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Impressões sobre a Revolução de Abril

25 Apr

«Há precisamente 36 anos, Portugal ia hoje a votos para a Assembleia Constituinte. Há precisamente 35 anos, Portugal ia a votos para as primeiros eleições legislativas livres em muitos anos. Hoje, Portugal está sem Governo e, pelo menos por agora, ingovernável.

A Revolução de abril foi um marco na História de Portugal. Foi um momento de mudança, tanto quanto o é o fim de uma ditadura. Com o 25 de abril, acabaram as perseguições, acabaram os presos políticos, acabou a guerra, acabaram os racionamentos de alimentos, acabou a censura. Acabaram mais de quarenta anos em que o Estado, que mais não era que um só homem, controlava e determinava o dia-a-dia de cada português.

Com o 25 de abril, Portugal abriu-se ao mundo e esperavam-se mudanças radicais. Entrámos na CEE, modernizá-mo-nos com os dinheiros europeus, criámos sistemas de saúde, de segurança social, de educação, de cultura, para todos. Portugal tornou-se um país aberto e em competição com os gigantes europeus na busca por um papel relevante num mundo global.

Mas hoje, 37 anos depois do último dia que originou um feriado nacional, concluímos que Portugal não cumpriu o que se esperava dele. Olhando para o nosso caso, ocorre a comparação com um jogador da bola, uma daquelas promessas que se podia tornar num dos melhores do mundo; teve a fama, mas nunca chegou a ter o proveito. Com Portugal, a história foi idêntica: tinha tudo para ter um grande desenvolvimento mas, no fim, os vícios e o “fácil” (tal como com os jogadores da bola) acabaram por levá-lo às ruas da amargura.

Portugal é hoje um país economicamente do avesso. Após a revolução, os portugueses nunca conseguiram perceber o significado de palavras como “democracia”, “liberdade” ou “igualdade”. Exigiu-se o fim de um ditador que controlava a vida de cada um, para se tentar impôr um Estado que controlasse a vida de todos. Quis-se liberdade para pensar, dizer,  fazer, atentar, criticar tudo e todos, a começar pelo Estado, mas quando as dificuldades surgem, é ao Estado que se volta.

O Portugal de hoje é um adolescente mal-comportado que vê no Estado um pai que não respeita. Quando precisa de dinheiro, o “pai” lá tem que estar para o cobrir, mas quando chega a hora de retribuir, os impostos são para os “outros” pagarem. Portugal é uma criança que ansiava por poder falar, mas assim que aprendeu só consegue dizer palavrões.  Portugal é um jovem irresponsável e arruaceiro, que se porta mal perante o seu “pai-Estado”, numa relação amor-ódio em que diz que não o quer mas não consegue viver sem ele. É um adolescente que, em casa, se porta mal mas que, quando sai à noite com os seus amigos e vizinhos, vai sempre bem apresentado, como se a sua fosse a mais normal das famílias. É, até, um adolescente que faz festas em casa para os amigos, autênticos sucessos sociais, que tentam fazê-lo esquecer a morte lenta do seu “pai”.

Com Salazar e Caetano morreu uma grande parte negra da História portuguesa. Mas a ânsia de nos livrarmos do “mal” não nos permitiu ver que tínhamos algo a aprender com as quatro décadas de ditadura e não nos deixou manter o que havia de bom. Perdeu-se o sentimento de nacionalismo que faz falta a uma nação, perderam-se a ordem e o respeito pelos outros e pelas instituições, perdeu-se grande parte da liberdade por troca com uma libertinagem bacoca, perdeu-se o sentido de responsabilidade. Ganhámos um país livre. Agora, 37 anos depois, está na hora de aprendermos o que significa verdadeiramente “liberdade”. Dia 5 de junho, é a data do exame.»

João Vargas, diretor de Conteúdos

«25 de Abril. Se eu tivesse competência para o fazer, elegeria este como o dia mais emblemático da história portuguesa. O dia em que a coragem se sobrepôs ao calculismo, o dia em que fomos, como sempre, pacíficos mas vitoriosos.

Portugal é hoje um país manietado, vítima de uma transição de regime pouco eficaz e até mesmo de uma má integração europeia. O pioneirismo e espírito de conquista que anteriormente fizeram o nosso país a mais importante potência mundial, foram-se perdendo, também muito por culpa da ditadura, que convenceu as pessoas de que deviam estar quietas, ser tementes a Deus e esperar pelos desígnios d’Ele neste cantinho de humildade, paz e sol dourado.

Na verdade, 37 anos depois do final da ditadura, muito continua por fazer, porque a revolução cultural continua por concretizar, porque continuamos, como eu dizia há uns dias, com brandos costumes e com a tacanhez que o salazarismo semeou em nós. E ele continua por aí. A cada esquina, escondido em cada resquício de pequenez, de conservadorismo bacoco, do medo de arriscar. As más línguas, o comentário de café, à boca fechada, em surdina, no conforto da mesa e à distância do televisor, mais não são do que uma má herança desse tempo, em que não nos era dada a hipótese de agir.

