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O serviço público e o mercado

13 Mar

Apesar de toda a evolução da rádio e da televisão ao longo das últimas três décadas, a legitimidade do serviço público continua muito ancorada no seu contributo positivo, insubstituível e diversificado: uma programação mais qualificada e atenta à inovação do que a dos seus concorrentes comerciais; o seu consequente papel regulador do mercado audiovisual; as preocupações com a programação cultural ou relacionada com os gostos das minorias e com os interesses sociais de reduzida expressão; a salvaguarda de programas e canais (ou serviços de programas) de nulo interesse comercial; a certeza do seu capital ser nacional num quadro empresarial cada vez mais preenchido por multinacionais e poderosos operadores de telecomunicações, o papel pioneiro no multimédia e na mobile tv; etc.

Afinal, são estes basicamente os argumentos que fundamentam o inabalável e continuado consenso existente há largas décadas em torno da sua existência, expresso num vasto conjunto de documentos, alguns deles bem recentes, aprovados em diversas instâncias europeias, com o contributo de todos os governos dos países deste continente.

Infelizmente – sendo crassa a ignorância com que alguns jornalistas e políticos falam sobre este tema… -, poucos terão alguma vez lido esses textos.

Há, porém, um outro argumento menos utilizado neste debate sobre o serviço público – as consequências de uma eventual privatização do operador público ou de parte dele para todo o mercado dos media e das indústrias audiovisuais.

Admitamos, como mero exercício, que a RTP1 seria privatizada, como alguns preconizam. O novo operador comercial não teria, deste modo, os mesmos limites específicos de emissão de publicidade – a RTP não pode ultrapassar os seis minutos por hora, metade dos concorrentes -, nem perderia tempo a conceber uma programação que não visasse maximizar as audiências.

As consequências não seriam difíceis de calcular.

A curto prazo, o mercado publicitário teria de repartir-se por três operadores em concorrência directa, com uma inevitável redução do bolo de cada um.

No entanto, o contexto actual agravaria substancialmente a sua situação. Em primeiro lugar, porque a crise económica tem provocado uma diminuição do mercado publicitário na televisão. Em segundo lugar, visto que o inevitável aumento do número de canais de acesso livre decorrentes do fim das emissões analógicas, previsto para Abril de 2012, agudizará substancialmente a fragmentação das audiências e, em consequência, do volume de publicidade. Em terceiro lugar, porque a inovação tecnológica, nomeadamente através dos guias electrónicos de programação, agiliza crescentemente a capacidade de muitos consumidores para ultrapassar os intervalos publicitários, facto que não será completamente compensado pelas recentes alterações legislativas que permitirão, em várias situações, a colocação de produto. Em quarto lugar, porque, como vários estudos vêm demonstrando, as novas gerações encontram mais na Internet do que na televisão uma resposta adequada à sua procura de novos meios de entretenimento, informação e cultura.

A privatização da RTP1 seria pois – não hesito em dizê-lo! – um grave erro, com tremendas consequências para os operadores privados.

Mas não apenas para estes. O aumento do número de operadores faria baixar o preço da publicidade, com reflexos nos outros meios – rádio e imprensa. A inevitável redução das receitas dos operadores de televisão obrigaria também a uma clara redução dos investimentos em alguns produtos televisivos, acarretando graves perdas na indústria audiovisual e, em consequência, uma diminuição na própria qualidade da programação difundida.

*Professor universitário e ex-Secretários de Estado da Comunicação Social.

Alberto Arons de Carvalho escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.

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"A única pressão que sinto é a minha"

8 Mar

Telma Monteiro foi a personalidade do mundo do desporto que o Clique decidiu distinguir. Hoje, dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, destacamos o seu testemunho.

Numa breve entrevista ao Clique, Telma fala-nos um pouco de tudo. Das convicções e emoções que lhe advêm da sua carreira desportiva, do que lhe representa este dia e dos obstáculos que ainda tem para deitar ao tapete no presente ano.

O que a levou a escolher o Judo como desporto de eleição?

A primeira vez que experimentei fazer judo tinha 12 anos, mas na altura estava mais interessada em jogar futebol. Mais tarde por incentivo da minha irmã que entretanto também praticava, decidi voltar e já não quis sair.

Quais os momentos que mais a marcaram enquanto judoca?

Felizmente foram vários. Tenho ganho muitas medalhas em Europeus e Mundiais e todas são importantes, porque todas juntas representam o meu percurso do qual me orgulho muito.

