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O estado a que o Egito chegou

4 Feb
por Sara Recharte, editora de Internacional |

Desde o início do ano que os acontecimentos no mundo árabe têm vindo a despoletar as mais diversas polémicas. Inesperadamente, a revolução que assola agora o mundo árabe, à qual muitos já chamaram a «nova era do Médio Oriente», nasceu na Tunísia. A imolação de Mohammed Bouazizi veio iluminar um novo caminho para os regimes árabes: uns autocráticos, outros corruptos, outros onde a população vive necessidades extremas e assiste à vida faustosa dos seus governantes.

Esta foi a vez do Egito, o maior país desta região, onde as primeiras manifestações foram tímidas e nada fazia prever conturbações populares desta dimensão. Ao longo de semanas, os egípcios passam o dia e a noite nas ruas, ignorando quaisquer recolheres obrigatórios. Hoje, seria o dia da partida de Hosni Mubarak, há 29 anos no poder.

O que acontecerá se Mubarak abandonar o país? O efeito contagiante que agora envolve as massas em manifestação em países como a Jordânia ou o Iémen alargar-se-ia: se o tirano Mubarak é afastado, por que não exigir a saída imediata de do iemenita Saleh ou do rei jordano Abdullah II? E, sem Mubarak, se as tensões se radicalizarem e caírem nas fações islâmicas, em que posição ficarão os Estados Unidos e Israel?

O tratado de paz entre o Egito e Israel foi assinado em 1979, ano em que a comunidade internacional assistiu à revolução iraniana. O regime de Mubarak é, da mesma forma, um grande aliado da governação de Barack Obama na luta contra o terrorismo islâmico. Como pode o presidente americano encontrar o ponto de equilíbrio? Se apelar ao apoio a Mubarak, Obama destruirá toda a tradição democrática que converge na Constituição americana. Os ânimos, possivelmente, radicalizar-se-ão entre a população e a Irmandade Muçulmana, força islâmica que é também o maior partido da oposição, tirará proveito da situação, islamizando o Egito. Por outro lado, o que sucederá se, indiretamente, Obama expulsar o presidente há quase três décadas no poder? Se apoiar os protestos do povo e pedir a Mubarak que se afaste? Esta força aliada no Médio Oriente contra o terrorismo vai perder-se e o tratado de paz com Israel corre também esse risco. Aliás, o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu já pediu aos Estados Unidos e a outros países que, qualquer que seja o regime a suceder ao de Hosni Mubarak, respeite o tratado de paz em vigor há 32 anos.

Mubarak disse já que se retiraria em setembro, mas isso não demoveu os protestos e contestações. Israel teme que o novo regime se torne um aliado dos palestinianos. E, na posição mais difícil, encontra-se Barack Obama que tenta negociar, quase na sombra, uma saída para o presidente egípcio. A crise no Egito é o mote para o O Estado a que o Egito Chegou, dossier inaugurado esta semana no Clique.

+++Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.+++

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Ainda as escolas com contrato de associação

29 Jan
por João M. Vargas, Director de Conteúdos |

Na quarta-feira, o Clique publicou uma reportagem sobre os protestos das escolas com contrato de associação contra as medidas do Governo quanto ao seu financiamento. Segundo o decreto-lei e a portaria publicados nos últimos dias de dezembro, estas escolas veem os valores conseguidos pelo Estado para o exercício das suas atividades bastante reduzidos.

Esta sexta-feira, no final de uma semana de protestos e reivindicações, o Clique volta a dar destaque ao tema. E parece-nos importante voltar a fazer uma referência a este assunto, não para repetir o que está a acontecer, mas para destacar as consequências das medidas que estão a ser tomadas.

O Ministério da Educação avança que os cortes são fundamentais para reduzir a despesa e aplicar as medidas de austeridade. Está certo o ministério quando diz que o Estado vai poupar dinheiro: quanto a isso, os números não mentem, já que pagará menos cerca de 30% a cada escola com contrato de associação.

As escolas dizem que não podem sobreviver com tão pouco dinheiro e que, por isso, terão que fechar portas. Leigos na matéria interrogam-se: como é que as escolas “púbicas” conseguem sobreviver com um financiamento de cerca de 80000€ por ano, por turma, e uma escola com contrato de associação não consegue? A resposta é simples: muitas destas escolas têm infraestruturas muito recentes e modernas. Por outro lado, são as escolas mais bem cotadas nos rankings nacionais. Estes dois fatores ajudam a explicar o motivo das dificuldades financeiras: boas instalações e bons resultados custam dinheiro. Além disso, o investimento na construção de raiz de muitas das escolas tem que ser pago.

