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Dalaiama: a arte da intervenção (parte II)

12 Mar
Uma reportagem de Joana Margarida Bento, Patrícia Carmo e Leonor Riso.

O paradoxo da visibilidade

Na conhecida rede social Facebook multiplicam-se as publicações no perfil de Dalaiama: trabalhos expostos no seu blogue, outros blogues que visita, manifestações e textos, todos ligados à street art e à contestação política. A atividade e intervenção de Dalaiama estendem-se também ao mundo virtual, onde apesar de manter o anonimato, o artista é presença assídua e torna visível o seu trabalho. Sobre esta questão, Dalaiama salienta que «O importante é divulgar a mensagem, fazê-la chegar ao maior número possível de pessoas. Há o público das ruas, o público da internet e o público de ambos ao mesmo tempo. Seja como for, muita gente só teve acesso ao trabalho produzido pelo Dalaiama através da internet, passando a valorizá-lo a partir desse meio».

Dalaiama conta muitas histórias sobre os seguidores que conheceu a partir dainternet, desde simples cumprimentos e comentários de pessoas que gostam do trabalho a pedidos de pinturas na parede do quarto, convites para workshops ou conselhos sobre as técnicas que utiliza. O contacto com o público agrada-lhe embora o anonimato seja inevitável, «a arte urbana, nos moldes em que oDalaiama a pratica, acontece na fronteira da legalidade. A segunda razão para haver anonimato é que é interessante existir esse diálogo entre anónimos, o autor e o fruidor, pessoas que não se conhecem mas que olham juntas para a mesma parede em momentos diferentes e trocam cumplicidades.»

A divulgação que a plataforma on-line veio permitir não passa despercebida. «O blogue tinha cerca de 20 visitantes por dia, mas desde que aderi ao facebook, há cerca de sete meses, a média tem ultrapassado os 30 e parece que continua a subir. Quase todos os dias recebo mensagens.»

Confrontado com o potencial fim do Dalaiama, o artista mostra-se despreocupado e consciente de que tudo tem o seu o tempo. Perante a atual conjuntura, duvida do futuro do país mas diz estar convicto em relação ao seu. «Se sair, levo comigo as tintas e a certeza de que enquanto houver cor no planeta e sangue nas artérias eu vou estar a agitar.»

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Os que veem sem ser vistos

A arte de Dalaiama, exposta quer nas “ruas virtuais” quer nas paredes das cidades, soma já inúmeros seguidores. Para Bruno, um dos apreciadores, a arte alternativa define-se por criticar «o sistema e surge onde vive a população mais pobre e desprezada que tem uma cultura e arte próprias que refletem tudo isso». Na sua opinião, o que se destaca em Dalaiama «é a mensagem crítica e a ousadia na hora de escolher os locais onde pinta». Em tom definitivo, sentencia que «enquanto houver razões para denunciar injustiças, haverá razões para pintar paredes».

EUsboço, colaboradora de Dalaiama na Crew L, declara que o desejo partilhado era o de «uma plataforma de intervenção que pudesse contribuir para a mudança de mentalidades e dar visibilidade às novas formas de abordagem na arte», promovendo uma libertação das “trincheiras” e dos “constrangimentos” que marcam o atual panorama artístico. Quando questionada sobre o futuro da arte urbana, diz esperar que esta ganhe o «estatuto de melhoramento das cidades para deixar de ser considerada uma arte ilegal e os artistas terem as condições e o respeito necessário para produzirem livremente». Para EUsboço, a consciência social de Dalaiama origina «composições que representam autênticos manifestos». Como artista, acarinha a ideia de que «todos os lugares podem ser arte, todas as ruas podem ser um museu ou uma galeria» e que um dia será mais do que isso: uma realidade que preencherá as cidades de cor e, acima de tudo, de mensagem.

Regressar a Dalaiama: a arte da intervenção (parte I)

+++Este artigo foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.+++

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