Que significado tem para si participar em eventos, como o I Encontro Mulher e o Judo, que promovem o desporto que pratica e que valorizam a importância da, cada vez maior, afirmação das mulheres nesse mesmo desporto?

É importante incentivar as mulheres a praticar desporto, normalmente as mulheres são de uma forma geral quem “cuida da família”. Eventos como esse servem, não só para incentivar as mulheres a fazer desporto, mas este em particular serve sobretudo para divulgar o judo feminino e trazer mais mulheres para esta modalidade.

Como figura pública e referência nacional, tem consciência que é considerada um exemplo para muitas mulheres portuguesas?

Tenho consciência que isso pode acontecer, penso que com a minha atitude e maneira de estar transmitida através do desporto posso ser uma referência para muitas mulheres.

Sempre que participa numa competição sente uma pressão e responsabilidade acrescidas por ser a atual  número 2 no Ranking Mundial da sua categoria (-57kg)?

Não, a única pressão que sinto é a minha, a de querer ser melhor, de querer ser a melhor, sempre fui assim, independentemente da minha posição do ranking. Penso que é essa maneira de estar que me ajuda a estar no topo.

Para o presente ano, quais são as principais metas que pretende atingir?

Este ano tenho o Campeonato da Europa em abril , em Istambul, gostava de ser Campeã da Europa, depois tenho ainda dois Grand Slam, um em Moscovo e outro no Rio de Janeiro. Em agosto  tenho o Campeonato do Mundo, o meu objetivo  é sempre ganhar as provas em que entro, nem sempre é possível, mas são as minhas metas a atingir este ano.

+++Este artigo foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.+++

Quem dera que caíssem mais batons

6 Mar

Todos os dias, a plataforma da gare era pisada pelas multidões que chegavam e partiam nos comboios. Eram multidões de gentes agitadas, gentes doentiamente obcecadas pelo tempo, pelas horas, pelos relógios. Eram multidões de gentes maquinalmente programadas para andar, correr e pensar no não chegues tarde ao trabalho ou no que tédio de emprego que tenho. Eram multidões de humanos, dos que pouco, ou muito, têm de humano.

A mulher de mala vermelha que descera do comboio, uma das humanas da multidão que, naquela manhã fresca e luminosa, pisara a plataforma da gare, era também dessas humanas apressadas e indiferentes aos humanos que as rodeiam. Pelo som dos seus saltos altos pretos que pisavam apressadamente o betão da plataforma, num convulsivo toc-toc ritmado, percebia-se que estava atrasada. Olhou para o relógio uma vez e, aproximando-se das escadas, saltitou até ao primeiro dos mais de trinta degraus que davam para a saída da estação.

Todos os dias, fazia o mesmo percurso, nem dando conta de que não era o pulsar do peito que a movia: era o pulsar do tempo, esse déspota que governa um regime de ponteiros e marcas numéricas. Tic-tac. Tic-tac. Tic. Tac. Tic. Tac. O som da pulsação eternamente ritmada, a mesma que dá vida a esse coração silencioso que regula a Humanidade.

A mulher pisou o segundo degrau, distraidamente. Lembrou-se de tirar da mala o batom, queria retocar os lábios. Pisou o terceiro degrau e espreitou para dentro da mala. Pisou o quarto degrau. Não encontrava o batom. Pisou o quinto degrau. Maldito batom desaparecido! Pisou o sexto degrau. Tropeçou! Não caiu, conseguiu equilibrar-se sobre os saltos altos pretos. Mas viu todos os objectos e bugigangas e pertences e lixo e coisas sem definição esgueirarem-se da mala e rolarem sobre as escadas, como se ansiassem libertar-se da clausura a que haviam sido remetidos.

A mulher deteve-se, desconcertada. Olhou para a mala vermelha no chão, vazia, e para todo o seu recheio disposto sobre os degraus que ainda teria de descer. Começou por apanhar a carteira, depois uma caixa com comida, as chaves de casa, as luvas. Parou. Percebeu que, dos humanos que desciam as escadas, nenhum parara para a ajudar. Talvez estivessem atrasados, como ela. Talvez não tivessem reparado, como lhe acontecia tantas vezes. Talvez não quisessem ajudar, era a hipótese mais plausível. Não os censurou, era igual a eles. E sentia na pele o que, por certo, já fizera sentir tantas vezes na pele de outrem: indiferença.

