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A faceta espiritual do Manifesto (parte II)

20 Mar

O Clique quis saber mais e Valdjiu fala-nos sobre ideologia  que inspira e faz mover os Blasted. Levanta ainda um pouco o véu do filme que pretende lançar e no qual já se encontra a trabalhar há dois anos. Também não podiria passar ao lado a sua participação na manifestação de dia 12 de março. Para além de tudo isto, falámos do próximo trabalho, no qual já se encontram a trabalhar.

O que é para ti o amor?

É interessante porque essa pergunta que me fizeste pouca gente faz. Eu ando a fazer um filme há dois anos que tenciono lançar agora. Vai ser mais do que um filme. Vai-se tornar num movimento social. Documenta uma viagem onde eu ando com alguns amigos pela Índia, América Central e partes da Europa perguntando às pessoas o que é o amor. Subentende-se que o amor é uma coisa e depois fala-se pouco dela porque parece que o medo está mais na moda. No entanto, para mim, o amor surge da terra através da água. A água é um ser. É dos seres mais complexos que há no universo devido à sua capacidade de permanência de estados em matéria diferentes. A água traz vida, desperta essa energia amorosa que é uma energia que se quer experienciar. Utilizando um exemplo linear, o percurso vital é uma linha que se divide em dois e quando atinge a maturidade volta à unidade. Ou seja, o amor divide-nos como uma experiência Yin e Yang mas depois volta a juntar-nos na morte. Essa experiência transforma-se num losango, seguindo um caminho que se espelha e que se volta a encontrar no final. Semelhante a um cristal. E, na realidade, somos todos cristais. Somos filhos dessa energia que nos traz à vida e que nos devolve à morte.

Qual é o combustível que dá energia aos Blasted Mechanism?

[Risos] O maior combustível que nós temos é o grande rei que está aqui presente neste momento e nesta conversa. O sol. A luz que é a inspiração, a intuição, a imaginação e a partilha. São esses os componentes que formam o combustível que me permite estar aqui. E a ti também.

Quando se vê o vosso nome dentro da manifestação da Geração à rasca é sempre peculiar porque as pessoas não associam a vossa música às típicas canções de intervenção. Vocês conseguiram provar o contrário?

Intervir é sempre intervir. Intervir não é só mandar para o buraco ou gozar. Intervir, no nosso caso, são quinze anos a gritar “Let’s start a revolution!”. A revolução tem de ser um movimento que começa de dentro e quando sai para fora manifesta-se na rua. Somos uma banda que pretende “pegar o fogo”. Neste caso, um fogo interno. Intervir em alguma coisa é fazer parte do que está a acontecer levando alguma coisa nova na mala. Quando chegámos, eu dei tudo. No caminho para casa, cheguei à meia-noite no comboio de volta para a Serra de Sintra e pus a carruagem toda a cantar: pessoas de todas as idades e culturas em festa.

Vocês têm um estilo muito diferente dos Homens da Luta. No entanto, como foi a experiência de partilhar um palco, tendo em conta a voga que existe à volta deles neste momento?

Estivemos lado a lado e posso dizer que o Jel é grande maluco e é uma pessoa que eu admiro imenso. É um gajo cheio de coragem e é um dos grandes amigos do Guitshu, o nosso último vocalista.

Tu estiveste presente na manifestação como Pedro ou como Valdjiu?

Eu sou o Valdjiu, seja como for. Não há diferença dentro e fora do palco. Dentro do palco, posso ser um pouco mais animado. Aqui tenho de me conter um bocadinho mais. No entanto, eu sou um só ser e vou surfar a mesma onda que tu e que as mesmas pessoas que vão ler esta entrevista. Sou a favor de criar novas propostas para uma sociedade. Nós temos neste momento um movimento de transição que é um movimento que começou no Reino Unido por um homem chamado Rob Hopkins. É um conceito que já mudou mais de 300 cidades, uma das quais eu faço parte aqui em Portugal. Existe o Sintra em Transição onde temos já mais de oito ou nove cidades que estão a começar a entrar em transição. O movimento de transição está muito ligado à permacultura (baseado na cultura permanente) e é um movimento de transição onde milhões de pessoas já estão a beneficiar com uma visão mais holística de viver. Constituímos uma grande área com muita gente que consegue lidar contra a dependência do petróleo e a emissão de gases maléficos para a biosfera. É, no fundo, uma maior observação da vida em comunidade.

Consideras os Blasted Mechanism um movimento alternativo ao mundo actual?

Alternativo ao quê? Ao mainstream? O mainstream e o alternativo são a mesma coisa. Está tudo nos olhos de quem observa. Se eu sou alternativo a esta loucura que se vive aqui na Terra, sinto então que a loucura é que é alternativa. Porque o que eu vejo é algo completamente alternativo. Vejo guerra. Vejo o Homem a brincar com energias atómicas. Vejo menores a morrer de fome. Vejo bancos que não pagam impostos. Ditadores. Isso é alternativo para mim. Viver na Terra é um presente que nos é dado. E o presente não é alternativo; daí o seu nome.

Abordemos o manifesto publicado no vosso canal do Youtube. Enquanto os Homens da Luta puxam por uma revolta incerta da parte do povo, tu apelas por algo diferente. Podes esclarecer a tua posição?

