Archive | Geração à Rasca RSS feed for this section

Dalaiama: a arte da intervenção (parte I)

12 Mar
Uma reportagem de Joana Margarida Bento, Patrícia Carmo e Leonor Riso.

Uma figura de chapéu e gravata, pombas e muitos euros. É este o padrão comum da arte de Dalaiama que se multiplica nas ruas de Lisboa e na Linha de Cascais. Inconformado com a sociedade de consumo em que sempre viveu, cedo começou a sua intervenção política e poética. «A minha primeira manifestação no espaço público aconteceu quando eu era muito miúdo, em 1985. Lembro-me de ter pintado um cartaz para uma manif. Recordo-me bem da sensação que experimentei: o reconhecimento sorridente por parte dos anónimos que olhavam para a minha expressão plástica, o calor da mensagem que eu transportava, a força da comunicação no espaço público!»

Ainda sem a identidade de Dalaiama, o jovem estudante da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa foi deixando a sua marca nas ruas de forma pontual. O passar dos anos trouxe-lhe a maturidade e o desejo de tornar mais forte e visível a sua arte.

Os valores capitalistas foram ganhando mais força e expressão na sociedade. Nasceu então o Dalaiama – sem no entanto o próprio apontar uma data bem definida – e com ele a vontade de veicular uma mensagem política mais vincada e assumidamente contra o neoliberalismo, assim assegura o artista: «Simplesmente oponho-me à formatação imposta pelo sistema capitalista. Em razão do facto de estarmos demasiado dentro deste sistema é fácil perdermos o sentido crítico e não percebermos o quão totalitário ele é.» Não descurando a parte estética, o objetivo de Dalaiama passa também por conduzir a uma reflexão crítica fundada nos valores da liberdade e da democracia. Conta que há décadas que luta «por um lugar no espaço público onde me seja concedido o direito à livre expressão. As pessoas indignam-se com um stencil minúsculo numa parede, mas se nesse mesmo lugar colocarmos cartazes publicitários gigantes então já ninguém protesta. O entendimento que temos das coisas é muito relativo», contesta.

Contudo, a sua intervenção cívica e política não se limita às paredes. O artista assume-se como elemento da “geração rasca” e não hesita em manifestar o seu apoio a protestos como o do próximo dia 12, em Lisboa. «Hoje somos a geração à rasca, a geração vítima de um capitalismo devorador que procura afirmar-se sobre as ruínas do Estado providência e dos direitos sociais. Somos confrontados com uma era de corrupção em que se socializam os prejuízos e privatizam-se os lucros.».

A marca que não é comercial

Dalaiama não hesita em afirmar que as suas produções são arte mas recusa a designação de graffiti. Para o artista plástico, a responsabilidade de se fazer arte urbana exige muito mais que simples inscrições na parede e deve ser encarada como um meio privilegiado de chegar ao grande público. Diz-se um artista para todos contrariamente à maioria dos seus pares. «Quem anda por aí a desenharletterings, muitas vezes ilegíveis, pretende ser reconhecido apenas dentro de uma comunidade fechada de writers. Contrariamente, quem faz street artprocura chegar aos corações e às mentes de todos os cidadãos. É essencial haver respeito pelo público fruidor e pela coisa pública em geral.»

As inscrições que deixa à vista de todos foram-se convertendo num logótipo, designação que qualquer pessoa atribuiria sem dificuldade. Ainda assim, a justificação para esta omnipresença vai para além do aspeto visual. «As marcas das grandes corporações possuem os seus próprios logótipos e usam a estratégia da propaganda para induzir comportamentos obsessivos de consumo. Pois o Dalaiama também é uma marca. Neste caso, como se troçasse da publicidade consumista, não vende nada.», esclarece o artista.