Mas o que choca mais em todo este caso é a forma como o Estado tratou estas escolas. Grande parte destas escolas foram construídas para satisfazer as necessidades da rede pública. Ou seja, quando foram necessárias escolas públicas e o Estado não tinha dinheiro para as construir, recorreu a parcerias com privados para suprir as necessidades. Isto é, empresas privadas investiram dinheiro em infraestruturas que o Estado precisava mas não podia pagar. Hoje, que precisa de cortar nos gastos, o Estado rompe os contratos que haviam sido feitos a longo prazo, deixando as empresas privadas com edifícios vazios e, em muitos casos, por pagar.

Alguns leigos, outros nem tanto, têm vindo dizer à comunicação social que estas escolas se aproveitaram do Estado para enriquecer. Não se negará que as escolas com contrato de associação têm um subsídio maior e que as empresas privadas têm lucro. Mas é fundamental que ter em mente um aspeto: as empresas privadas têm em vista o lucro e não apenas o mecenato.

Os cortes agora impostos terão, ainda, outras consequências importantes a médio prazo. Por um lado, as escolas perderão turmas (muitas delas já não abrirão ciclos – 5º, 7º e 10º anos – em setembro). Não abrindo ciclos, entrarão numa morte lenta. Obviamente que estas empresas não manterão uma escola que dê prejuízo. A solução será, então, o fecho imediato já em setembro, para evitar maiores prejuízos. Assim, ficam os alunos impedidos de concluir o seu ciclo na mesma escola (algo que o Presidente da República definiu como fundamental). E se as escolas fecharem já em setembro (o que se prevê que aconteça caso comecem a perder turmas) a escolas “públicas” ver-se-ão, de repente, a braços com um número muito elevado de alunos.

Estes exemplos ajudam a demonstrar que as consequências das medidas tomadas pelo governo terão mais consequências do que possa parecer à primeira vista. Pior que isso, serão desaproveitadas instalações de ensino excelente (apesar de não terem equitação, campos de golfe ou piscinas). Além dos professores e funcionários que ficarão sem emprego, o ensino perderá, inegavelmente, muita qualidade, em virtude do excesso de alunos por turma. E perder-se-ão todos os investimentos que foram feitos nos últimos anos, por privados, para prestar um serviço público que o Estado não assegurava.

Sai mal, desta história, a Ministra da Educação, que revelou profundo desconhecimento da realidade da rede escolar. Sai mal Mário Nogueira, da FENPROF, que fez uma distinção entre professores, relegando para segundo plano aqueles que lecionam nestas escolas. E sai mal a opinião pública, que por ignorar como de facto funcionam estas escolas as equiparam a particulares e, por isso, não dá o devido crédito aos protestos que têm decorrido.

Seja qual for o final desta história, é fácil prever quem sairá por cima. A Ministra já se mostrou inflexível e parece que de facto não cederá. Mais uma vez fica patente a falta de planeamento e informação do Governo, que se prepara para dispensar escolas que, no ano passado, eram indispensáveis.

+++Este artigo foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.+++

Na quarta-feira, o Clique publicou uma reportagem sobre os protestos das escolas com contrato de associação contra as medidas do Governo quanto ao seu financiamento. Segundo o decreto-lei e a portaria publicados nos últimos dias de Dezembro, estas escolas vêem os valores conseguidos pelo Estado para o exercício das suas actividades bastante reduzidos.

Esta sexta-feira, no final de uma semana de protestos e reivindicações, o Clique volta a dar destaque ao tema. E parece-nos importante voltar a fazer uma referência a este assunto, não para repetir o que está a acontecer, mas para destacar as consequências das medidas que estão a ser tomadas.

O Ministério da Educação avança que os cortes são fundamentais para reduzir a despesa e aplicar as medidas de austeridade. Está certo o ministério quando diz que o Estado vai poupar dinheiro: quanto a isso, os números não mentem, já que pagará menos cerca de 30% a cada escola com contrato de associação.