Eu faço sempre uma pergunta inicial: “querem mudar para onde?”. A grande mensagem para mim, neste momento, é a questão do que se quer ver diferente em nós próprios para podermos espelhar no mundo. É também uma questão de até que ponto se está disposto a ir e o que é que nós precisamos de ter, verdadeiramente, à nossa volta para não interferir com os mecanismos naturais da Terra para sobreviver. Nesse aspecto, invoco Agostinho da Silva e os três S’s que ele divulga. Sustento, saúde e saber. O que é que nós queremos saber? É muito importante o que nós pensamos. A economia do pensamento é que faz o Homem andar para a frente e encarnar o amor e a verdade. Encontramos um sistema de saúde bastante negro tal como o sistema de alimentação. O sustento é relevante à partilha e às relações que temos dentro das nossas redes. Neste momento, vemos tribos e pessoas a viver em grandes arranha-céus. Temos movimentos que vão do mais tecnológico ao mais tribal.

Referes também como a natureza se encontra patenteada…

O que se passa é que uma semente que não venha da própria Mãe Terra é uma semente que depois não dará sementes. A terra é um organismo vivo. Meter uma semente na terra e sair de lá uma coisa que se manifesta e que se multiplica é um fenómeno magnífico. Interessante como no inicio não existe nada e, de repente, brota uma serpente verde que é capaz de alimentar uma pessoa. É incrível e eu fico altamente tocado e sensibilizado por essa manifestação de força e do poder da criação. Quando uma empresa toma poder sobre a semente, o fruto deixa de pertencer à terra. Qualquer agricultor que queira cultivar mais frutos terá de recorrer à tal empresa porque já não pode depender só da terra. Chama-se a isto roubar. Roubar a própria terra! É o cúmulo. É como vender água engarrafada.

Então o teu manifesto transcende o factor espaço. Estaremos a falar de uma situação mundial?

Neste momento, a monocultura está a dar cabo da Terra. As monoculturas destroem todos os mecanismos naturais. Sejam os insectos ou a desertificação ou a fraca qualidade da comida. A própria desflorestação desmedida é caótica. Vivemos numa realidade onde uma árvore morta tem maior valor monetário comparando com uma árvore viva. Se continuarmos assim, a Natureza irá criar a sua própria revolução contra o Homem e aí teremos de lutar pela sobrevivência.

Consideras o teu manifesto como uma proposta que se enquadra no manifesto proposto na manifestação da Geração à Rasca ou como uma luta completamente separada?

Nada está separado na Terra. Nós fomos habituados a olhar para a Terra com uma régua na mão para nos separar. A política é isso mesmo. A criação de grupos de separação quando nós somos todos inteiros. Fomos partidos, mas eu estou inteiro nesta questão. Eu estou constantemente a manifestar. Manifestar é trazer dentro de ti alguma coisa que até pode estar ligada à palavra “festa”. Estou cá todos os dias e envio muita luz para o planeta todo.

Tendo em conta o renascimento da música popular e da música de intervenção, consideras que a manifestação foi um movimento político ou um movimento cultural?

Isso também é separação. Uma separação entre o que é político do que é cultural. As coisas não se podem separar. Existe na Terra uma vontade grande de voltar a juntar tudo. Não nos podemos continuar a separar durante muito mais tempo. Temos de baixar as armas e abrir o coração.

Sendo os Blasted Mechanism uma aglutinação de várias culturas, como é que se mantêm nivelados dentro do patamar nacional?

Nós já tocámos nos principais festivais do mundo. Tocámos recentemente no Glastonbury Festival tal como já tocámos no Zeitgest Arts Festival. A questão é, como é que a indústria musical funciona. Somos portugueses e teremos sempre uma bandeira nacional por trás que estará sempre ligada a tudo menos à cultura musical. Devido a questões financeiras e culturais, é extremamente difícil exportar qualquer produto português. É difícil porque o mundo é enorme. O mundo é controlado pelas forças anglo-saxónicas e pela cultura norte-americana e são mercados altamente vampíricos, que querem o vosso dinheiro. Neste momento, nós estamos ligados ao Gabinete de exportação de música portuguesa. No outro dia, assisti à assinatura do protocolo do Ministro da Cultura que apoiaria esse departamento. Foi assegurado que os Blasted Mechanism seriam uma das bandas que teriam mais potencial a serem apoiadas pelo governo português no que toca à exportação e divulgação para outros países.

Achas que os Blasted Mechanism já atingiram os seus dias de glória ou que ainda têm muita energia por libertar?

Nós estamos a fazer um novo disco neste momento. Ponderamos lançá-lo para o próximo ano. Já temos um conceito, um nome, umas músicas e estamos agora em fase de pré-produção. Vamos lançar agora um tema massivo. Acredito que desde há vários anos que não lançamos algo tão transversal e ao mesmo tempo tão massivo. Está mesmo massivo e com imenso “power”! É um tema que puxa para cima qualquer pessoa que não se esteja a sentir bem e que obriga a dançar.

Então uma compilação de singles não irá sair tão cedo…

Não. Não! Não vai haver um «Greatest Hits» dos Blasted Mechanism. Não, nunca.

Mas achas que o sucesso que vocês atingiram até agora foi uma dádiva ou o resultado de muito trabalho?