Mas essa falta de vontade de agir é mesmo o que move aqueles que pedem o regresso de Salazar ou que dizem cobras e lagartos da democracia que temos sem propor qualquer alternativa, e se pedem uma ditadura para “pôr tudo no sítio” é basicamente porque não têm coragem de agir, são comodistas e não são capazes de tomar para si a responsabilidade da mudança.

Há 37 anos, eles não tiveram medo do que podia acontecer e puseram a sua liberdade e vida em risco para que os portugueses pudessem tê-las. Liberdade, com toda a responsabilidade que ela traz e vida, a sério, por completo, sem ser orientada por uma mão invisível, sem ser vigiada a cada passo ou censurada em cada linha.

A revolução nova que se pede não se fará com militares na rua, não se fará com manifestações, embora estas também façam parte da revolução em marcha, faz-se com a força do voto, que é a arma mais forte que temos, e com a participação política, nas associações, nos clubes, nas juntas de freguesia, representando o interesse de uma população, de um conjunto de trabalhadores ou mesmo de um grupo de pessoas movidas pela mesma paixão. É aí que se constrói e se revitaliza a democracia, é na responsabilização e na luta feita por cada um de nós que se faz amadurecer um país com uma revolução jovem, mas com uma história cheia de momentos de progresso e de conquistas importantes na história do mundo.

Sou português, com orgulho, e não alinho com saudosismos e nostalgias relativamente a um Estado de coisas que nunca trouxe nada de Novo. Hoje, dia da Liberdade, grito a plenos pulmões: 25 de Abril Sempre – Fascismo Nunca Mais!»

Pedro Coelho, editor de Portugal

«E ver-te descer a avenida. O andar ardente, o cabelo na brisa das manhãs da Estiva. Sete da manhã. Airoso… com o ar de quem acabara de sair da banheira mesmo vestido – chovia imenso.

Adivinhava, ao longe, o cheiro do véu de névoa que te cobria e que era nenhum. Estancaste a algum meio metro do sítio onde estava. Assustei-me. Então sorriste e correste para mim. E tocar-te e sentir-te e beijar-te e tocar-te outra e outra vez. Sentir que, afinal, após tanto tempo continuamos os mesmos, no mesmo lugar. “Acabou”, dizias. E cada lágrima que na cara me escorria nesse momento compensava a tristeza de uma eternidade escondida.
Queria mostrar-te tudo, mas já não sabia nada. E então o tempo passava e eu beijava-te (e podia fazê-lo!) e tocava-te e amava-te. Ao fim de tantos anos… Liberdade.»

Sara Recharte, editora de Internacional

«Se esta foi a verdadeira, ou melhor, a maior revolução da história portuguesa, tenho pena de não a ter presenciado. Apesar de muita gente jovem da época a caracterizar como um «anseio para a mudança» e afirmar que viviam numa «ilusão tão grande que nem sabíamos bem o que estávamos a fazer», eu consigo percepcionar as coisas de uma forma muito diferente.

Por muito que os jovens militares se limitassem a seguir ordens e desejassem algo que eles não conheciam… é óbvio que ninguém conhecia o que viria a seguir. Contudo, devem orgulhar-se das mudanças que provocaram; dos direitos que conquistaram; da opressão que derrubaram. Melhor do que isso, devem orgulhar-se da Revolução ter sido feita de Cravos e não de Sangue.

E é esse o ponto que, para mim, deve ser tido como exemplo. E, também, é aí que eu digo que gostaria de fazer parte dos milhares que saíram à rua no dia 25 de Abril de 74. A liberdade de expressão e de imprensa são direitos que, para mim, são invioláveis. E cada passo dado em função disso só nos deve encher a alma. O melhor de tudo é que o povo português conseguiu recuperá-los, após tantos anos de «boca fechada». E o mais bonito de se ver (e digo-o em função do que me contam e de filmes que vejo) foi a união que se sentiu nas ruas do país. Foi a força e o orgulho de ver o triunfo daqueles heróis, com cravos na ponta da espingarda e o sentimento de quem conquistou o mundo.

Hoje fala-se desse tempo com nostalgia. Hoje pede-se ao Otelo Saraiva de Carvalho, o estratega da Revolução, para fazer outro 25 de abril. E porquê? Precisamente porque todos ansiamos outra mudança, «mesmo que não saibamos como o vamos fazer». E todos precisamos dessa união que conseguiu, de facto, mudar mentalidades e mudar vidas. Para mim, o 25 de abril é isso mesmo: esperança.»

