bareinitas, argelinos, sauditas. Povos que conhecem a dor desse garrote a que espíritos iluminados (ou ainda mais sombrios que as sombras) chamam de outras senhoras e coisas que o valham. Ditaduras, gritam os povos sem temor! Liberdade, gritam os sonhadores a quem a voz não lhes é silenciada nem por intimações e balas e torturas, essas extensões da mão-de-ferro de regimes que nada têm de valoroso e democrático. Basta, gritam os seres mais humanos que os humanos que os governam, como se inspirados por Almada Negreiros gritassem morte aos dantas que os oprimem. O mundo está a mudar.

Os povos da Terra despertam, ansiando liderar o seu próprio destino. Querem libertar-se das imundícies e dos caprichos do poder que, sobranceiro, os vigia. Querem libertar-se da privação de um bem que, por mais exíguo que o façam parecer, é o maior bem que aos homens dá humanismo: o livre arbítrio. E é por quererem pensar e decidir e actuar com a certeza de que são humanos emancipados, que os povos da Terra gritam nas ruas desse mundo de senhores e tiranos, quais esclavagistas de almas e de consciências. Os povos da Terra anseiam mudança. E eles sabem. Eles sabem que o poder é fugaz.

Conhecem o ódio, mas também a esperança. E não só os tunisinos, egípcios, líbios, marroquinos, sudaneses, iemenitas, bareinitas, argelinos e sauditas bradam contra esses homens infectos que ultrajam os cânones revolucionários franceses (mas que ao mundo pertencem) da liberdade, igualdade e fraternidade. Que se olhe para a Europa! Não a de Maquiavel, mas a do Euro. Que se olhe para a América! Não a das oportunidades, mas a que é irresponsável e prepotente. Que se olhe para a Ásia! Não a da cultura milenar, mas a que se maquilha de ocidental para o que mais lhe apraz. Quantos povos vivem sob os ditames das fortalezas que os rodeiam e os esmagam? E quantos gritam Basta!, mesmo quando esses senhores iluminadamente sombrios conspiram para que as vozes de revolta passem por mudas? Quantas tunísias são precisas? Quantos egiptos existirão ainda? Quantas líbias derramarão mais sangue?

Perguntas. Sem respostas claras.

Disse Maquiavel que «a melhor fortaleza que existe está em não ser odiado do povo». Pois serão o ódio e, acima de tudo, a esperança, que derrubarão todas as fortalezas da Terra.

Só então os povos poderão seguir, livres, rumo ao destino que os espera.

Samuel Pimenta escreve ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico.

Quem dera que caíssem mais batons

6 Mar

Todos os dias, a plataforma da gare era pisada pelas multidões que chegavam e partiam nos comboios. Eram multidões de gentes agitadas, gentes doentiamente obcecadas pelo tempo, pelas horas, pelos relógios. Eram multidões de gentes maquinalmente programadas para andar, correr e pensar no não chegues tarde ao trabalho ou no que tédio de emprego que tenho. Eram multidões de humanos, dos que pouco, ou muito, têm de humano.

A mulher de mala vermelha que descera do comboio, uma das humanas da multidão que, naquela manhã fresca e luminosa, pisara a plataforma da gare, era também dessas humanas apressadas e indiferentes aos humanos que as rodeiam. Pelo som dos seus saltos altos pretos que pisavam apressadamente o betão da plataforma, num convulsivo toc-toc ritmado, percebia-se que estava atrasada. Olhou para o relógio uma vez e, aproximando-se das escadas, saltitou até ao primeiro dos mais de trinta degraus que davam para a saída da estação.

Todos os dias, fazia o mesmo percurso, nem dando conta de que não era o pulsar do peito que a movia: era o pulsar do tempo, esse déspota que governa um regime de ponteiros e marcas numéricas. Tic-tac. Tic-tac. Tic. Tac. Tic. Tac. O som da pulsação eternamente ritmada, a mesma que dá vida a esse coração silencioso que regula a Humanidade.

A mulher pisou o segundo degrau, distraidamente. Lembrou-se de tirar da mala o batom, queria retocar os lábios. Pisou o terceiro degrau e espreitou para dentro da mala. Pisou o quarto degrau. Não encontrava o batom. Pisou o quinto degrau. Maldito batom desaparecido! Pisou o sexto degrau. Tropeçou! Não caiu, conseguiu equilibrar-se sobre os saltos altos pretos. Mas viu todos os objectos e bugigangas e pertences e lixo e coisas sem definição esgueirarem-se da mala e rolarem sobre as escadas, como se ansiassem libertar-se da clausura a que haviam sido remetidos.

A mulher deteve-se, desconcertada. Olhou para a mala vermelha no chão, vazia, e para todo o seu recheio disposto sobre os degraus que ainda teria de descer. Começou por apanhar a carteira, depois uma caixa com comida, as chaves de casa, as luvas. Parou. Percebeu que, dos humanos que desciam as escadas, nenhum parara para a ajudar. Talvez estivessem atrasados, como ela. Talvez não tivessem reparado, como lhe acontecia tantas vezes. Talvez não quisessem ajudar, era a hipótese mais plausível. Não os censurou, era igual a eles. E sentia na pele o que, por certo, já fizera sentir tantas vezes na pele de outrem: indiferença.