É sempre o resultado de ambos. É sempre uma dádiva e é sempre muito trabalho.

A faceta espiritual do Manifesto (parte I).

A faceta espiritual do Manifesto (parte I)

19 Mar

A manifestação de 12 de Março contou com uma grande influência musical que coordenou e motivou as multidões em Lisboa. Dentro dos grandes nomes da intervenção portuguesa como Fernando Tordo e os mais recentes Homens da Luta, encontravam-se os Blasted Mechanism. Valdjiu e os respectivos membros espalham a sua mensagem há mais de quinze anos e não conseguiram recusar presença na maior manifestação dos últimos anos.

O Clique publica hoje a primeira parte de uma entrevista com o líder da banda, onde se tenta perceber uma perspectiva nunca antes abordada em tempos de crise.

A vossa participação na manifestação deu-se por convite ou por iniciativa própria?

Não fomos convidados se não por nós próprios. Manifestar é dar à luz uma voz. No entanto, mais do que querermos perpetuar com o desgaste enorme que está a acontecer a nível social, espiritual, material e natural, queremos semear e colher o fruto que seja mais humano e que seja mais apetecível para as próximas gerações.

Qual foi a importância da manifestação que ocorreu no dia 12 de Março?

A manifestação continua activa. Neste momento temos a Natureza a revoltar-se contra o Homem. Temos centrais nucleares a explodir. Isto não é só um problema português nem um problema de uma só geração. É um problema de uma população mundial. Começa há muito tempo atrás. Penso que temos os dias contados porque a economia que tem de fazer mexer o mundo não é uma economia financeira. É a economia de recursos que tem maior influência neste planeta. Se nós estivéssemos no meio de um deserto e se eu tiver água e tu tiveres uma banana, o que é que valerá mais imediatamente? E se tu tiveres 500 euros e eu tiver água? Eu não venderia a minha água por 500 euros. As hipóteses seriam eu partilhar a minha água ou tu morreres de sede. Portanto, os recursos acabam por ter muito mais importância do que o valor monetário.

Houve um lado espiritual dentro da manifestação?

Houve, completamente! Todos os homens são seres espirituais por terem uma experiência dentro de um corpo. Estando 280 mil pessoas presentes, havia uma componente espiritual muito rica nesse sentido. O que move as pessoas cada vez mais é a energia da partilha e do coração e a energia da unidade comum. A energia do surfar a grande onda primordial numa grande nave espacial chamada Terra. Diga-se de passagem que vamos a uma grande velocidade. Vamos a girar sobre nós próprios. Estamos convencidos de que aquilo que nós temos tem que ser protegido. Logo, nós temos de nos entregar e nos dar ao presente. Olho à minha volta e só vejo lixo e pessoas determinadas a proteger qualquer coisa. E isso não é amor, é medo.

A música tem um grande papel dentro da revolução?

Eu costumo separar o “re” e a “evolução”. Eu tenho visto muito a evolução. Ou seja, por onde é que nós vamos. A música é matéria em movimento que consegue penetrar as células e fazê-las entrar em festa. A seguir, as células começam a negociar com a alma e quando dás por ela estás a conseguir descer uma consciência nova à terra. E a música é esse canal. A música desperta, activa e catalisa.

Quais foram as demandas dos Blasted Mechanism na Manifestação?

O país está a ir para baixo mas os Blasted andam há quinze anos a gritar revolução. Mas é uma revolução espiritual e social. Uma revolução que apela ao amor. Mas não é através da tecla que está desafinada que se atinge os nossos objectivos. É através de puxar para cima e elevar a consciência do país. As nossas demandas eram direccionadas para o povo. Encorajar e instruir. Levámos o fruto daquele vórtice de energia e recebemos um mote de muita pujança que intitulámos de “puxa para cima a tua energia”. Já fomos para o estúdio logo na mesma noite. Senti mais do que potencial. Senti uma homenagem ao povo português.

Os Blasted Mechanism possuem uma ideologia política forte?

Nunca houve uma ligação política directa entre os Blasted Mechanism e outros partidos. Mais do que político, a minha ideologia é “pró-abundância” e “pró-criação”. Um sentido de unificação universal. Uni-verso.

Os Blasted Mechanism são música mas também são uma mensagem. O que vem primeiro, a música ou a mensagem?

A música é o motor. O som é o grande gerador ao qual a mensagem desce. O som faz com que a intenção desça e se espalhe. A música está em primeiro lugar porque faz descer a mensagem.

Neste momento, encontram-se numa fase «Light in Sound» ou «Sound in Light»?

Neste momento, falamos numa fase de saber o que é que queremos. Nós temos de saber o que queremos porque quando vais para um sítio gritar e queres mudar alguma coisa tens de tentar perceber o que queres mudar. Se queres mudar e descobrir alguma coisa nova no mundo, tens de pesquisar e fazer por isso. Enquanto nós estivermos a transitar dentro de nós, convictos de que um dia vamos ter que destruir as muralhas do nosso castelo e tirar os jacarés do foço, nós não vamos conseguir transitar para lado nenhum. Vamos perpetuar uma escravatura disfarçada de democracia. Vamos perpetuar os nossos avós e pais que vão começar a morrer todos de cancro porque há uma indústria agro-alimentar altamente baseada em pesticidas e produtos químicos. Vamos continuar a alimentar o problema gravíssimo que está a acontecer com a água no planeta. A água, a guardiã da maior energia que há no mundo – que é o amor – está completamente poluída e isso é um espelho muito grande do que nos vai na consciência.