As escolas dizem que não podem sobreviver com tão pouco dinheiro e que, por isso, terão que fechar portas. Leigos na matéria interrogam-se: como é que as escolas “púbicas” conseguem sobreviver com um financiamento de cerca de 80000€ por ano, por turma, e uma escola com contrato de associação não consegue? A resposta é simples: muitas destas escolas têm infra-estruturas muito recentes e modernas. Por outro lado, são as escolas mais bem cotadas nos rankings nacionais. Estes dois factores ajudam a explicar o motivo das dificuldades financeiras: boas instalações e bons resultados custam dinheiro. Além disso, o investimento na construção de raiz de muitas das escolas tem que ser pago.

Mas o que choca mais em todo este caso é a forma como o Estado tratou estas escolas. Grande parte destas escolas foram construídas para satisfazer as necessidades da rede pública. Ou seja, quando foram necessárias escolas públicas e o Estado não tinha dinheiro para as construir, recorreu a parcerias com privados para suprir as necessidades. Isto é, empresas privadas investiram dinheiro em infra-estruturas que o Estado precisava mas não podia pagar. Hoje, que precisa de cortar nos gastos, o Estado rompe os contratos que haviam sido feitos a longo prazo, deixando as empresas privadas com edifícios vazios e, em muitos casos, por pagar.

Alguns leigos, outros nem tanto, têm vindo dizer à comunicação social que estas escolas se aproveitaram do Estado para enriquecer. Não se negará que as escolas com contrato de associação têm um subsídio maior e que as empresas privadas têm lucro. Mas é fundamental que ter em mente um aspecto: as empresas privadas têm em vista o lucro e não apenas o mecenato.

Os cortes agora impostos terão, ainda, outras consequências importantes a médio prazo. Por um lado, as escolas perderão turmas (muitas delas já não abrirão ciclos – 5º, 7º e 10º anos – em setembro). Não abrindo ciclos, entrarão numa morte lenta. Obviamente que estas empresas não manterão uma escola que dê prejuízo. A solução será, então, o fecho imediato já em setembro, para evitar maiores prejuízos. Assim, ficam os alunos impedidos de concluir o seu ciclo na mesma escola (algo que o Presidente da República definiu como fundamental). E se as escolas fecharem já em Setembro (o que se prevê que aconteça caso comecem a perder turmas) a escolas “públicas” ver-se-ão, de repente, a braços com um número muito elevado de alunos.

Estes exemplos ajudam a demonstrar que as consequências das medidas tomadas pelo governo terão mais consequências do que possa parecer à primeira vista. Pior que isso, serão desaproveitadas instalações de ensino excelente (apesar de não terem equitação, campos de golfe ou piscinas). Além dos professores e funcionários que ficarão sem emprego, o ensino perderá, inegavelmente, muita qualidade, em virtude do excesso de alunos por turma. E perder-se-ão todos os investimentos que foram feitos nos últimos anos, por privados, para prestar um serviço público que o Estado não assegurava.

Sai mal, desta história, a Ministra da Educação, que revelou profundo desconhecimento da realidade da rede escolar. Sai mal Mário Nogueira, da FENPROF, que fez uma distinção entre professores, relegando para segundo plano aqueles que leccionam nestas escolas. E sai mal a opinião pública, que por ignorar como de facto funcionam estas escolas as equiparam a particulares e, por isso, não dá o devido crédito aos protestos que têm decorrido.

Seja qual for o final desta história, é fácil prever quem sairá por cima. A Ministra já se mostrou inflexível e parece que de facto não cederá. Mais uma vez fica patente a falta de planeamento e informação do Governo, que se prepara para dispensar escolas que, no ano passado, era indispensáveisl.

Mundo Compacto

24 Jan
por Pedro Miguel Coelho, Editor de Portugal |

O Clique continua na sua senda pela abordagem original da atualidade nacional e internacional, numa segunda edição que, espero eu, mantenha os leitores da semana passada e traga alguns novos.

Para além da óbvia revisão das campanhas eleitorais para as Presidenciais que se realizam este domingo, vamos ao fundo da questão e recordamos as eleições de 1986, as únicas que em Portugal acabaram por resultar numa segunda volta, com Freitas do Amaral a ser batido pela esquerda unida em torno de Mário Soares.

