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Histórias do Festival – II

5 Mar

por Raquel Ermida / Espalha-Factos

Mas eis que o interregno de Festival da Canção chega ao fim e a RTP lança-se novamente na aventura de o colocar no ar. São as Nonstop quem reinaugura o painel de cantores que se seguiriam nesses anos, ao terem sido as eleitas para representar Portugal na Eurovisão. O tema, Coisas de Nada, ao estilo do ano 2005, era bilingue, num género que tentaria colocar-se ao nível do que era feito na Europa, mas que ainda assim não conseguiu vingar na Eurovisão, ficando-se apenas, uma vez mais, pela meia-final.

Em 2007, não variando muito do que se sucedera nos anos anteriores, Sabrina tentou levar à Eurovisão uma música da autoria do cantor popular Emanuel, não passando, uma vez mais, da meia-final. Dança comigo (Vem Ser Feliz) foi o tema desse ano. Em 2008, foi a vez de Vânia Fernandes dar alguma cor ao Festival da Canção, levando à Eurovisão o seu tema Senhora do Mar. A vencedora da OT conseguiu, desde a implementação do sistema de Meia-Final e Final, colocar-nos na última fase de escolha, posicionando-se em 13º lugar.

Após o sucesso de Vânia Fernandes, e na contínua tentativa de restituir algum portuguesismo ao Festival da Canção, os Flor-de-Lis trouxeram a palco Todas as Ruas do Amor que, mantiveram Portugal na Final, desta vez em 15º lugar naEurovisão. Já o ano de 2010 foi marcado pela polémica de Filipa Azevedo que, com o seu tema Há dias assim, fez criar atrito entre a decisão do júri e do público. Relativamente a Catarina Pereira, Filipa Azevedo conseguiu a vitória por apenas um ponto, graças ao júri, resultando numa gala explosiva, com um público em reboliço, descontente com o sistema de votação. Porém, Filipa Azevedomanteve a tendência de descida de Portugal na tabela que, apesar de ter chegado à Meia-Final, ficou-se pelo 18º lugar.

Um olhar sobre o presente desencadeia a necessidade de reflectir sobre o passado. A música portuguesa teve os seus momentos de fama e glória. Poetas que havia o destino de lhes ter dado o engenho e arte para escrever especialmente para as grandes divas e reis da música portuguesa, que fizeram as delícias dos nossos ouvidos. Estarão para sempre imortalizados na nossa história… Muitos são reinventados pelas gerações actuais, que não deixam cair no esquecimento as mensagens implícitas nas suas músicas, que tão contemporâneas se mantêm. Vozes inconfundíveis, cujas canções os nossos avós ainda hoje trauteiam, recordando os êxitos de outros tempos. Outros momentos houveram, porém, que a nossa música, depois de uma revolução que esqueceu quem tanto por ela lutou através da sua arte, entrou num processo de decadência.

Hoje, considero que podemos ver que o que é feito em Portugal e por Portugal está a tentar tomar um novo rumo. A tradição está a ser recuperada num processo de restauração, com vista a manter as estruturas fundamentais do antigo, combinando um toque do que é novo. Nisto vejo uma tentativa de fazer correr sangue novo, com ideias originais, que cantam o “Peito ilustre lusitano”. Nesta tendência, creio que o Festival da Cançãodeveria tentar beber dessa nova onda musical que a música portuguesa está recriar, de modo a recuperar os quase já olvidados tempos de grande notoriedade do Festival, devolvendo-lhe a imensidão de telespectadores curiosos e críticos que outrora marcavam sua presença obrigatória. “É Hora!”? Sim.

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Histórias do Festival – I

5 Mar

por Raquel Ermida / Espalha-Factos

Se hoje Tony de Matos ordenasse ao tempo que ao invés de voltar para trás, desse alguns passos até chegar ao presente, talvez não muitos anos, possivelmente as audiências da RTP1 no próximo dia 5 de Março, aquando a exibição de mais uma edição do Festival da Canção, atingiriam níveis elevados que fariam concorrência aos restantes canais de TV.

Se hoje a importância dada a este evento é relativa, no passado as famílias sentavam-se em frente ao arcaico televisor da altura e seguiam atentamente o desfile de temas musicais que a caixa mágica fazia surgir. CadaFestival era imperdível e os nomes sonantes de António Calvário, Simone de Oliveira, Carlos do Carmo, José Cid ou o fenómeno das Doce, entre muitos outros, andavam de boca em boca, discutindo-se de forma acesa a música merecedora de chegar à Eurovisão. Se de política era proibido falar, ao menos do patriotismo musical o país podia-se orgulhar.

Porém, os tempos áureos do Festival da Canção começariam a ver o seu fim por volta do término da década de 90 e inícios do ano 2000, com 2002 a surgir como o ano negro da história do Festival da Canção: Portugal não recebe convite da Eurovisão para levar a concurso o seu candidato. Os fracos resultados que os participantes vinham a arrecadar, as baixas audiências e a insuficiente votação do público que permitisse a participação a nível internacional, deram a sentença final ao Festival, e a RTP sentiu-se demovida a nem sequer realizar, nesse ano, aquele que teria sido um dos eventos musicais mais badalados do século XX em Portugal.

Com a não realização do Festival da Canção em 2002, nos anos que se seguiram, a própria RTP encarregou-se de eleger os participantes no concurso, numa tentativa de elevar a fasquia da qualidade e de promover o Festival, devolvendo-lhe assim a glória que tivera. Coube, então, ao público escolher entre três possibilidades, a música que desejaria ver cantada na Eurovisão. Em 2003, Rita Guerra foi a convidada do canal público, e as músicas a competirem entre si foram a vencedora Deixa-me sonhar, (só mais uma vez)Prazer no pecado em 2º lugar e em 3º Estes dias sem fimRita Guerra conseguiu o 22º lugar, situando-se entre a Estónia e a Eslovénia, na Eurovisão.