Aqui fica o vídeo da mais recente música dos Blasted Mechanism, gravado no dia da manifestação da Geração à Rasca.

A faceta espiritual do Manifesto (parte II).

Impressões Clique

14 Mar

A equipa de reportagem do Clique na manifestação desta tarde em Lisboa deixa aqui as suas impressões pessoais sobre o protesto.

«Os números pouco dizem do que se viveu esta tarde na Avenida da Liberdade e no Rossio. As fotografias, os vídeos, os áudios pouco reproduzem o que se sentiu. Pouco interessam os milhares que se diz que lá estiveram, porque o que importa realmente foi o que lá se fez.

Esta manhã, no editorial deste fim de semana, escrevia que tinha dúvidas sobre o sucesso do protesto e sobre a sua razão de ser. À tarde, em plena avenida, todos pudemos perceber que quem ali estava sabia bem ao que ia. Não foi, como pensei que pudesse ser, apenas mais um protesto. Não foi um protesto violento, mas foi um protesto que se fez ouvir.

Na manifestação desta tarde juntaram-se pessoas com as mais diversas sensibilidades políticas, unidas por um objetivo comum. Não se apresentaram alternativas, é certo. Apenas se disse “basta!” e não se sabe bem a quê. Mas a verdadeira força desta manifestação está na demonstração de que os portugueses estão finalmente atentos.

Ainda não há reações oficiais dos governantes. Talvez tardem, talvez nunca cheguem. Mas esperemos, todos os portugueses, que vejam com olhos de ver o que se passou hoje um pouco por todo o país.

Mais ou menos de acordo com a manifestação desta tarde, nenhum de nós pode ficar indiferente à quantidade de pessoas que saiu à rua. Mais que as palavras, as imagens falam por si.»

João M. Vargas, Diretor de Conteúdos


«Eram 15h30m da tarde quando hoje subi as escadas da estação do Metro do Marquês. Esperava ver muita gente precária e não precária. Velha e nova. Da esquerda e da direita. Mas o mar à rasca que encontrei superou todas as minhas estimativas. Lisboa estava contaminada por um espírito de revolução, de esperança, de mudar para melhor. Os jovens levantaram-se para marchar avenida abaixo. Foi muito comovente ver, passados 37 anos, Portugal a lutar, de novo, por uma vida melhor.

Porém, toda esta emoção que me invadiu, rápido se desvaneceu também. Éramos muitos e fazíamos muito barulho. Os recibos verdes, os estágios não remunerados, os contratos a prazo e o desemprego em geral eram os alvos principais. No entanto, esta mobilização em Lisboa, Porto Faro, Braga, Guimarães, Leiria, Viseu, Ponta Delgada e outras cidades não chegou para fazer o Governo parar de rir de mais uma brincadeira de miúdos.

Os Homens da Luta protagonizaram, numa carrinha de caixa aberta, todo este protesto. E cedo este se tranformou numa festa. De repente, os jovens já não tinham frustrações e tudo era alegria. E, consequência disso, o protesto perdeu todo o seu fulgor. Os manifestantes dispersavam e sensação de que estava num mero convívio tomou conta de mim. A luta por direito ao trabalho justo não é a luta da alegria.

Por momentos, pensei que algum de nós tivesse a coragem de se levantar e dizer: «Não saímos daqui enquanto não mudar este regime de (des)emprego que não nos permite andar para a frente!». Que fossem semanas, que fossem meses, pois não é preciso partir montras e incendiar carros para se ser ouvido. Porque um dia não chega. E um dia de festa ainda menos. Um dia em que, decerto, Lisboa deveria ter sido mais francesa.»

Sara Recharte, editora de Internacional


«Antes da hora marcada já os manifestantes se juntavam no Marquês de Pombal, ultimando os preparativos para darem voz à “geração à rasca”. Mais ou menos certos do que por lá faziam, todos acreditavam que a Avenida da Liberdade seria percorrida por milhares de pessoas em busca de um futuro melhor.

E foi, de facto, o que aconteceu. Os Homens da Luta deram o mote e muitos se seguiram, avenida abaixo, com cartazes, faixas, megafones ou simples vozes. A meu ver foi um protesto apartidário, tal como se apresentou, mas acima de tudo uma forma de o cidadão comum poder fazer política.

Ao lado dos que fizeram da manifestação um passeio de sábado à tarde (e foram poucos, pelas impressões que recolhi) estavam os que tinham lido o manifesto, os finalistas de muitas e variadas licenciaturas, os jovens casais com crianças ao colo e os membros de grupos organizados com fins convergentes.

Por me ter surpreendido, não posso deixar de destacar a quantidade de pessoas “menos jovens” que se juntaram ao apelo. Uns solidários com esta geração intermitente, outros preocupados com o futuro dos seus, mas todos descrentes em relação à atual situação do país. Falavam do 25 de Abril, do maio de 68 e até da Revolução Francesa para lembrarem datas que outrora significavam liberdade e progresso e que hoje ocupam o lugar de memórias distantes.