A mensagem é assumidamente política mas também poética e estética. Considera-se um cidadão civicamente ativo e reforça a importância do que transmite em detrimento do reconhecimento individual. A sua arte torna-se pública assim que chega a mais uma parede e afirma já ter sido confrontado com interpretações contrárias ao que pretendia mostrar, facto que encara com naturalidade. «Já houve quem dissesse que a arte dalaiamiana elogia o capitalismo, na medida em que apresenta um capitalista engravatado e a força do capital». Certo do seu objetivo, relembra que «A arte não é elitista, é precisamente para todos porque todos conseguem interpretá-la à sua maneira, que é sempre a maneira correta.»

Continuar para Dalaiama: a arte da intervenção (parte II)

+++Este artigo foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.+++

Advertisements

Uma Geração para desenrascar

11 Mar

Desde sempre o Homem teve uma necessidade imperiosa de nominar tudo o que o rodeia. Primeiro foram os próprios homens, dando nomes a cada um, depois os objetos e por aí fora. Na sociedade contemporânea, onde tudo o que se conhece tem nome, surgiu a necessidade de rotular cada geração que passa pela História com um epíteto.

Vicente Jorge Silva, diretor do jornal Público, utilizou, em 1994 num editorial, a expressão Geração Rasca para designar uma geração que protestava contra tudo e contra todos. Antes, num fenómeno iniciado nos EUA e que depois migrou para o resto do Ocidente, em especial para a França, que resultaria no Maio de 68, era a Geração X, a primeira sem a influência da religião na sua formação. A era digital, através do Facebook, deu-nos a conhecer uma iniciativa de quatro jovens: Alexandre de Sousa Carvalho, António Paixão, Paula Gil e João Labrincha. Protesto da Geração à Rasca foi o nome escolhido para tal iniciativa, e a verdade é que pegou moda.

Mais do que dar nome a uma geração que dizem ser a dos «desempregados, “quinhentoseuristas” e outros mal remunerados, escravos disfarçados, subcontratados, contratados a prazo, falsos trabalhadores independentes, trabalhadores intermitentes, estagiários, bolseiros, trabalhadores-estudantes, estudantes, mães, pais e filhos de Portugal», este movimento apartidário, laico e pacífico pretende “acordar” a sociedade civil para os problemas que esta atravessa e que devem ser combatidos por todos, reforçando assim a «democracia participativa no país».

O conceito Geração à Rasca foi criado por João Labrincha, que em declarações ao jornal Público afirmou que este movimento teve como inspiração a música Parva que Sou dos Deolinda, e surgiu devido às condições de trabalho precárias que este jovem sempre viveu até que ficou desempregado. Ao aperceber-se da realidade que o envolvia juntou-se a mais três colegas com quem tinha estudado na Universidade de Coimbra e decidiram avançar com um projeto que «reforçar a democracia e não derrubar governos» segundo João Labrincha, ao que acrescentou a vontade de fazer «ouvir a nossa voz [a da sociedade] e apresentar soluções». Este conceito engloba a geração dos 20, 30 e 40 anos, conforme as declarações do licenciado em Relações Internacionais.

O protesto que já conta com mais de 56.000 confirmações no Facebook, surge fruto de uma conjuntura económico-social de crise. O desemprego atinge níveis históricos, ultrapassando os 11%, sendo que cerca de metade desse valor é constituído por pessoas com menos de 35 anos, a precariedade no trabalhe é uma realidade avassaladora, isto apesar desta geração ser a mais qualificada de sempre em Portugal.

Sábado, dia 12 de março, aqueles que saírem à rua irão reivindicar por: «direito ao emprego e à educação, melhoria das condições de trabalho e fim da precariedade, o reconhecimento das qualificações, competências e experiência, espelhados em salários e contratos dignos», segundo o Manifesto e Carta Aberta à Sociedade presentes no blogue do movimento.

Canção ao lado?

10 Mar

Quando, há três anos, os Deolinda lançaram o seu primeiro álbum, Canção ao Lado, nada fazia prever que, tempo depois, comporiam uma música que se arrisca a ser o hino de uma geração. Hoje, em pleno 2011, os Deolinda já vão no segundo álbum e a música Parva que Sou ecoa um pouco por tudo o que é rede social ou associação juvenil.