No ano em que completa a sua 40ª edição de Festival da Canção, é à OT que a RTP vai repescar os concorrentes do ano 2004. Foi magia, de Sofia Vitória, a música vencedora, a qual não passou da semi-final, ficando-se pelo 15º lugar. Finalmente, chegados a 2005 e depois do sucesso de Luciana Abreu no Ídolos, esta é nomeada pela RTP, juntamente com Rui Drummond, para constituir os 2B, banda formada especialmente para a Eurovisão. A música com o título Amar ficou-se pela Meia-final, não conseguindo passar à fase seguinte.

Acabaram as canções?

5 Mar

por Catarina Moura / Espalha-Factos

Em 1973, a um ano da revolução que mudaria indubitavelmente Portugal, Fernando Tordo cantava em Tourada: “diz o inteligente que acabaram as canções”. 37 anos volvidos, olhando para o que foi e o que é o Festival da Canção, acabaram-se realmente as canções?

Quando começou, em 1964, o festival tinha a intenção primeira de seleccionar o intérprete e música representantes de Portugal no concurso europeu, que tinha começado também poucos anos antes: a Eurovisão da Canção. Depressa se tornou muito mais que isso.

Nos anos 60 e 70, o Festival da Canção era um acontecimento nacional. Era, além disso, assim, que o governo de Salazar, controlador da única estação televisiva, o queria. Uma transmissão em que mais uma vez se controla o que os portugueses ouvem e em que, num momento de evasão, as pessoas se reúnem para esquecer tudo o resto e prestar duas horas de atenção a música. No entanto, opondo-se à visão do regime, também os autores viam neste evento um veículo da sua palavra liberdade. E assim a vontade dos criativos suplantou, não raras vezes, a do ditador. Para prová-lo ficaram para a história músicas como Festa da Vida (1972), que apela à festa, à união e restituição da celebração, Desfolhada (1969), em que Simone de Oliveira profere versos arrojados à época como “quem faz um filho, fá-lo por gosto” e chama “casca de nós desamparada” ao país, ou a sempre citada neste âmbito Tourada (1973), na qual, para além de criticar a sociedade do início ao fim da música, Fernando Tordo provoca a câmara e o espectador.

A popularidade que o Festival da Canção foi coleccionando, não só por razões políticas, mas também por ser um programa único do campo audiovisual português, faz com que tenha tido para si os melhores letristas, compositores, músicos e intérpretes. Há que não esquecer que, nos primeiros anos de Festival da Canção, os portugueses estão a descobrir as potencialidades da televisão, tendo uma oferta muito limitada, sem qualquer concorrência.

Talvez assim se explique a qualidade inicial da generalidade das músicas concorrentes ao Festival da Canção. Os melhores participam porque sabem que o programa é visto e apreciado; o programa é visto e apreciado porque os melhores participam.

Com a maior estabilidade em democracia, o evento perde importância e com isso qualidade nas canções. Deixa, obviamente de ser politicamente necessário e perde bons letristas que anteriormente o usavam com esse intento. Agravando a situação, a proliferação em Portugal de uma música demasiado pop, demasiado ligeira, conspurca o festival. E os exemplos? Qualquer um os encontrará.

Com a entrada no mercado dos canais privados de televisão, no inicio dos anos 90, a RTP não soube fidelizar os fãs do Festival da Canção. A maior oferta faz com que o espectador mude de canal num único gesto e para isso basta suspeitar que não vai gostar. Para isto contribuíram as constantes mudanças no formato do programa no que respeita à selecção do vencedor. A procura da RTP por um método prefeito fez com que o espectador se desorientasse e permanecesse na dúvida de quem escolhe na realidade o vencedor. Os métodos de votação em constante mudança confundiram os que assistiam ao programa e, pior que isso, desrespeitaram-no. O público que começou a sentir o direito de escolher o vencedor viu, não raras vezes, o júri tomar esse poder para si, como aconteceu em 2006 com a polémica vitória das Nonstop frente a Vânia Oliveira, a escolha do público, ou, numa situação mais extrema, em 2005, quando o canal escolheu os 2B, sem dar a palavra ao público.

A verdade cruel do Festival da Canção: perdeu popularidade, perdeu importância, as pessoas já não se juntam para o ver, já não o comentam, já não fazem dele o evento da semana. A popularidade que perdeu arrastou consigo, não será exagero dizê-lo, perda de credibilidade. Os artistas pensam duas vezes antes de participar e muitos deles desistem. Os melhores, com um futuro promissor na música, nem sequer pensam em fazê-lo. OFestival da Canção já não é a montra de valor e qualidade que se gostaria e que costumava ser.

Há, de ano para ano, uma busca incessante pelo padrão de música que a Europa quer ver como vencedora, sente-se constantemente a necessidade de a criar e de com isso chegar ao topo. Como é prova a história doFestival da Canção, isso distrai-nos. As melhores músicas que tivemos ficaram, na sua maioria, longe do pódio, as piores, algumas delas, nem conseguiram chegar à actuação no palco da Eurovisão.

Festival da Canção deveria bastar-se a si próprio e não ser uma mera etapa de selecção para um concurso europeu que os portugueses sobrevalorizam ao julgar mais importante que o concurso interino. Se as músicas apresentadas constituíssem o exemplo de boa música, em vez de serem invenções daquilo que julgamos que os europeus gostam, provavelmente continuaríamos sem ganhar a Eurovisão, mas também não sentiríamos dor ou pena ao ver um programa de culto da televisão portuguesa.

Acabaram-se as canções? Espero que não.