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Para quando a reviravolta da Nokia?

18 Apr

Há meses anunciada, a parceria entre a Nokia e a Microsoft ainda não viu efetivamente a luz do dia. Entretanto, a conhecida marca finlandesa vai apostando no seu sistema operativo Symbian e continua a lançar novos equipamentos no mercado.

Se há alguns anos atrás, os finlandeses desbravaram os mercados como vikings e conquistaram a confiança de inúmeros consumidores com os seus heróis Nokia 1100, 3310, ou 3330, hoje em dia a empresa parece ter perdido o trilho das grandes inovações. Deixaram-se ficar para trás na corrida à conquista do segmento dos smartphones e dos sistemas operativos face aos bem-sucedidos iOS da Apple, ou Android da Google.

No entanto, na semana passada foram apresentados novos telemóveis. Um X7, vocacionado para o entretenimento, e um Nokia E6, mais virado para profissionais; ambos com uma nova versão do Symbian, alcunhada de Anna. Por outro lado, já à venda em Portugal, a Nokia deixou ainda sair da gaveta o novo E7, ainda com a versão antiga do mesmo sistema operativo, mas um telemóvel que promete ser a nova coqueluche dos “profissionais”.

A Nokia parece querer provar que, além da aliança forte com a Microsoft, o seu sistema operativo e a sua “independência” ainda fazem das suas. Tudo isto, mesmo depois de a marca ter confessado que o Symbian “será descontinuado no futuro” para dar lugar aos primeiros Windows Phone Nokia.

Por isso mesmo, as especulações e os rumores correm na Internet. Recentemente, o fanático russo por comunicações móveis Eldar Murtazin revelou dois aparelhos Nokia que deverão vir equipados com o SO da Microsoft. Apelidados de Nokia W7 e W8, os dois novos telefones baseiam-se nos Nokia X7 e Nokia X8, respectivamente. Claro que, embora o hardware possa ser semelhante, o software será completamente diferente, com o Windows Phone 7 como plataforma.

No entanto, o savoir faire da Nokia na engenharia, e a larga experiência em software por parte da Microsoft parecem prometer telemóveis fantásticos, algo que se deverá chegar aos nossos olhos (e às nossas mãos) em 2012. Até lá, a empresa finlandesa vai tentando enganar as nossas ambições, algo que muito dificilmente consegue quando marcas como Samsung, HTC, ou Apple vão liderando a corrida.

Jovens dependentes dos gadgets

11 Apr

Recentemente, a Universidade de Maryland, nos EUA, efetuou um estudo sobre a relação entre os jovens de idade universitária e os gadgets com acesso à Internet, e revelou que existem sintomas de vício nos sujeitos envolvidos no estudo.

Realizado com mais de mil pessoas, de vários países dos cinco continentes, que se ofereceram para “se afastarem” dos seus gadgets, os intervenientes deste estudo apresentaram sintomas de abstinência característicos de quem tem um vício. Isto significa que, apesar de todas as limitações relativas a este tipo de estudos, existe um indicador forte de que a Internet tem-se aproximado cada vez mais das pessoas, e as pessoas, invariavelmente dos seus conteúdos.

Comprar um iPhone, um Samsung Galaxy S, ou qualquer outro terminal com características de smartphone, é quase o mesmo que dizer “Tenho o mundo na palma da mão”. O facilitismo apresenta-se como uma ferramenta útil, prática e célere, que acompanha o ritmo que o mundo surpreendentemente nos apresenta.

No entanto, a dependência provocada por uma utilização exaustiva deste tipo de equipamentos com Internet revela que existe uma mudança na forma como tendencialmente se acede aos conteúdos digitais de informação, entretenimento, etc.

Em primeiro lugar, qualquer vício, seja ele qual for, é sempre uma forma de pisar o risco ao autocontrolo e à saúde.  Em segundo lugar, os efeitos secundários desta dependência podem originar outro tipo de problemas, como o acesso a um excesso de informação que inunda os circuitos da Internet.

Com a rapidez e a competitividade online, os assuntos tratados pelos jornais correm o risco de se tornarem menos aprofundados. Ainda para mais se forem consultados através de um equipamento com um ecrã pequeno, como é o caso dos smartphones, ou no caso dos tablets. Parece existir uma urgência pela síntese, mas o perigo da síntese é camuflar a informação mais profunda, os detalhes que são mascarados por informação simplista. A informação é tratada com menos profundidade.