Pegou num pacote de lenços de papel e colocou-o dentro da mala. Pegou na escova com que costumava pentear-se e no pequeno espelho que trazia sempre consigo. Queria sair dali, estava envergonhada e entristecida. Pegou em papéis dobrados, em blocos de notas, em canetas e lápis. Devolveu todos os objectos à clausura da mala vermelha. Excepto um, que parecia esperar pacientemente que lhe pegassem: o batom.

A mulher desceu até aos últimos degraus. Mirou alguns dos humanos que continuavam a descer as escadas, focados no não posso chegar tarde ou no tenho mais que fazer, não a posso ajudar. Abstraindo-se do desconforto dos olhares que a evitavam, um sinal claro de não contes comigo, inclinou-se para apanhar, por fim, o maldito batom. Inesperadamente, uma mão adiantou-se a ela. Era um homem. Pegou no batom e entregou-lho. Ela, embasbacada, não conseguiu proferir qualquer palavra. Ele, simpático, limitou-se a olhá-la.

Olharam-se. Sorriram.

A mulher sorriu como quem diz obrigado. O homem sorriu como quem diz bom dia. E após um instante em que o mundo parou para ambos, num suspenso com tanto de irreal como de etéreo, tiveram a certeza de que há sorrisos e gestos que, por mais simples e ordinários, nos definem como humanos que se organizam em sociedade, mesmo quando se vive sob os caprichos de um regime ditatorial a que chamam de tempo. No fundo, somos humanos que vivem, segundo a moral e o civismo, uns para os outros.

Quem dera que caíssem mais batons…

Samuel Pimenta escreve ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico.

Elogio às guadalupes da Terra

18 Feb
por Samuel Pimenta, autor da trilogia Heros |

Chama-se Guadalupe. Ainda era menina e já repartia o único pão que lhe servia de alimento; era a forma que tinha de não ficar sem amigos que brincassem com ela. Gostava de correr, descalça, sujando os pés com a terra cor-de-açafrão. Pouco se importava; gostava de sentir os pés quentes, acarinhados pelo calor do solo, dos poucos calores que lhe davam colo e consolo. Era esse e o dos pais.

A mulher cresceu a ajudar, consciente de que a dádiva inocente lhe garantiria auxílio nos momentos de maior carência. A mãe dizia filha minha, dá tudo o que tens, pois o céu te dará em troca. O pai dizia não guardes só para ti o bem que te for dado, pois ao dares parte desse bem, torná-lo-ás num bem ainda maior. E a mulher deu e deu e deu. E deu. E deu. E deu. Sem nunca pedir. Sem nunca desejar. Sem nunca desistir. Mas sempre movida pelo mistério onírico e etéreo que há na dádiva. Mistério para os leigos, não para ela. A mulher cresceu a ajudar. Ajudar fê-la crescer.

De sorriso generoso e olhos sabiamente castanhos, Guadalupe-mulher deixou a barraca que a viu nascer, caminhando rumo ao destino que sentia que era o seu. Trabalhou. Juntou algum dinheiro. Pouco. Deu algum dinheiro. Pouco. Até que casou, sem ilusões, para não se desiludir. Casou com um homem da sua idade, dono de uma pequena pensão junto à fronteira. E a mulher que cresceu a ajudar percebeu que tinha uma missão a cumprir.

Do outro lado, no país das gentes desenvolvidas, habitava a maior de todas as fortunas, atraindo homens e mulheres como nem ouro, prata e diamantes conseguiram atrair nos tempos idos em que o mundo era dominado por impérios: esperança. Guadalupe-mulher sabia que, todos os dias, as gentes do seu país em desenvolvimento tentavam imiscuir-se no país das gentes desenvolvidas. E sem que o marido soubesse, todas as noites, na cave da pensão, recebia os que tinham no fundo do olhar o sonho de pisar o solo daquela terra prometida, onde não corria nem leite, nem mel; antes a esperança de uma vida menos áspera e amarga. Buscavam um el dorado de oportunidades, mesmo que tivessem de se sujeitar à exploração, ao espancamento, à violação e a todas as atrocidades cometidas pelas gentes de má-fé. Não era o caso da mulher, da pobre mulher que deixara de ser pobre para ser um pouco menos pobre e que, ainda pobre, nunca se esquecera de ajudar; era a boa-fé que a movia. Cuidava das feridas dos que, para além do corpo, traziam a alma machucada. Partilhava do seu pão com os que, para além da fome de comida, tinham fome de bondade. Dava-se na mais pura das dádivas, sabendo que aquelas gentes, homens e mulheres, rapazes e raparigas, meninos e meninas, não mais a veriam, certamente, mas que o pouco que tinha para lhes dar fosse o suficiente para se recordarem, por toda a vida, de que não há maior bem do que aquele que pode ser partilhado com o outro.