Marta Spínola Aguiar, editora de Atualidades

«Acreditar é a nossa essência. Quando a perdemos, o sentimento de impotência é incapacitante. O 25 de abril, foi, para mim, um dos conjuntos de momentos em que a atitude da crença inundou as multidões, em prol de dias em que se poderia viver sem restrições às liberdades primárias do ser humano e mais justos.

Caminhando por Lisboa, sentiremos ainda a energia e a emoção das pessoas que ali moldaram o nosso futuro? Ao descer as escadas finas em direção ao Rossio, teremos noção da força humana que pisou aqueles degraus? Sentiremos a eletricidade no ar, os ideais que moveram a turba?

Mais do que uma revolução, o 25 de abril foi um ato de crença. Acreditar em valores, objetivos, leis, capacidades; todos nós personificamos esta palavra. E naquele dia, as ruas encheram-se por ela e reformaram as velhas ideias e os atos condenáveis por elas trazidos.

Sobre o pós-25 de abril, as interpretações divergem e complexificam-se. E a palavra de que falo preza a sua simplicidade. Hoje, 37 anos depois, acredito que a democracia é justa e que acreditar ainda é possível. As pessoas são imperfeitas e o poder é ardiloso; e esperávamos mais e a revolta perante situações presentes é palpável.

Enquanto cidadãos, não podemos demitir-nos das nossas crenças, nem esquecer que não estamos sozinhos. A essência é-nos comum a todos. A meu ver, foi isso que nos uniu há 37 anos e que hoje também nos pode ajudar a continuar e a caminhar, por Lisboa ou por onde quisermos.

Nem sempre o pudemos fazer.»

Leonor Riso, redatora

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Impressões sobre a demissão de Sócrates

23 Mar

A demissão de José Sócrates, consequência do chumbo do quarto Pacto de Estabilidade e Crescimento, aconteceu ao início da noite de hoje, com o primeiro-ministro a devolver a palavra aos portugueses e a declarar a impossibilidade do seu governo depois da decisão da maioria parlamentar.

A equipa do Clique deixará, por aqui, as suas Impressões sobre o tema.

«Cavaco Silva ainda não aceitou a demissão de José Sócrates e só esta sexta-feira, após a reunião com todos os partidos, o deverá fazer.

A saída do primeiro-ministro, já anunciada e esperada, surpreende por tardia. A verdade é que o governo deu provas de resistência, aguentou a pressão dos mercados e de um Parlamento hostil, mas não conseguiu honrar as suas promessas aos portugueses.

É certo que a pressão da União Europeia, com uma visão dominada pelo PPE, e em reação aos ataques especulativos dos mercados, não permitia grande margem de manobra ao governo, pese embora os resultados positivos da execução orçamental, que não chegaram para acalmar o stress da especulação e levaram aos sucessivos PEC’s, que castigaram “os mesmos de sempre”, hoje insatisfeitos e a exigir mudança, nas ruas e nas suas vidas.

A precipitação do Governo com o PEC 4, a vontade adormecida do PSD chegar ao governo e as sondagens instáveis que nunca mais dão maioria absoluta a ninguém precipitaram-nos para a situação que hoje se verificou, resultado da teimosia de todos os partidos, da falta de tolerância do próprio Executivo e da ignorância, por todos, do interesse nacional.

Esperemos que hoje se abra caminho para uma nova mentalidade, para soluções válidas para os problemas do país e para um governo verdadeiramente patriótico e preocupado com os seus cidadãos. A solução pode vir do próprio PS, do PSD, ou de coligações múltiplas, a verdade é que não há quem se possa desligar de toda a situação em que o país está envolvido, uma culpa que não deve morrer solteira.

Se o FMI chegar por estes dias a sensibilidade não deverá ser o seu forte, mas os objetivos traçados para o défice terão de ser cumpridos e a saúde das Finanças portuguesas terá que continuar em tratamento. Resta saber quais as gorduras que serão retiradas na lipoaspiração do próximo Governo e esperar que seja o próprio povo a ter uma atitude proativa, uma postura corajosa e participação acesa na vida política do país, porque, citando José Sócrates, deve ser dada confiança à “vontade”, à “energia” e à “força dos portugueses”

Pedro Miguel Coelho, editor de Portugal

«Vim para casa ao telefone com uma amiga e em conversa questionávamos a possibilidade de José Sócrates se demitir. “Não, não acredito que ele faça isso”, garanti eu. Liguei a televisão à espera de não ver mais do que as últimas informações que me tinham chegado. Fi-lo na altura certa. A SIC anunciava a demissão de Sócrates. Imediatamente corri para ver as reacções nas redes sociais e as opiniões divergem: uns vêem na demissão de José Sócrates uma nova esperança, outros temem o futuro. Confesso que pertenci também ao conjunto de pessoas que ansiava por este dia. Mas agora que chegou estou ainda em choque e junto-me aos que enfrentam um grande receio do que aí vem.