Ainda nos destaques nacionais, os que me são mais ‘caros’, daremos especial atenção ao aumento do salário mínimo até aos 500 euros no final deste ano de 2011. Um sinal importante para as famílias num ano de crise, mas que merece a reprovação de alguns representantes dos trabalhadores, por pecar por tardio – tentaremos perceber os dois lados da questão e entender as mudanças provocadas por esta alteração.

Surge também como destaque uma reportagem sobre os pequenos partidos, aqueles que muitas vezes se assumem como antissistema mas que procuram encontrar um lugar nele. PCTP-MRPP, MEP e PNR são os destacados nesta reportagem.

Outros conteúdos, nomeadamente um artigo de fundo sobre a variância dos dirigentes nos clubes nacionais ou a polémica do caso de plágio no logótipo dos Jogos Olímpicos de 2016, para além das séries televisivas que marcaram a última década e o concerto de The Legendary Tigerman, destaque da semana nas Atualidades, compõem uma edição que está composta de diversidade.

E numa semana tão cheia de acontecimentos, nada melhor do que esperar pela madrugada de sexta para sábado e tomar conta da pulsação do mundo, numa visita rápida pelo Clique, que não tendo ainda uma versão para tablets, outro dos assuntos que abordaremos, continua a caminhar no rumo de uma informação para os novos tempos. É um prazer estar por cá, nesta equipa de jovens e talentosos profissionais, a dar conta de como anda a vida nesta Terra.

+++Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.+++

O primeiro

13 Jan

por Gonçalo André Simões, Joana Margarida Bento e João M. Vargas |

Todos os anos, em dezembro, quando se olha em retrospetiva, tem-se a tendência para dizer que o mundo mudou no ano que então termina. Há sempre uma qualquer força que impele os analistas (profissionais e amadores) a definirem o ano anterior como um marco importante na História da Humanidade.

Eventualmente, 2010 terá sido um ano importante. Se terá mudado o mundo? Provavelmente não, mas na passagem de ano gostamos de pensar que sim. Seja como for, duas semanas passadas deste novo ano, já temos algum distanciamento da festa que nos permite olhar para trás e rever o ano e, sobretudo, olhar para a frente e encarar o futuro.
2011 é anunciado como o ano da crise, da austeridade, do desemprego. Porém, a esses anúncios já estamos habituados nos últimos “janeiros”. Dizem que agora é a sério, que vamos mesmo sentir o que é a crise. Talvez assim seja, mas de nada serve fazer futurologia. Esperemos para ver e, principalmente, precavamo-nos ante o que pode vir.
Temos o hábito de pensar que a crise é, indubitavelmente, um mau momento para uma sociedade. Teórica e estatisticamente assim é, já que os números não enganam: mais desemprego, mais impostos, menos salários, mais dívidas. Tudo isto, naturalmente, origina mais descontentamento social e, genericamente, uma população mais triste. Contudo, não é forçoso que olhemos a crise como uma época de decadência e regressão.
Em entrevista a Mário Crespo, há uns dias, a Professora Elvira Fortunato, coordenadora do projeto da Universidade Nova de Lisboa que desenvolveu transístores de papel, dizia que os momentos de crise são também momentos de criação, momentos em que surgem muitas inovações. Esta opinião não é nova, mas é importante que a tenhamos em mente. É nestas alturas de crise que grandes génios se podem revelar.
Devemos, pois, orientar o nosso olhar em 2011 para o que virá de bom. O mau, o péssimo, já nós temos conhecido nos últimos anos. E já sabemos que existe. Mas deixemo-los lá ficar onde estão e caminhemos em frente, rumo a um futuro mais promissor.
É num contexto de crise económica, social mas, também, do jornalismo que surge o Clique. Esta revista online que agora lançamos pretende aproveitar precisamente a crise para mostrar que ainda há boas notícias para dar. E que das más notícias também podem surgir ideias positivas.
Criado por jovens jornalistas, o Clique constitui-se agora na sua primeira edição Web e rádio e ambiciona implementar-se, futuramente, no panorama informativo online. Não se espere do Clique notícias que vemos quando ligamos as televisões às oito. O Clique não pretende ser um sucedâneo nem um substituto dos meios de comunicação tradicionais. Pelo contrário, queremos antes complementar esses media, dizendo aquilo que os mainstream não podem ou não querem dizer. Ainda assim, o Clique não promete romper com o que é notícia e com o dia-a-dia de Portugal e do Mundo. O que se pode esperar, no fundo, é um outro olhar sobre a atualidade.

+++Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico+++