Mudanças? Não creio que a curto prazo se registem muitas. A crise veio para ficar e a classe política, ao invés de fazer avançar o país, parece mais preocupada em perpetuar guerrilhas partidárias. Fica, pelo menos, a certeza de que a passividade lusitana começa a dar lugar à intervenção cívica. Consciente e crítica, assim se espera.»

Joana Margarida Bento, editora Grande Reportagem

«Uma música deu o mote, um evento no Facebook a logística e os descontentes a presença. Do Marquês ao Rossio, milhares de pessoas fizeram-se ouvir. Tantas quanto as vozes, as reivindicações: as suas, a dos seus ou simplesmente a de todos.

Não foi o protesto de uma só geração, a população saiu à rua.»

Rita Sousa Vieira, fotojornalista

«Desde que comecei o meu curso superior que tenho olhado para as manifestações com uma certa descrença; não porque algumas tenham más propósitos, não porque os objectivos sejam maus mas, simplesmente, porque as manifestações me pareceram algo cada vez mais fraco e um recurso cada vez mais comprometido. Desde que vim para a universidade que há manifestações estudantis quase todos os meses. Para algumas, alunos da minha faculdade pedem até o apoio e o comprometimento com manifestações ainda não convocadas oficialmente ou, até, com reivindicações. E se eu tinha uma boa impressão do poder do povo ao sair à rua, ao ver manifestações estudantis com reivindicações utópicas para a actual conjuntura…desacreditei. E isso só piorou quando vi pessoas que queriam “manifs” só pelo prazer de estar na rua, ou sem saberem porque estavam ali ou (a gota de água) porque não tinham querido ir às aulas. Uma manifestação verdadeira não é um passeio de domingo. Uma manifestação verdadeira não é um local para beber vinho ou cerveja ou fazer piqueniques ambulantes; é para, mesmo não apresentando soluções, apontar as falhas pungentes seja de um país, de um sistema de ensino ou de um Governo.

Foi com esse espírito que fui para a manifestação, sou sincero. Doía-me a cabeça e não me sentia muito bem nesse início de tarde. E a desconfiança que sentia em relação ao que se ia passar não ajudava: certo de que iria lá encontrar gente à toa, sem saber ao que vinha, gente que ia só porque não tinha planos para a tarde, gente que iria protestar por algo que nem sabia bem o que era. E como mau prenúncio, não me saía da cabeça a música Uniform, de Bloc Party, a tal que diz: “Eu sou um mártir, só preciso de uma causa (…) eu sou um crente, só preciso de uma causa”. E eu via essas pessoas lá. Sem nada porque lutar, manifestando-se só porque sim, a fazerem barulho sem acreditar verdadeiramente, sem estarem “à rasca”, só porque sim ou só porque nada de melhor tinham para fazer. Fui pela Clique e fui contrariado, mas isso mudou quando cheguei lá. Rapidamente me apercebi que não eram as pessoas que eu temia que estavam lá, não eram os “mercenários” das manifestações, que se vendiam a qualquer ideal desde que pudessem fazer barulho. Não. Eram as pessoas que estavam “à rasca”, que conheciam quem estivesse, que reconheciam o problema e algo queriam fazer para mudar alguma coisa. Por pequena que fosse a mudança. É certo que os Homens da Luta ajudaram a mobilizar as pessoas para um cântico único, sobretudo. Fizeram isso comigo, levaram-me a perder o meu cepticismo em relação ao que estava a acontecer. Porque me identifiquei com o que ouvi, como “é preciso correr com os políticos profissionais e pôr profissionais na política”. Não me arrependo de ter ido. De quase ter perdido máquina e objectiva, de me ter aleijado no meio da maré de pessoas. Não devia ter desconfiado, pelo menos desta vez; é que é preciso muito para pôr, só em Lisboa, 300.000 pessoas a gritar em uníssono, a defender algo de bom e a pôr as diferenças de lado por um dia. Não é fácil mas conseguiu-se. Só espero que seja um sinal que, por fim, se comecem a abrir os olhos e que a massa acrítica que se queixa nas costas deixe de o ser; que seja um sinal que, por fim, todos nós estejamos fartos de que nos deitem areia para os olhos para não vermos o quão (cada vez mais) negra é a realidade.»

Gonçalo Simões, fotojornalista

Geração à Rasca em Lisboa

12 Mar

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A Geração à Rasca em Faro

12 Mar

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‘Geração à Rasca’ com 300 mil nas ruas

12 Mar

O Clique esteve a fazer a cobertura em direto da manifestação da Geração à Rasca na cidade de Lisboa. Conseguimos falar com vários dos artistas presentes na manifestação, que em declarações à nossa revista digital fizeram algumas considerações sobre o protesto. A organização aponta para 200 mil pessoas nas ruas de Lisboa em manifestação contra a precariedade. No resto do país, estiveram na rua, segundo os mesmos dados, mais de 80 mil. Seis mil dos quais em Faro, onde o Clique também esteve.

Ouça os áudios clicando nos links e confira as declarações recolhidas pelos nossos repórteres.