Sempre ouvi dizer: “depois da tempestade, vem a bonança”, aqui espera-se que venha a mudança. Mas toda a mudança implica uma reflexão, uma atitude. Eu só vejo oposição. A oposição opõe-se entre ela mesma e opõe-se ao país. A constante campanha política que é feita pelos partidos da oposição não consegue gerar um diálogo em prol dos interesses comuns da nação, em prol do bem dos portugueses.

Pedro Passos Coelho afirmou no seu discurso após o anúncio da demissão que é preciso acabar com o “jogo das culpas e vitimação”. E que é urgente os agentes políticos assumirem as responsabilidades das suas decisões e não criar “um clima emocional que visa impor ao país soluções que não são as mais correctas.” Acrescenta que é preciso esquecer os lugares já conquistados e “olhar para todos nós para buscar as melhores soluções e melhores respostas”. Falou na urgência de uma “estratégia verdadeiramente nacional.” Um discurso que, na minha opinião, foi ao encontro daquilo que os portugueses querem ouvir.

É bom que cheguem até nós estas palavras de esperança, que seja dado um novo rumo, que se lute e construa uma nova mentalidade, um novo modelo social. São precisas novas soluções. Mais do que nunca o país precisa de nós e nós precisamos que o país (e a nossa representação na Assembleia da República) se una.»

Liliana Borges, editora-adjunta

«A demissão de José Sócrates apanhou poucos desprevenidos. Era relativamente fácil prever como ia acabar esta quarta-feira, 23 de março. Ainda assim, torna-se difícil saber o que pensar nesta altura sobre toda a situação a que Portugal chegou. Olhando para trás, é difícil dizer onde começou; para a frente, é impossível prever onde vai parar.

A verdade é que, agora, Portugal está ainda mais desgovernado. Cabe agora ao Presidente da República decidir o que fazer e são várias as opções que tem ao seu dispor. Em primeiro lugar, a consulta dos partidos com acento parlamentar é inevitável. Depois, Cavaco Silva poderá optar por convocar eleições, se não for encontrada uma solução no atual quadro parlamentar. Porém, há ainda outra hipótese: a formação de um governo de iniciativa presidencial, sem recorrer a eleições. Para isso, seria necessário que os partidos representado na AR conseguissem entender-se de modo a formar um governo maioritário (e, só assim, uma alternativa viável).

A formação de um governo de iniciativa presidencial seria a que pouparia mais dinheiro ao país e a que teria um efeito mais imediato, já que não seria necessário esperar por eleições. Por outro lado, seria também uma forma de responsabilizar uma maior faixa política pelas decisões que viessem a ser tomadas. O grande problema desta solução reside, simplesmente, num ponto: que partidos formariam este governo? A hipótese mais lógica seria uma coligação PS+PSD. Contudo, a liderança do executivo ficaria novamente nas mãos dos socialistas. Além disso, Sócrates e Passos Coelho já demonstraram que não trabalharão juntos o que impossibilita esta solução, já que Sócrates garante que se vai recandidatar, em caso de eleições. Excluindo esta hipótese, ter-se-ia que recorrer aos partidos à esquerda do PS. Mas PCP e BE não entrariam num governo que ajudaram a derrubar. Assim sendo, restaria a hipótese de um solução PSD+CDS+PCP ou BE. O BE parece a milhas de qualquer coligação com a direita, por opção de ambos os lados. Restaria o PCP. Apesar de toda a diferença ideológica entre PSD/CDS e PCP, não me parece uma hipótese tão implausível quanto isso. Pelo menos, de todas, seria a que para mim faria mais sentido.

Mas falar de cenários é sempre fácil. Normalmente, o difícil é acertar. Ainda assim um governo de salvação nacional, a três (como PPC disse que queria) e evitando eleições seria a solução mais sensata no atual contexto político e económico. Para isso, seria preciso a esquerda e a direita engolirem muitos sapos. Mas, a bem do país, não valeria a pena?

PS – Uma palavra para o comportamento deplorável de José Sócrates, Teixeira dos Santos e Pedro Silva Pereira. Num debate que definia o futuro da nação, não se percebe como é que o PM abandona a sala ao fim de alguns minutos; como é que o Ministro das Finanças abandona a sala numa altura em que se ouvi a intervenção de fundo do maior partido da oposição; e como é que o Ministro da Presidência, chegando tarde, abandona a sala antes das votações. Ficou hoje demonstrado, na AR, de que é que este governo é, afinal feito. Manuela Ferreira Leite, no seu discurso, destacou que Sócrates só conseguiu iludir os portugueses durante um certo tempo, com as suas promessas, até ser hora de prestar contas a Bruxelas. Hoje, se ilusões existiam, ficaram desfeitas. Mais uma vez, Sócrates sai muito mal da fotografia. Mais uma vez, Manuela Ferreira Leite sabe o que diz. É pena que muitos tentem evitar não ver ambos.»

