Impressões sobre a Revolução de Abril

25 Apr

«Há precisamente 36 anos, Portugal ia hoje a votos para a Assembleia Constituinte. Há precisamente 35 anos, Portugal ia a votos para as primeiros eleições legislativas livres em muitos anos. Hoje, Portugal está sem Governo e, pelo menos por agora, ingovernável.

A Revolução de abril foi um marco na História de Portugal. Foi um momento de mudança, tanto quanto o é o fim de uma ditadura. Com o 25 de abril, acabaram as perseguições, acabaram os presos políticos, acabou a guerra, acabaram os racionamentos de alimentos, acabou a censura. Acabaram mais de quarenta anos em que o Estado, que mais não era que um só homem, controlava e determinava o dia-a-dia de cada português.

Com o 25 de abril, Portugal abriu-se ao mundo e esperavam-se mudanças radicais. Entrámos na CEE, modernizá-mo-nos com os dinheiros europeus, criámos sistemas de saúde, de segurança social, de educação, de cultura, para todos. Portugal tornou-se um país aberto e em competição com os gigantes europeus na busca por um papel relevante num mundo global.

Mas hoje, 37 anos depois do último dia que originou um feriado nacional, concluímos que Portugal não cumpriu o que se esperava dele. Olhando para o nosso caso, ocorre a comparação com um jogador da bola, uma daquelas promessas que se podia tornar num dos melhores do mundo; teve a fama, mas nunca chegou a ter o proveito. Com Portugal, a história foi idêntica: tinha tudo para ter um grande desenvolvimento mas, no fim, os vícios e o “fácil” (tal como com os jogadores da bola) acabaram por levá-lo às ruas da amargura.

Portugal é hoje um país economicamente do avesso. Após a revolução, os portugueses nunca conseguiram perceber o significado de palavras como “democracia”, “liberdade” ou “igualdade”. Exigiu-se o fim de um ditador que controlava a vida de cada um, para se tentar impôr um Estado que controlasse a vida de todos. Quis-se liberdade para pensar, dizer,  fazer, atentar, criticar tudo e todos, a começar pelo Estado, mas quando as dificuldades surgem, é ao Estado que se volta.

O Portugal de hoje é um adolescente mal-comportado que vê no Estado um pai que não respeita. Quando precisa de dinheiro, o “pai” lá tem que estar para o cobrir, mas quando chega a hora de retribuir, os impostos são para os “outros” pagarem. Portugal é uma criança que ansiava por poder falar, mas assim que aprendeu só consegue dizer palavrões.  Portugal é um jovem irresponsável e arruaceiro, que se porta mal perante o seu “pai-Estado”, numa relação amor-ódio em que diz que não o quer mas não consegue viver sem ele. É um adolescente que, em casa, se porta mal mas que, quando sai à noite com os seus amigos e vizinhos, vai sempre bem apresentado, como se a sua fosse a mais normal das famílias. É, até, um adolescente que faz festas em casa para os amigos, autênticos sucessos sociais, que tentam fazê-lo esquecer a morte lenta do seu “pai”.

Com Salazar e Caetano morreu uma grande parte negra da História portuguesa. Mas a ânsia de nos livrarmos do “mal” não nos permitiu ver que tínhamos algo a aprender com as quatro décadas de ditadura e não nos deixou manter o que havia de bom. Perdeu-se o sentimento de nacionalismo que faz falta a uma nação, perderam-se a ordem e o respeito pelos outros e pelas instituições, perdeu-se grande parte da liberdade por troca com uma libertinagem bacoca, perdeu-se o sentido de responsabilidade. Ganhámos um país livre. Agora, 37 anos depois, está na hora de aprendermos o que significa verdadeiramente “liberdade”. Dia 5 de junho, é a data do exame.»

João Vargas, diretor de Conteúdos

«25 de Abril. Se eu tivesse competência para o fazer, elegeria este como o dia mais emblemático da história portuguesa. O dia em que a coragem se sobrepôs ao calculismo, o dia em que fomos, como sempre, pacíficos mas vitoriosos.

Portugal é hoje um país manietado, vítima de uma transição de regime pouco eficaz e até mesmo de uma má integração europeia. O pioneirismo e espírito de conquista que anteriormente fizeram o nosso país a mais importante potência mundial, foram-se perdendo, também muito por culpa da ditadura, que convenceu as pessoas de que deviam estar quietas, ser tementes a Deus e esperar pelos desígnios d’Ele neste cantinho de humildade, paz e sol dourado.

Na verdade, 37 anos depois do final da ditadura, muito continua por fazer, porque a revolução cultural continua por concretizar, porque continuamos, como eu dizia há uns dias, com brandos costumes e com a tacanhez que o salazarismo semeou em nós. E ele continua por aí. A cada esquina, escondido em cada resquício de pequenez, de conservadorismo bacoco, do medo de arriscar. As más línguas, o comentário de café, à boca fechada, em surdina, no conforto da mesa e à distância do televisor, mais não são do que uma má herança desse tempo, em que não nos era dada a hipótese de agir.