Fernando Tordo

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Rui Veloso

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Jel – Homens da Luta

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FalâncioHomens da Luta

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Dalaiama: a arte da intervenção (parte II)

12 Mar
Uma reportagem de Joana Margarida Bento, Patrícia Carmo e Leonor Riso.

O paradoxo da visibilidade

Na conhecida rede social Facebook multiplicam-se as publicações no perfil de Dalaiama: trabalhos expostos no seu blogue, outros blogues que visita, manifestações e textos, todos ligados à street art e à contestação política. A atividade e intervenção de Dalaiama estendem-se também ao mundo virtual, onde apesar de manter o anonimato, o artista é presença assídua e torna visível o seu trabalho. Sobre esta questão, Dalaiama salienta que «O importante é divulgar a mensagem, fazê-la chegar ao maior número possível de pessoas. Há o público das ruas, o público da internet e o público de ambos ao mesmo tempo. Seja como for, muita gente só teve acesso ao trabalho produzido pelo Dalaiama através da internet, passando a valorizá-lo a partir desse meio».

Dalaiama conta muitas histórias sobre os seguidores que conheceu a partir dainternet, desde simples cumprimentos e comentários de pessoas que gostam do trabalho a pedidos de pinturas na parede do quarto, convites para workshops ou conselhos sobre as técnicas que utiliza. O contacto com o público agrada-lhe embora o anonimato seja inevitável, «a arte urbana, nos moldes em que oDalaiama a pratica, acontece na fronteira da legalidade. A segunda razão para haver anonimato é que é interessante existir esse diálogo entre anónimos, o autor e o fruidor, pessoas que não se conhecem mas que olham juntas para a mesma parede em momentos diferentes e trocam cumplicidades.»

A divulgação que a plataforma on-line veio permitir não passa despercebida. «O blogue tinha cerca de 20 visitantes por dia, mas desde que aderi ao facebook, há cerca de sete meses, a média tem ultrapassado os 30 e parece que continua a subir. Quase todos os dias recebo mensagens.»

Confrontado com o potencial fim do Dalaiama, o artista mostra-se despreocupado e consciente de que tudo tem o seu o tempo. Perante a atual conjuntura, duvida do futuro do país mas diz estar convicto em relação ao seu. «Se sair, levo comigo as tintas e a certeza de que enquanto houver cor no planeta e sangue nas artérias eu vou estar a agitar.»

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Os que veem sem ser vistos

A arte de Dalaiama, exposta quer nas “ruas virtuais” quer nas paredes das cidades, soma já inúmeros seguidores. Para Bruno, um dos apreciadores, a arte alternativa define-se por criticar «o sistema e surge onde vive a população mais pobre e desprezada que tem uma cultura e arte próprias que refletem tudo isso». Na sua opinião, o que se destaca em Dalaiama «é a mensagem crítica e a ousadia na hora de escolher os locais onde pinta». Em tom definitivo, sentencia que «enquanto houver razões para denunciar injustiças, haverá razões para pintar paredes».

EUsboço, colaboradora de Dalaiama na Crew L, declara que o desejo partilhado era o de «uma plataforma de intervenção que pudesse contribuir para a mudança de mentalidades e dar visibilidade às novas formas de abordagem na arte», promovendo uma libertação das “trincheiras” e dos “constrangimentos” que marcam o atual panorama artístico. Quando questionada sobre o futuro da arte urbana, diz esperar que esta ganhe o «estatuto de melhoramento das cidades para deixar de ser considerada uma arte ilegal e os artistas terem as condições e o respeito necessário para produzirem livremente». Para EUsboço, a consciência social de Dalaiama origina «composições que representam autênticos manifestos». Como artista, acarinha a ideia de que «todos os lugares podem ser arte, todas as ruas podem ser um museu ou uma galeria» e que um dia será mais do que isso: uma realidade que preencherá as cidades de cor e, acima de tudo, de mensagem.

Regressar a Dalaiama: a arte da intervenção (parte I)

+++Este artigo foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.+++

Dalaiama: a arte da intervenção (parte I)

12 Mar
Uma reportagem de Joana Margarida Bento, Patrícia Carmo e Leonor Riso.

Uma figura de chapéu e gravata, pombas e muitos euros. É este o padrão comum da arte de Dalaiama que se multiplica nas ruas de Lisboa e na Linha de Cascais. Inconformado com a sociedade de consumo em que sempre viveu, cedo começou a sua intervenção política e poética. «A minha primeira manifestação no espaço público aconteceu quando eu era muito miúdo, em 1985. Lembro-me de ter pintado um cartaz para uma manif. Recordo-me bem da sensação que experimentei: o reconhecimento sorridente por parte dos anónimos que olhavam para a minha expressão plástica, o calor da mensagem que eu transportava, a força da comunicação no espaço público!»

Ainda sem a identidade de Dalaiama, o jovem estudante da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa foi deixando a sua marca nas ruas de forma pontual. O passar dos anos trouxe-lhe a maturidade e o desejo de tornar mais forte e visível a sua arte.