João Vargas, diretor de Conteúdos

«Visto que Portugal já está afundado numa crise económica e, agora, numa crise política, não sei até que ponto a demissão de Sócrates terá sido a melhor opção a tomar. Segundo ele, «tomei a decisão correcta», mas essa decisão talvez pudesse ter sido adiada ou, melhor ainda, repensada. A grande questão é: e agora?»

Marta Spínola Aguiar, redatora

«Eis-nos chegados ao final de uma situação incomportável. E eis que, chegados ao ponto em que a corda rebentou, as perspetivas são do precipício e não da melhoria. Ter um Governo é melhor que não ter um Governo. Foi a machadada final, perpetrada por partidos com uma agenda política duvidosa e oportunista, na decrescente confiança dos investidores em Portugal. Não se viaja em barcos sem homem do leme, da mesma forma que não se investe num país que não se governa a si próprio; e quanto menos dinheiro vier de fora, cada vez menos teremos por cá, já que não nos podemos esquecer que ele sai…mas não volta a entrar. Nunca fui apoiante de Sócrates, nunca gostei dele. Mas a verdade é que não sei até que ponto não era preferível ele continuar como Primeiro-Ministro do que não termos Primeiro-Ministro nenhum.»

Gonçalo André Simões, diretor de Estrutura e Finanças

«A demissão de José Sócrates parecia inevitável, daí que tal não tenha surpreendido. Surpreendente, ou não, será o que ainda está para vir.

O Primeiro-Ministro continuou com o mesmo discurso: tomou o seu lugar de vítima, naquela que considerou uma coligação negativa da oposição para derrubar o governo, e apontou o dedo à oposição, em especial o PSD, pela crise política e pela falta de apresentação de alternativas.

No entanto, José Sócrates terá de se queixar de si mesmo, ou pelos menos, envergonhar-se das suas ações mais recentes. Saltou várias formalidades que fazem da democracia o que ela é: um sistema transparente. Jogou demais nos bastidores, promovendo PEC’s à revelia daqueles que o deviam auxiliar para bem do país, e, deste modo, não seria de esperar outro resultado se não aquele que assistimos.

É verdade que o PSD, principal partido da oposição, não apresentou alternativas ao PEC 4, mas a realidade é que seria difícil encontrar alternativas às medidas de austeridade propostas pelo governo. Só se poderia mudar o caminho, mas o destino seria o mesmo: cortes na despesa (prestações sociais e salários) e aumento das receitas (impostos).

Assim, o partido de Passos Coelho fez o seu papel no jogo político. Derrubou o executivo de Sócrates, preparou o caminho para o seu governo, de maioria absoluta ou de coligação, onde terá de preparar também um pacote de austeridade, quer por ação do FMI, quer para evitar este, correspondendo aos desejos do PPE, do qual faz parte, e aos quais Sócrates ia ao encontro.

Apesar de tudo isto, a minha grande expetativa está no papel que os três partidos menos representados na Assembleia terão na legislatura que se avizinha. Sem uma maioria absoluta para um único partido formar governo, o papel destes ganha enorme relevo, nomeadamente pela crescente incompatibilidade entre Sócrates e Passos, e assim a impossibilidade de um governo de bloco central.»

Ricardo Soares, editor de Atualidades

E foi desta. A polémica em torno dos sucessivos planos de austeridade levados a cabo pelo executivo de José Sócrates atingiu o seu apogeu. Hoje, todos os partidos da oposição chumbaram o PEC IV e José Sócrates considerou não ter condições para liderar. E depois de sucessivas ameaças, foi desta que se demitiu.

Embora a indignação da bancada socialista, do Governo e do primeiro-ministro demissionário possa ter tocado muitos portugueses, o discurso de demissão de Sócrates a nada mais soou do que a preparação de campanha para as eleições de julho. Portugal não conhece e não confia no projeto de Pedro Passos Coelho e do PSD e a confiança eleitoral não se constrói em quatro meses. Portanto, a deserção de José Sócrates é a forma que este encontrou de, havendo eleições antecipadas, em julho regressar para vencer.

Despedimentos, falência de empresas, cortes e congelamento de salários e de pensões, aumento dos custos com a Saúde… Isto é um Plano de Estabilidade e Crescimento (PEC). As condições de vida de crianças, estudantes, trabalhadores, doentes e pensionistas agravam-se cada vez mais. Nada foi bom. E tudo em nome de um objetivo maior: recuperar a confiança dos mercados e liquidar a dívida soberana. Sem recorrer a ajuda externa.