Guadalupe cresceu a ajudar. E, como ela, tantas mulheres e homens deste mundo dedicam as vidas a valores mais nobres do que os que, por berço (ou por riqueza), têm sangue azul. Não é pedido a quantas guadalupes que o mundo tem que se convertam à dádiva. Não é pedido a quantas guadalupes que o mundo tem que se entreguem a causas que, sem que se apercebam, as engrandecem e as tornam imortais; não daqueles imortais que todos conhecem, mas dos que prevalecem na memória dos simples. E mesmo quando esses homens e mulheres, essas guadalupes que o mundo tem, são oprimidos pelos caprichos da lei, da tradição e dos fortes, mantêm-se fiéis às convicções que os definem como seres humanos.

Tal como a mulher, que nasceu e cresceu pobre e, ainda assim, cresceu a ajudar, viveu e ajudar e, com certeza, morrerá a ajudar. Vive num país liderado por gentes mesquinhas. Corrijo, vive num mundo liderado por gentes mesquinhas. E sem medo, sem se entregar à cómoda condição de observar, a mulher é grande, mesmo quando todos conspiram para a diminuir, tentando roubar-lhe a excelsa condição de imortal. E mesmo que essas gentes a diminuam, castrando-a do bem maior da dádiva e regozijando-se por pensarem que a venceram, digo eu que ela será eternamente grande e imortal, pois nenhum homem pode roubar a outro homem o que lhe está escrito na alma.

Samuel Pimenta escreve ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico.

O Homem que nasceu e morreu Homem

4 Feb
por Samuel Pimenta, autor da trilogia Heros |

Nasceu Homem.

Primeiro, australopithecus, homo habilis, homo erectus, homo sapiens neanderthalensis, homo sapiens sapiens. Depois, nasceu Homem. E com ele nasceu o Mundo.

Esventrou a rocha e apossou-se da terra, como a fera que procura garantir a sua própria sobrevivência. De recolector, passou a explorador. Abandonou as bagas e as ervas, trocando-as por sementes que germinavam nas hortas que criou em casa. Abandonou as cavernas frias e escuras por aldeamentos cujas cabanas se cobriram de feno e madeira. Abandonou a vida itinerante, despertando para os proveitos de uma vida sem migrações. Alheio à animalidade que o definia, o Homem deslumbrou-se com o seu poder de domínio, governando sobre a Terra como o mais racional de todos os seres. Pena que a Razão não passasse de uma mera utopia sua.

O Homem fundou cidades e países e impérios. Estendeu o seu poderio além-terra a além-mar. Foi feudalista, imperialista, colonialista. Enfrentou as agruras do oceano e trouxe à Civilização mundos outrora ocultos. Fundiram-se as gentes, cruzaram-se as culturas, marcaram-se os povos. Latinos, ameríndios, eslavos e germânicos. Semitas, japoneses, vikings e curdos. Arianos, hindus, turcos e celtas. E nasceram as raças eleitas. E as rechaçadas. As mártires. Perseguidas. As escravizadas. E chacinadas. E as que se extinguiram, deixando a Humanidade mais pobre.

O Homem virou tirano. Florestas dizimadas e mares conspurcados com a imundície do progresso. Solos tornados inférteis pela cobiça mundana e ares infectados com fumos que apodreceram a vida. Gentes alienadas e umbiguistas, controladas pela mão invisível do destino. Ou da economia. A tirania silenciosa instaurada por aquele que, em tempos, foi homo sapiens sapiens, conduziu a Civilização à ruptura e à necessidade de abraçar uma nova ordem mundial. Confrontado com a dureza dos factos, o Homem fechou os olhos e cruzou os braços, qual birra de criança, negando que o mundo que tão orgulhosamente construíra pudesse vir a ruir. Pobre Homem ingénuo, nem se deu conta da putrefacção que atingiu as fundações do seu Lar.

Os céus e os mares inundaram a terra e a terra engoliu as cidades. As espécies extinguiram-se e os recursos escassearam. A fome corroeu as alianças. A sede instigou novas guerras. E o Homem não aproveitou a chance de fundir o progresso com o futuro, um futuro curado das doenças que começaram a destruir a sua Era. Manteve os hábitos, manteve os vícios, manteve as ambições. E recusou a mudança, negando à Civilização a oportunidade de abraçar uma nova esperança.

Nasceu Homem. E por isso imperfeito. Mas a imperfeição não justifica o apedeutismo. O Homem foi criança. Brincou, sonhou, cresceu. O Homem cresceu. Foi adolescente, jovem, adulto. O Homem cresceu. Foi adulto e esqueceu-se de sonhar, de brincar, de crescer. O Homem não cresceu. O Homem não aprendeu. Foi velho. Recordou, sonhou, chorou. Morreu. O Homem morreu.

Morreu Homem. E com ele morreu o Mundo.

Samuel Pimenta escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.