Os valores capitalistas foram ganhando mais força e expressão na sociedade. Nasceu então o Dalaiama – sem no entanto o próprio apontar uma data bem definida – e com ele a vontade de veicular uma mensagem política mais vincada e assumidamente contra o neoliberalismo, assim assegura o artista: «Simplesmente oponho-me à formatação imposta pelo sistema capitalista. Em razão do facto de estarmos demasiado dentro deste sistema é fácil perdermos o sentido crítico e não percebermos o quão totalitário ele é.» Não descurando a parte estética, o objetivo de Dalaiama passa também por conduzir a uma reflexão crítica fundada nos valores da liberdade e da democracia. Conta que há décadas que luta «por um lugar no espaço público onde me seja concedido o direito à livre expressão. As pessoas indignam-se com um stencil minúsculo numa parede, mas se nesse mesmo lugar colocarmos cartazes publicitários gigantes então já ninguém protesta. O entendimento que temos das coisas é muito relativo», contesta.

Contudo, a sua intervenção cívica e política não se limita às paredes. O artista assume-se como elemento da “geração rasca” e não hesita em manifestar o seu apoio a protestos como o do próximo dia 12, em Lisboa. «Hoje somos a geração à rasca, a geração vítima de um capitalismo devorador que procura afirmar-se sobre as ruínas do Estado providência e dos direitos sociais. Somos confrontados com uma era de corrupção em que se socializam os prejuízos e privatizam-se os lucros.».

A marca que não é comercial

Dalaiama não hesita em afirmar que as suas produções são arte mas recusa a designação de graffiti. Para o artista plástico, a responsabilidade de se fazer arte urbana exige muito mais que simples inscrições na parede e deve ser encarada como um meio privilegiado de chegar ao grande público. Diz-se um artista para todos contrariamente à maioria dos seus pares. «Quem anda por aí a desenharletterings, muitas vezes ilegíveis, pretende ser reconhecido apenas dentro de uma comunidade fechada de writers. Contrariamente, quem faz street artprocura chegar aos corações e às mentes de todos os cidadãos. É essencial haver respeito pelo público fruidor e pela coisa pública em geral.»

As inscrições que deixa à vista de todos foram-se convertendo num logótipo, designação que qualquer pessoa atribuiria sem dificuldade. Ainda assim, a justificação para esta omnipresença vai para além do aspeto visual. «As marcas das grandes corporações possuem os seus próprios logótipos e usam a estratégia da propaganda para induzir comportamentos obsessivos de consumo. Pois o Dalaiama também é uma marca. Neste caso, como se troçasse da publicidade consumista, não vende nada.», esclarece o artista.

A mensagem é assumidamente política mas também poética e estética. Considera-se um cidadão civicamente ativo e reforça a importância do que transmite em detrimento do reconhecimento individual. A sua arte torna-se pública assim que chega a mais uma parede e afirma já ter sido confrontado com interpretações contrárias ao que pretendia mostrar, facto que encara com naturalidade. «Já houve quem dissesse que a arte dalaiamiana elogia o capitalismo, na medida em que apresenta um capitalista engravatado e a força do capital». Certo do seu objetivo, relembra que «A arte não é elitista, é precisamente para todos porque todos conseguem interpretá-la à sua maneira, que é sempre a maneira correta.»

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+++Este artigo foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.+++

Uma Geração para desenrascar

11 Mar

Desde sempre o Homem teve uma necessidade imperiosa de nominar tudo o que o rodeia. Primeiro foram os próprios homens, dando nomes a cada um, depois os objetos e por aí fora. Na sociedade contemporânea, onde tudo o que se conhece tem nome, surgiu a necessidade de rotular cada geração que passa pela História com um epíteto.

Vicente Jorge Silva, diretor do jornal Público, utilizou, em 1994 num editorial, a expressão Geração Rasca para designar uma geração que protestava contra tudo e contra todos. Antes, num fenómeno iniciado nos EUA e que depois migrou para o resto do Ocidente, em especial para a França, que resultaria no Maio de 68, era a Geração X, a primeira sem a influência da religião na sua formação. A era digital, através do Facebook, deu-nos a conhecer uma iniciativa de quatro jovens: Alexandre de Sousa Carvalho, António Paixão, Paula Gil e João Labrincha. Protesto da Geração à Rasca foi o nome escolhido para tal iniciativa, e a verdade é que pegou moda.

Mais do que dar nome a uma geração que dizem ser a dos «desempregados, “quinhentoseuristas” e outros mal remunerados, escravos disfarçados, subcontratados, contratados a prazo, falsos trabalhadores independentes, trabalhadores intermitentes, estagiários, bolseiros, trabalhadores-estudantes, estudantes, mães, pais e filhos de Portugal», este movimento apartidário, laico e pacífico pretende “acordar” a sociedade civil para os problemas que esta atravessa e que devem ser combatidos por todos, reforçando assim a «democracia participativa no país».

O conceito Geração à Rasca foi criado por João Labrincha, que em declarações ao jornal Público afirmou que este movimento teve como inspiração a música Parva que Sou dos Deolinda, e surgiu devido às condições de trabalho precárias que este jovem sempre viveu até que ficou desempregado. Ao aperceber-se da realidade que o envolvia juntou-se a mais três colegas com quem tinha estudado na Universidade de Coimbra e decidiram avançar com um projeto que «reforçar a democracia e não derrubar governos» segundo João Labrincha, ao que acrescentou a vontade de fazer «ouvir a nossa voz [a da sociedade] e apresentar soluções». Este conceito engloba a geração dos 20, 30 e 40 anos, conforme as declarações do licenciado em Relações Internacionais.