Recorrer a ajuda externa e subjugar-se a essa ajuda foi aquilo que José Sócrates e os seus ministros fizeram até ao dia de hoje. O país está absolutamente dependente das motivações da Alemanha e da França e os planos de austeridade nada resolveram. 13 mil milhões de euros é quanto o Governo socialista quer obrigar os portugueses a pagar em três anos. E obrigou a Assembleia da República a optar entre as suas políticas ou o caos.

E o caos socrático é o Fundo Monetário Internacional (FMI) – que cegamente cortará em Saúde, no Ensino, em pensões, em salários, tudo em nome da liquidação da dívida portuguesa e de uma nova cara para apresentar aos mercados. Em que é que tudo isto difere dos PECs? Em nada. Segundo o PS, a alternativa ao caos é… o caos!

A Assembleia da República chumbou a quarta temporada da saga PEC. José Sócrates demitiu-se do seu cargo de primeiro-ministro, mas esta não será uma saída definitiva. Por agora, há que agir bem e depressa.

Sara Recharte, editora de Internacional

Impressões da entrevista a Sócrates

15 Mar

A entrevista a José Sócrates na SIC ocorreu num período de eminente crise política, fruto de um conjunto de acontecimento em catadupa: o Primeiro Ministro anunciou um pacote de novas medidas de austeridade em Bruxelas, mas só passados três dias fez uma comunicação ao país. Pelo meio inúmeras reações, entre elas a do PSD, com o partido de Passos Coelho a rejeitar este novo PEC e a ameaçar inviabilizá-lo.

Sobre este e outros temas, como a crescente manifestação popular, com a Geração à Rasca e a greve das transportadores em plano de fundo, Sócrates respondeu Às perguntas da jornalista Ana Lourenço, sobre essas respostas aqui ficam as Impressões de alguns elementos da equipa Clique.


«Com respostas que, uma vez mais e não supreendendo ninguém, não responderam às muitas perguntas dos portugueses, José Sócrates centrou o seu discurso numa crítica à oposição, com (praticamente) exclusivas referências ao Partido Social Democrata, que acusa de rejeitar negociações. Provocou os restantes partidos: «Se têm medidas melhores porque não as apresentam?». Talvez elas sejam apresentadas Senhor Ministro, não são é ouvidas.

Foi discutida também a existência ou não de uma crise política: o Primeiro-Ministro esclareceu que «em primeiro lugar, queria que os portugueses soubessem que não estou ligado ao poder (…) mas ao cumprimento do dever, que passa por evitar uma crise política».  Evitar? A crise política não está, apenas, na aprovação ou reprovação do PEC, mas sim na confiança que os cidadãos têm (ou não) no seu Governo e é a isto que o  Srº Primeiro-Ministro não atenta. Sobre a manifestação de sábado pouco foi falado. Vai cair rápido no esquecimento. E, infelizmente, não basta uma manifestação «calma e pacífica» para que se oiça todo um país. Mas já é um começo mostrar descontentamento e lutar contra a apatia e abstenção cívica e política.  Agora resta saber quanto tempo mais aguentará o «povo a gritar», limitando-se a ouvir o seu eco, sem nenhuma resposta.»

Liliana Borges, editora-adjunta


«Mais uma vez, José Sócrates não conseguiu surpreender pela positiva. Pelo menos a mim. O seu discurso (sim, não considero que tenha realmente havido uma entrevista e a Ana Lourenço falhou nesse sentido) foi pobre e uma mera repetição daquilo que tinha falado ontem, na conferência de imprensa marcada há última da hora.

Confesso que estava curiosa pois havia uma série de cartas em cima da mesa que eram fundamentais debater: a manifestação, o caso dos camionistas, o estado do país… mas o Primeiro-Ministro parece que, cada vez mais, se recusa a aceitar os verdadeiros problemas e a encará-los como tal. Procura, então, comparar Portugal com outros países da Europa, continua a pedir alternativas de medidas e afasta a ideia de crise política que está cada vez mais à vista. E nós, sempre que tentamos obter mais esclarecimentos, ficamos assim… na mesma e entalados nesta confusão que se instalou no país. A minha grande questão é: até quando?»

Marta Spínola Aguiar, redatora


«José Sócrates teve um discurso previsível, bem ao seu estilo. Referiu que compreendia a angústia daqueles que se manifestavam, mas não disse nada que os anime. Falou muito de crise política, mas quase sempre na terceira pessoa, e quando o fez na primeira foi para reafirmar que tudo faria para evitar essa crise. Mas a verdade é que elaborou mais um PEC, este às escondidas do país e para os senhores de Bruxelas.