Pegou num pacote de lenços de papel e colocou-o dentro da mala. Pegou na escova com que costumava pentear-se e no pequeno espelho que trazia sempre consigo. Queria sair dali, estava envergonhada e entristecida. Pegou em papéis dobrados, em blocos de notas, em canetas e lápis. Devolveu todos os objectos à clausura da mala vermelha. Excepto um, que parecia esperar pacientemente que lhe pegassem: o batom.

A mulher desceu até aos últimos degraus. Mirou alguns dos humanos que continuavam a descer as escadas, focados no não posso chegar tarde ou no tenho mais que fazer, não a posso ajudar. Abstraindo-se do desconforto dos olhares que a evitavam, um sinal claro de não contes comigo, inclinou-se para apanhar, por fim, o maldito batom. Inesperadamente, uma mão adiantou-se a ela. Era um homem. Pegou no batom e entregou-lho. Ela, embasbacada, não conseguiu proferir qualquer palavra. Ele, simpático, limitou-se a olhá-la.

Olharam-se. Sorriram.

A mulher sorriu como quem diz obrigado. O homem sorriu como quem diz bom dia. E após um instante em que o mundo parou para ambos, num suspenso com tanto de irreal como de etéreo, tiveram a certeza de que há sorrisos e gestos que, por mais simples e ordinários, nos definem como humanos que se organizam em sociedade, mesmo quando se vive sob os caprichos de um regime ditatorial a que chamam de tempo. No fundo, somos humanos que vivem, segundo a moral e o civismo, uns para os outros.

Quem dera que caíssem mais batons…

Samuel Pimenta escreve ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico.

Sumário do Mês – fevereiro de 2011

2 Mar
por Cátia Carmo, Liliana Borges e Marina Alves |

1 de fevereiro
o Renato Seabra declara-se “não culpado” em tribunal.
o Casey Stoner fez o melhor tempo na primeira sessão de treinos oficiais do Campeonato do Mundo de Motociclismo.

2 de fevereiro
o Primeiro “round” das meias-finais da Taça de Portugal com o terceiro reencontro entre FC Porto e Benfica.
o A seleção portuguesa mantém-se na oitava posição da hierarquia mundial de futebol.
o O nadador australiano Ian Thorpe revelou que vai regressar à competição.
o O Ministério Público afirma levar a Federação Portuguesa de Futebol a tribunal

3 de fevereiro
o O duo White Stripes confirma o fim, após um longo período de “pausa”.
o Cientistas descobrem mecanismo-chave que leva o cancro da mama a passar para os ossos.
o Incêndio no Ferrari de Felipe Massa ao volante do novo Ferrari F150.

4 de fevereiro
o O selecionador espanhol Vicente del Bosque ganha o título de Marquês.
o O mítico Torneiro das Seis Nações em rugby arrancou, em Cardiff, no País de Gales.

5 de Fevereiro
o Cimeira europeia adia decisões sobre Fundo de Estabilização.
o TAP, Carris e PJ acusadas de impor limite de idade para novos funcionários.

6 de fevereiro
o Os dois principais líderes da oposição iraniana pediram autorização para realizar uma manifestação de apoio às revoltas no Egito e Tunísia.
o Os Green Bay Packers venceram a final da Liga Norte-Americana de Futebol Americano, ao derrotarem os Pittsburgh Stelers, por 31-25.

7 de fevereiro
o Trabalhadores da ANA movem ação judicial para travar cortes nos salários.
o LCD Soundsystem anunciam concerto final, em abril.

8 de fevereiro
o O Governo apresenta hoje o II Programa de Ação para Eliminação da Mutilação Genital Feminina.
o O Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, veta pela primeira vez desde que assumiu as funções de chefe de Estado em 2006 um diploma do Governo.

9 de fevereiro
o A FIFA e a UEFA consideram “que não é preciso suspender” a Ucrânia dado os “desenvolvimentos considerados como positivos” no que diz respeito à ingerência política no futebol do país.
o Francisco Costa, vulgo “Costinha”, foi demitido do cargo de diretor do futebol profissional do Sporting, por causa das declarações feitas em entrevista à SportTv.

10 de fevereiro
o Costinha é o quarto líder do futebol do Sporting a sair do clube em 15 meses.

11 de fevereiro
o Mubarak abandona o poder.
o Mads Ostberg, em Ford Fiesta, assumiu a liderança do Rali da Suécia do Campeonato do Mundo, ao vencer duas das três especiais disputadas neste dia.

12 de fevereiro
o Um tremor de terra de magnitude 6.8 na escala de Richter atinge de madrugada a região do centro do Chile, perto da cidade de Concepción.


13 de fevereiro

o O brasileiro Ronaldo decidiu antecipar o final da carreira, porque motivos de saúde. Na seleção brasileira marcou 62 golos, em 97 jogos.