Rui Tavares, na sua crónica no jornal Público, o mesmo jornal cujo diretor Vicente Jorge Silva cunhou o termo “geração rasca”, indignou-se pelo epíteto dado. Diz o eurodeputado, concordando com a música, que a “geração rasca” foi, afinal, «a mais bem preparada de sempre no país». E, na mesma linha, Rui Tavares refere que realmente a sua geração foi parva mas, avisa, «ninguém pode ser parvo tanto tempo assim».

Contudo, o hit Parva que Sou não é pacífico e gera as reacções mais antagónicas. Se há os que lhe conferem um cariz revolucionário ou intervencionista, também há os que criticam a sua mensagem. Isabel Stilwell, directora do jornal Destak, diz mesmo que são parvos os jovens que estudaram e são escravos, mas «parvos porque gastaram o dinheiro dos pais e dos nossos impostos a estudar para não aprender nada». Também Pedro Marques Lopes, colunista do jornal Diário de Notícias, caracteriza a canção como «o hino dos que desistem, (…) dos que culpam os “outros” e se esquecem que são eles também os responsáveis por esses “outros” mandarem».

Seja como for, a forma viral como a música dos Deolinda se espalhou pela internet sem sequer ter ainda sido editada em estúdio é notável. E, guerrilhas à parte, parece inegável que a letra caracterize, de facto, uma geração. Por exemplo, canta Ana Bacalhau que esta é a “geração casinha dos pais”. Goste-se ou não de admitir e causas para isso à parte, o que é verdade é que de facto os jovens cada vez saem mais tarde de casa. Ou, também como canta a música, a primazia dada ao carro que está “por pagar”, antes de ter filhos e marido.

Mas, segundo os Deolinda, esta é também a “geração sem remuneração” mas que não se incomoda com essa condição. Ou a “geração ‘vou queixar-me para quê?’”, se há alguém pior na TV. No final de cada verso, lá se explica que esta é a geração parva em que para ser escravo é preciso estudar.

Convicções políticas de lado, a letra de Parva que Sou tem o mérito de chamar a atenção para uma realidade: a dos jovens descontentes com o seu futuro, ou a falta dele. Não se discute se é legítimo ou não, apenas que a música conseguiu colocar na agenda mediática um tema que teimava em não ser capa de jornal durante vários dias seguidos.

Apesar da sua jovem carreira, os Deolinda já não são novatos no que respeita a este tipo de música. Em 2008, no seu primeiro trabalho, gravaram uma música intitulada Movimento Perpétuo Associativo. A letra, tal como esta de 2011, é habilmente construída para caracterizar a sociedade em que vivemos. Tudo se baseia numa simples estrutura que alterna entre versos como “Agora sim, damos a volta a isto!” com “Agora não, que é hora do jantar…”.

Esta letra poderá sintetizar o que muitos julgam ser a sociedade portuguesa de hoje, em que muitos se queixam e poucos se mexem. E na letra de Parva que Sou o problema volta à baila, quando se fala na inacção dos jovens que tanto se queixam.

Movimento Perpétuo Associativo poderá ser, então, o verdadeiro poema fundador da geração à rasca, mas que ninguém reparou. Porque, já em 2008, Deolinda dizia que havia muito para fazer, muito para mudar. E criticava todos aqueles que “achavam que não podiam”. Com Parva que Sou, Ana Bacalhau e companhia não estão com meias medidas: depois de uma letra em que se apresentam os problemas de que alguns jovens se queixam, fica o chamamento porque, afinal, esta é “a geração ‘eu já não posso mais!’, que esta situação já dura há tempo demais”.

Em 2008, Movimento Perpétuo Associativo passou quase despercebido. Foi preciso surpreender dois Coliseus (ou quatro, se quisermos ser rigorosos) com uma música a chamar os jovens de parvos para que houvesse uma movimentação. Será desta vez, agora que foram mais espicaçados, que os jovem vão dar “a volta a isto”, ou terá sido apenas mais uma “canção ao lado”?

+++Este artigo foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.+++