Foi uma entrevista pobre, sem que aquilo que foi dito acrescente muito ao que já foi ruminado. No entanto, entre o discurso de vitimização, que atira a culpa para cima dos outros (PSD em especial), e a defesa com o argumento de mostrar aos mercados e à Europa a vontade de Portugal em executar o orçamento – mais do mesmo – o Primeiro-Ministro realçou dois pontos importantes: os prejuízos que o país teria com a vinda do FMI e a falta de alternativas no debate político.

É certo que o discurso é pobre, a atuação política também não é muito melhor, mas infelizmente as alternativas não trazem uma luz ao fundo de túnel, pelo menos no imediato.»

Ricardo Soares, editor de Atualidades

Impressões Clique

14 Mar

A equipa de reportagem do Clique na manifestação desta tarde em Lisboa deixa aqui as suas impressões pessoais sobre o protesto.

«Os números pouco dizem do que se viveu esta tarde na Avenida da Liberdade e no Rossio. As fotografias, os vídeos, os áudios pouco reproduzem o que se sentiu. Pouco interessam os milhares que se diz que lá estiveram, porque o que importa realmente foi o que lá se fez.

Esta manhã, no editorial deste fim de semana, escrevia que tinha dúvidas sobre o sucesso do protesto e sobre a sua razão de ser. À tarde, em plena avenida, todos pudemos perceber que quem ali estava sabia bem ao que ia. Não foi, como pensei que pudesse ser, apenas mais um protesto. Não foi um protesto violento, mas foi um protesto que se fez ouvir.

Na manifestação desta tarde juntaram-se pessoas com as mais diversas sensibilidades políticas, unidas por um objetivo comum. Não se apresentaram alternativas, é certo. Apenas se disse “basta!” e não se sabe bem a quê. Mas a verdadeira força desta manifestação está na demonstração de que os portugueses estão finalmente atentos.

Ainda não há reações oficiais dos governantes. Talvez tardem, talvez nunca cheguem. Mas esperemos, todos os portugueses, que vejam com olhos de ver o que se passou hoje um pouco por todo o país.

Mais ou menos de acordo com a manifestação desta tarde, nenhum de nós pode ficar indiferente à quantidade de pessoas que saiu à rua. Mais que as palavras, as imagens falam por si.»

João M. Vargas, Diretor de Conteúdos


«Eram 15h30m da tarde quando hoje subi as escadas da estação do Metro do Marquês. Esperava ver muita gente precária e não precária. Velha e nova. Da esquerda e da direita. Mas o mar à rasca que encontrei superou todas as minhas estimativas. Lisboa estava contaminada por um espírito de revolução, de esperança, de mudar para melhor. Os jovens levantaram-se para marchar avenida abaixo. Foi muito comovente ver, passados 37 anos, Portugal a lutar, de novo, por uma vida melhor.

Porém, toda esta emoção que me invadiu, rápido se desvaneceu também. Éramos muitos e fazíamos muito barulho. Os recibos verdes, os estágios não remunerados, os contratos a prazo e o desemprego em geral eram os alvos principais. No entanto, esta mobilização em Lisboa, Porto Faro, Braga, Guimarães, Leiria, Viseu, Ponta Delgada e outras cidades não chegou para fazer o Governo parar de rir de mais uma brincadeira de miúdos.

Os Homens da Luta protagonizaram, numa carrinha de caixa aberta, todo este protesto. E cedo este se tranformou numa festa. De repente, os jovens já não tinham frustrações e tudo era alegria. E, consequência disso, o protesto perdeu todo o seu fulgor. Os manifestantes dispersavam e sensação de que estava num mero convívio tomou conta de mim. A luta por direito ao trabalho justo não é a luta da alegria.

Por momentos, pensei que algum de nós tivesse a coragem de se levantar e dizer: «Não saímos daqui enquanto não mudar este regime de (des)emprego que não nos permite andar para a frente!». Que fossem semanas, que fossem meses, pois não é preciso partir montras e incendiar carros para se ser ouvido. Porque um dia não chega. E um dia de festa ainda menos. Um dia em que, decerto, Lisboa deveria ter sido mais francesa.»

Sara Recharte, editora de Internacional


«Antes da hora marcada já os manifestantes se juntavam no Marquês de Pombal, ultimando os preparativos para darem voz à “geração à rasca”. Mais ou menos certos do que por lá faziam, todos acreditavam que a Avenida da Liberdade seria percorrida por milhares de pessoas em busca de um futuro melhor.

E foi, de facto, o que aconteceu. Os Homens da Luta deram o mote e muitos se seguiram, avenida abaixo, com cartazes, faixas, megafones ou simples vozes. A meu ver foi um protesto apartidário, tal como se apresentou, mas acima de tudo uma forma de o cidadão comum poder fazer política.

Ao lado dos que fizeram da manifestação um passeio de sábado à tarde (e foram poucos, pelas impressões que recolhi) estavam os que tinham lido o manifesto, os finalistas de muitas e variadas licenciaturas, os jovens casais com crianças ao colo e os membros de grupos organizados com fins convergentes.