A dependência da Internet “a toda a hora” favorece um maior acesso a conteúdos, mas cada vez menos aprofundados. Depois, claro, existem outro tipo de riscos de dependência sintomáticos de um comodismo crescente, de um facilitismo preguiçoso, de uma cada vez menos capacidade pela procura e pela curiosidade.

Seja como for, retiram-se inúmeras vantagens desta aproximação cada vez maior aos conteúdos em rede, mas o segredo para uma interação saudável pode residir, como é comummente aceite, no equilíbrio.

+++Este artigo foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.+++

A chatice da pornografia

4 Apr

Chamar à pornografia uma chatice, ou mais parcimoniosamente, a dor de cabeça da Internet, é não só a prova viva de um falso pudismo como uma mentira perniciosa. Há alguns dias atrás a ICANN decidiu aprovar a proposta para a criação do domínio .XXX – uma espécie de anexo para conteúdos pornográficos pomposamente preparado dentro do terreno fértil da rede. O assunto da pornografia veio novamente à baila.

Apesar de serem inegáveis a atribuição de alguns dados históricos e pioneiros à pornografia, como o facto de o primeiro sistema de pagamento direto online ter começado a aparecer em sites da especialidade, o dogma anti-pornográfico perdura, por diversas e compreensíveis razões, ou simplesmente por justificações meramente insípidas.

Por isso, agora, com o seu próprio lugar, preparado e legitimado para servir a indústria pornográfica, a pergunta que coloca é: como se vai processar a interação entre a pornografia, os consumidores, os pais e a protecção das crianças, e a dinâmica económica da indústria?

Stuart Lawley, diretor executivo da ICM Registry, afirmou, aquando da aprovação, que “a decisão da ICANN aprovar a criação do domínio .XXX é um momento marcante para a Internet.” Por outro lado, e apesar de algumas alas da indústria da pornografia terem gerado uma certa pressão para o nascimento do domínio, Diane Duke, diretora executiva da Free Speech Coalition, uma associação que representa mais de mil empresas de pornografia, disse ao New York Times que “a indústria está unanimemente contra.”

Além disso, a Índia (país de matiz sensual, com assinatura orgulhosa do Kamasutra) foi o primeiro a bloquear o domínio.

Por um lado, o fechamento e o rótulo de .XXX a um universo muito específico pode facilitar e legitimar o acesso a conteúdos pornográficos; por outro lado pode fechar a indústria e afasta-lo do restante universo online – situação esta que irá certamente favorecer a proteção de menores, mas virar do avesso as contas de alguns setores da indústria porno.

Mas no fundo, surge sempre uma estranheza perante este mundo tão inocentemente descoberto em tenra idade, e dogmaticamente afastado (por razões de pudor) das vistas humanas. A criação de um espaço muito específico para a pornografia não só a legitima como ao mesmo faz com que esta não se dissemine. Torna-se algo compacto, arruma-se, e ornamenta-se um lugar só para ela.

Por outro lado, recentemente a conhecida empresa de segurança online Kaspresky declarou que bloqueia em média três mil pesquisas por minuto de sites de pornografia. E é comummente conhecido que as palavras relativas ao acto sexual (depravado ou não) dominam por várias vezes o ranking das pesquisas.

Parece existir aqui, portanto, uma espécie de hibridez estável. A procura por pornografia e sexo é algo inevitável. Goste-se ou não se goste, a pornografia tem uma importância sólida nos circuitos cibernéticos de consumo. Quanto ao futuro do novo domínio, a única certeza que parece existir é de que agora em diante já não há desculpas para poder dizer “vim cá parar sem querer, querida”.

+++Este artigo foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico+++

Aplicações: o novo bem essencial

28 Mar

Recentemente a Apple aprovou uma aplicação “para curar gays” que dias depois foi retirada da App Store; a RIM anunciou que o tão aguardado BlackBerry PlayBook deverá incluir aplicações Android; e o exército norte-americano está a trabalhar numa série de aplicações de smartphone para Android, iPhone e iPad, com o objectivo de ajudar as suas forças no terreno. E estes são apenas alguns factos recentes…

As aplicações já não servem apenas para serem instaladas nos nossos equipamentos e para nos serem úteis. Elas estão cada vez mais nas páginas dos jornais.