O protesto que já conta com mais de 56.000 confirmações no Facebook, surge fruto de uma conjuntura económico-social de crise. O desemprego atinge níveis históricos, ultrapassando os 11%, sendo que cerca de metade desse valor é constituído por pessoas com menos de 35 anos, a precariedade no trabalhe é uma realidade avassaladora, isto apesar desta geração ser a mais qualificada de sempre em Portugal.

Sábado, dia 12 de março, aqueles que saírem à rua irão reivindicar por: «direito ao emprego e à educação, melhoria das condições de trabalho e fim da precariedade, o reconhecimento das qualificações, competências e experiência, espelhados em salários e contratos dignos», segundo o Manifesto e Carta Aberta à Sociedade presentes no blogue do movimento.

Canção ao lado?

10 Mar

Quando, há três anos, os Deolinda lançaram o seu primeiro álbum, Canção ao Lado, nada fazia prever que, tempo depois, comporiam uma música que se arrisca a ser o hino de uma geração. Hoje, em pleno 2011, os Deolinda já vão no segundo álbum e a música Parva que Sou ecoa um pouco por tudo o que é rede social ou associação juvenil.

Rui Tavares, na sua crónica no jornal Público, o mesmo jornal cujo diretor Vicente Jorge Silva cunhou o termo “geração rasca”, indignou-se pelo epíteto dado. Diz o eurodeputado, concordando com a música, que a “geração rasca” foi, afinal, «a mais bem preparada de sempre no país». E, na mesma linha, Rui Tavares refere que realmente a sua geração foi parva mas, avisa, «ninguém pode ser parvo tanto tempo assim».

Contudo, o hit Parva que Sou não é pacífico e gera as reacções mais antagónicas. Se há os que lhe conferem um cariz revolucionário ou intervencionista, também há os que criticam a sua mensagem. Isabel Stilwell, directora do jornal Destak, diz mesmo que são parvos os jovens que estudaram e são escravos, mas «parvos porque gastaram o dinheiro dos pais e dos nossos impostos a estudar para não aprender nada». Também Pedro Marques Lopes, colunista do jornal Diário de Notícias, caracteriza a canção como «o hino dos que desistem, (…) dos que culpam os “outros” e se esquecem que são eles também os responsáveis por esses “outros” mandarem».

Seja como for, a forma viral como a música dos Deolinda se espalhou pela internet sem sequer ter ainda sido editada em estúdio é notável. E, guerrilhas à parte, parece inegável que a letra caracterize, de facto, uma geração. Por exemplo, canta Ana Bacalhau que esta é a “geração casinha dos pais”. Goste-se ou não de admitir e causas para isso à parte, o que é verdade é que de facto os jovens cada vez saem mais tarde de casa. Ou, também como canta a música, a primazia dada ao carro que está “por pagar”, antes de ter filhos e marido.

Mas, segundo os Deolinda, esta é também a “geração sem remuneração” mas que não se incomoda com essa condição. Ou a “geração ‘vou queixar-me para quê?’”, se há alguém pior na TV. No final de cada verso, lá se explica que esta é a geração parva em que para ser escravo é preciso estudar.

Convicções políticas de lado, a letra de Parva que Sou tem o mérito de chamar a atenção para uma realidade: a dos jovens descontentes com o seu futuro, ou a falta dele. Não se discute se é legítimo ou não, apenas que a música conseguiu colocar na agenda mediática um tema que teimava em não ser capa de jornal durante vários dias seguidos.

Apesar da sua jovem carreira, os Deolinda já não são novatos no que respeita a este tipo de música. Em 2008, no seu primeiro trabalho, gravaram uma música intitulada Movimento Perpétuo Associativo. A letra, tal como esta de 2011, é habilmente construída para caracterizar a sociedade em que vivemos. Tudo se baseia numa simples estrutura que alterna entre versos como “Agora sim, damos a volta a isto!” com “Agora não, que é hora do jantar…”.

Esta letra poderá sintetizar o que muitos julgam ser a sociedade portuguesa de hoje, em que muitos se queixam e poucos se mexem. E na letra de Parva que Sou o problema volta à baila, quando se fala na inacção dos jovens que tanto se queixam.

Movimento Perpétuo Associativo poderá ser, então, o verdadeiro poema fundador da geração à rasca, mas que ninguém reparou. Porque, já em 2008, Deolinda dizia que havia muito para fazer, muito para mudar. E criticava todos aqueles que “achavam que não podiam”. Com Parva que Sou, Ana Bacalhau e companhia não estão com meias medidas: depois de uma letra em que se apresentam os problemas de que alguns jovens se queixam, fica o chamamento porque, afinal, esta é “a geração ‘eu já não posso mais!’, que esta situação já dura há tempo demais”.

Em 2008, Movimento Perpétuo Associativo passou quase despercebido. Foi preciso surpreender dois Coliseus (ou quatro, se quisermos ser rigorosos) com uma música a chamar os jovens de parvos para que houvesse uma movimentação. Será desta vez, agora que foram mais espicaçados, que os jovem vão dar “a volta a isto”, ou terá sido apenas mais uma “canção ao lado”?

+++Este artigo foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.+++