14 de fevereiro
o Paulo Silva, membro da mesa nacional do Bloco de Esquerda, demite-se em protesto pela decisão da comissão política e grupo parlamentar de apresentar uma moção de censura ao governo.
o O filandês Mikko Hirnoven, em Ford Fiesta RS WRC, venceu o Rali da Suécia, a primeira prova do Campeonato do Mundo de Ralis de 2011, repetindo o feito do ano passado.
o O presidente da Assembleia-Geral do Sporting, José Dias Ferreira, anunciou, esta noite, na Sic Notícias, que é candidato à presidência do clube.

15 de fevereiro
o Youtube completa 6 anos de existência.
o “Receita” da Coca-cola é revelada, e tem coentros, o que rapidamente é desmentido pela marca.
o Disputaram-se os dois primeiros jogos referentes à primeira-mão dos oitavos-de-final da Liga dos Campeões.

16 de fevereiro
o A frota japonesa nas águas da Antártida suspende a caça à baleia, depois das investidas da organização de defesa do Ambiente Sea Shepherd.
o O filme “José e Pilar”, realizado por Miguel Gonçalves Mendes, é nomeado pela Academia de Cinema Brasileiro na categoria de documentário.

17 de fevereiro
o OCDE: Portugal e Espanha têm sido “absolutamente exemplares” nas medidas que estão a tomar para solucionar os problemas orçamentais.

18 de fevereiro
o A Federação de História e Estatística do Futebol classificou o FC Porto como a 16º melhor equipa do Mundo na primeira década do século XXI, sendo a 14ª ao nível europeu.

19 de fevereiro
o Quase duas mil pessoas subscreveram a petição pública contra a manutenção do depósito de inertes recolhidos no temporal junto ao cais do Funchal e a devolução da praia aos funchalenses.
o José Mourinho ultrapassa os nove anos sem perder em casa.

20 de fevereiro
Passou um ano desde o trágico temporal da Madeira

21 de fevereiro
o Cinco pessoas foram encontradas mortas e calcinadas nos escombros de um edifício bancário em al-Hoceima, uma das cidades marroquinas onde decorreram manifestações maciças apelando a reformas e limites ao poder do rei Mohammed VI.
o Os The Gift lançam um novo disco, composto por 11 canções, que (tal como fizeram os Radiohead) pode ser descarregado online por qualquer preço.
o A jornada 20 da I Liga encerrou esta noite, com o Derby Sporting – Benfica, em Alvalade.
o O Grande Prémio do Baharein foi cancelado devido à instabilidade que afeta o país.

22 de fevereiro
o A UEFA revela os árbitros dos jogos de quinta-feira, dia 24, da Liga Europa.
23 de fevereiro
o O escritor Pedro Tamen vence o prémio Correntes d’Escritas com a obra de poesia O Livro do Sapateiro, editado pela D. Quixote.
o A seleção nacional de futsal, vice-campeã europeia, começou a qualificação para o Europeu de 2012, a disputar na Croácia. Vai defrontar a Macedónia, a Bielorrússia e a Polónia.

24 de fevereiro
o A justiça britânica dá luz verde à extradição do fundador da WikiLeaks, Julian Assange, para a Suécia.
o O Conselho de Ministros aprova a proposta da nova Lei de Bases do Ambiente, que estabelece a política do ambiente a ter em conta em todas as políticas públicas.

25 de fevereiro
o CSKA Moscovo, PSG e Liverpool são divulgados como os novos adversários das equipas portuguesas na Liga Europa. A final, em Dublin, está agendada para 18 de maio.
o A equipa de futebol do Benfica supera o seu recorde histórico de vitórias consecutivas em jogos oficiais numa temporada, ao conseguir a 16.ª em Estugarda, na Alemanha.
o Eleições antecipadas na Irlanda, vencidas por Fine Gael.

26 de fevereiro
o Expresso publica os cinco telegramas que estiveram na base da primeira investigação WikiLeaks Portugal.

27 de fevereiro
o Ministra francesa dos Negócios Estrangeiros, Michèle Alliot-Marie, anunciou a sua demissão.
o 83.º edição dos Óscares

28 de fevereiro
o Inaugurado o primeiro laboratório de nano fabricação em Portugal, pela Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade Nova de Lisboa
o Segundo o Eurostat, a taxa de desemprego em Portugal atingiu em janeiro os 11,2%, acima dos 9,9% europeus.

+++Este artigo foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.+++