Os desígnios tecnológicos têm-se vindo a alterar graças a vários fatores. Mas existe um que é paradigmático – facilitar a nossa vida. Ninguém duvida que a introdução do telecomando foi a grande mudança. Já ninguém tinha que se levantar para mudar de canal (em primeiro lugar, ato que desgastava; em segundo lugar, como desgastava ficava-se mais  tempo no mesmo canal).

Nesse sentido, a tecnologia tem-se afunilado, ou melhor, afastado das linhas de ação. Se com o computador Spectrum os próprios utilizadores eram obrigados a lerem infindáveis manuais de códigos para fazer o brinquedo andar (muitas vezes sem sucesso), hoje em dia, cada vez menos, temos que nos preocupar com isso.

Digamos, a bom português, que a papinha vem toda feita. E o melhor exemplo disso são as aplicações.  Podemos descarregar uma aplicação à distância de um clique já que o objetivo das marcas e das operadoras é reduzir o tempo que vai da indecisão (ou da decisão) à compra.

Mas acima de tudo, é esse afastamento, que vai da produção ao consumo, que tem vindo a alterar, de facto, a nossa interação com a tecnologia. É como o menino da cidade que nunca viu uma galinha a pôr um ovo, mas vê a mãe no supermercado a comprar ovos. Quando come aquilo, sabe-lhe a ovo (porque é mesmo um ovo) mas o seu consumo é, digamos, ligeiramente kafkiano.

Se alguém pensa que uma aplicação vai permitir “curar a homossexualidade” é a prova de que se quer facilitar a vida ao extremo. É um marco exemplar da geração do botão. Assume-se comummente que estes programas vêm facilitar a nossa vida, mas questiona-se a sua componente de produto acabado e pronto a ser consumido.

No entanto, é certo que já ninguém quer inserir códigos estranhos em MS-DOS, ou descobrir, entre infindáveis opções num telemóvel, onde está a simples ferramenta que se chama “Calculadora”. O paradigma é esse. A mudança é exatamente essa. Queremos consumir (apenas) e as marcas querem que nós (apenas) consumamos.

+++Este artigo foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.+++

Trincar depois de trincado

21 Mar

A maçã está trincada porque convida a darmos-lhe outra trinca. E utilizando sempre a mesma analogia do Génesis, a serpente do Paraíso convenceu Eva a colher o fruto proibido da mesma forma que a Apple nos convence a trincar os seus produtos.

Esta analogia só pisa o risco se tivermos em conta que a serpente bíblica não teria, à partida, qualquer interesse prático em que um ser humano coma do fruto do conhecimento (claro, a não ser a mando de Deus, como se viu – nem quero imaginar o numerário que lhe recheou a conta).

A Apple assume a forma da maçã já trincada, ou seja, quem a trincar agora está, aparentemente, livre do pecado original, pela culpa de ter gasto mais de 2 mil euros num portátil. No entanto, se a maçã não estivesse já ratada simbolicamente pela primeira mulher, hoje ninguém compraria produtos da Apple. Para quê? Carregar o pecado às costas constantemente? Por cada app descarregada deixar rolar uma lágrima de arrependimento? Não! Ou era isso, ou a marca tinha de mudar de logótipo.

E parecendo que esta ideia é apenas fruto do pretensiosismo semiótico de um opinante casual, os argumentos estão em cima da mesa, e toda a gente tem inscrito na sua memória mais remota as lendas da Bíblia que a moral e a ética nos decidem contar.

Pronto, resta apenas dizer que, aparte destas teorias que remontam aos meandros da literatura mais ancestral, temos de reconhecer que os produtos são bons. Bastante bons! Ok… demasiado bons. (Quero um iPhone!) E não me faz impressão nenhuma trincar a fruta que outros já trincaram (cuidado com os trocadilhos).

Só me entristece o facto de eu hoje comprar um iPad e pavonear-me com ele, fazendo inveja no metro ao senhor que ainda lê o jornal gratuito que cheira a tinta, só porque tenho 3G, e um ano depois sair uma versão melhor que a que eu tenho. Bem, mas as marcas é que mandam, e o ritmo é louco. Talvez o Deus bíblico tivesse razão, quando tentou impedir que a humanidade não tivesse acesso às coisas boas da vida. Há sempre uma melhor, ao virar da esquina.

“+++Este artigo foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.+++”