Por me ter surpreendido, não posso deixar de destacar a quantidade de pessoas “menos jovens” que se juntaram ao apelo. Uns solidários com esta geração intermitente, outros preocupados com o futuro dos seus, mas todos descrentes em relação à atual situação do país. Falavam do 25 de Abril, do maio de 68 e até da Revolução Francesa para lembrarem datas que outrora significavam liberdade e progresso e que hoje ocupam o lugar de memórias distantes.

Mudanças? Não creio que a curto prazo se registem muitas. A crise veio para ficar e a classe política, ao invés de fazer avançar o país, parece mais preocupada em perpetuar guerrilhas partidárias. Fica, pelo menos, a certeza de que a passividade lusitana começa a dar lugar à intervenção cívica. Consciente e crítica, assim se espera.»

Joana Margarida Bento, editora Grande Reportagem

«Uma música deu o mote, um evento no Facebook a logística e os descontentes a presença. Do Marquês ao Rossio, milhares de pessoas fizeram-se ouvir. Tantas quanto as vozes, as reivindicações: as suas, a dos seus ou simplesmente a de todos.

Não foi o protesto de uma só geração, a população saiu à rua.»

Rita Sousa Vieira, fotojornalista

«Desde que comecei o meu curso superior que tenho olhado para as manifestações com uma certa descrença; não porque algumas tenham más propósitos, não porque os objectivos sejam maus mas, simplesmente, porque as manifestações me pareceram algo cada vez mais fraco e um recurso cada vez mais comprometido. Desde que vim para a universidade que há manifestações estudantis quase todos os meses. Para algumas, alunos da minha faculdade pedem até o apoio e o comprometimento com manifestações ainda não convocadas oficialmente ou, até, com reivindicações. E se eu tinha uma boa impressão do poder do povo ao sair à rua, ao ver manifestações estudantis com reivindicações utópicas para a actual conjuntura…desacreditei. E isso só piorou quando vi pessoas que queriam “manifs” só pelo prazer de estar na rua, ou sem saberem porque estavam ali ou (a gota de água) porque não tinham querido ir às aulas. Uma manifestação verdadeira não é um passeio de domingo. Uma manifestação verdadeira não é um local para beber vinho ou cerveja ou fazer piqueniques ambulantes; é para, mesmo não apresentando soluções, apontar as falhas pungentes seja de um país, de um sistema de ensino ou de um Governo.

Foi com esse espírito que fui para a manifestação, sou sincero. Doía-me a cabeça e não me sentia muito bem nesse início de tarde. E a desconfiança que sentia em relação ao que se ia passar não ajudava: certo de que iria lá encontrar gente à toa, sem saber ao que vinha, gente que ia só porque não tinha planos para a tarde, gente que iria protestar por algo que nem sabia bem o que era. E como mau prenúncio, não me saía da cabeça a música Uniform, de Bloc Party, a tal que diz: “Eu sou um mártir, só preciso de uma causa (…) eu sou um crente, só preciso de uma causa”. E eu via essas pessoas lá. Sem nada porque lutar, manifestando-se só porque sim, a fazerem barulho sem acreditar verdadeiramente, sem estarem “à rasca”, só porque sim ou só porque nada de melhor tinham para fazer. Fui pela Clique e fui contrariado, mas isso mudou quando cheguei lá. Rapidamente me apercebi que não eram as pessoas que eu temia que estavam lá, não eram os “mercenários” das manifestações, que se vendiam a qualquer ideal desde que pudessem fazer barulho. Não. Eram as pessoas que estavam “à rasca”, que conheciam quem estivesse, que reconheciam o problema e algo queriam fazer para mudar alguma coisa. Por pequena que fosse a mudança. É certo que os Homens da Luta ajudaram a mobilizar as pessoas para um cântico único, sobretudo. Fizeram isso comigo, levaram-me a perder o meu cepticismo em relação ao que estava a acontecer. Porque me identifiquei com o que ouvi, como “é preciso correr com os políticos profissionais e pôr profissionais na política”. Não me arrependo de ter ido. De quase ter perdido máquina e objectiva, de me ter aleijado no meio da maré de pessoas. Não devia ter desconfiado, pelo menos desta vez; é que é preciso muito para pôr, só em Lisboa, 300.000 pessoas a gritar em uníssono, a defender algo de bom e a pôr as diferenças de lado por um dia. Não é fácil mas conseguiu-se. Só espero que seja um sinal que, por fim, se comecem a abrir os olhos e que a massa acrítica que se queixa nas costas deixe de o ser; que seja um sinal que, por fim, todos nós estejamos fartos de que nos deitem areia para os olhos para não vermos o quão (cada vez mais) negra é a realidade.»

Gonçalo Simões, fotojornalista