Mas essa falta de vontade de agir é mesmo o que move aqueles que pedem o regresso de Salazar ou que dizem cobras e lagartos da democracia que temos sem propor qualquer alternativa, e se pedem uma ditadura para “pôr tudo no sítio” é basicamente porque não têm coragem de agir, são comodistas e não são capazes de tomar para si a responsabilidade da mudança.

Há 37 anos, eles não tiveram medo do que podia acontecer e puseram a sua liberdade e vida em risco para que os portugueses pudessem tê-las. Liberdade, com toda a responsabilidade que ela traz e vida, a sério, por completo, sem ser orientada por uma mão invisível, sem ser vigiada a cada passo ou censurada em cada linha.

A revolução nova que se pede não se fará com militares na rua, não se fará com manifestações, embora estas também façam parte da revolução em marcha, faz-se com a força do voto, que é a arma mais forte que temos, e com a participação política, nas associações, nos clubes, nas juntas de freguesia, representando o interesse de uma população, de um conjunto de trabalhadores ou mesmo de um grupo de pessoas movidas pela mesma paixão. É aí que se constrói e se revitaliza a democracia, é na responsabilização e na luta feita por cada um de nós que se faz amadurecer um país com uma revolução jovem, mas com uma história cheia de momentos de progresso e de conquistas importantes na história do mundo.

Sou português, com orgulho, e não alinho com saudosismos e nostalgias relativamente a um Estado de coisas que nunca trouxe nada de Novo. Hoje, dia da Liberdade, grito a plenos pulmões: 25 de Abril Sempre – Fascismo Nunca Mais!»

Pedro Coelho, editor de Portugal

«E ver-te descer a avenida. O andar ardente, o cabelo na brisa das manhãs da Estiva. Sete da manhã. Airoso… com o ar de quem acabara de sair da banheira mesmo vestido – chovia imenso.

Adivinhava, ao longe, o cheiro do véu de névoa que te cobria e que era nenhum. Estancaste a algum meio metro do sítio onde estava. Assustei-me. Então sorriste e correste para mim. E tocar-te e sentir-te e beijar-te e tocar-te outra e outra vez. Sentir que, afinal, após tanto tempo continuamos os mesmos, no mesmo lugar. “Acabou”, dizias. E cada lágrima que na cara me escorria nesse momento compensava a tristeza de uma eternidade escondida.
Queria mostrar-te tudo, mas já não sabia nada. E então o tempo passava e eu beijava-te (e podia fazê-lo!) e tocava-te e amava-te. Ao fim de tantos anos… Liberdade.»

Sara Recharte, editora de Internacional

«Se esta foi a verdadeira, ou melhor, a maior revolução da história portuguesa, tenho pena de não a ter presenciado. Apesar de muita gente jovem da época a caracterizar como um «anseio para a mudança» e afirmar que viviam numa «ilusão tão grande que nem sabíamos bem o que estávamos a fazer», eu consigo percepcionar as coisas de uma forma muito diferente.

Por muito que os jovens militares se limitassem a seguir ordens e desejassem algo que eles não conheciam… é óbvio que ninguém conhecia o que viria a seguir. Contudo, devem orgulhar-se das mudanças que provocaram; dos direitos que conquistaram; da opressão que derrubaram. Melhor do que isso, devem orgulhar-se da Revolução ter sido feita de Cravos e não de Sangue.

E é esse o ponto que, para mim, deve ser tido como exemplo. E, também, é aí que eu digo que gostaria de fazer parte dos milhares que saíram à rua no dia 25 de Abril de 74. A liberdade de expressão e de imprensa são direitos que, para mim, são invioláveis. E cada passo dado em função disso só nos deve encher a alma. O melhor de tudo é que o povo português conseguiu recuperá-los, após tantos anos de «boca fechada». E o mais bonito de se ver (e digo-o em função do que me contam e de filmes que vejo) foi a união que se sentiu nas ruas do país. Foi a força e o orgulho de ver o triunfo daqueles heróis, com cravos na ponta da espingarda e o sentimento de quem conquistou o mundo.

Hoje fala-se desse tempo com nostalgia. Hoje pede-se ao Otelo Saraiva de Carvalho, o estratega da Revolução, para fazer outro 25 de abril. E porquê? Precisamente porque todos ansiamos outra mudança, «mesmo que não saibamos como o vamos fazer». E todos precisamos dessa união que conseguiu, de facto, mudar mentalidades e mudar vidas. Para mim, o 25 de abril é isso mesmo: esperança.»

Marta Spínola Aguiar, editora de Atualidades

«Acreditar é a nossa essência. Quando a perdemos, o sentimento de impotência é incapacitante. O 25 de abril, foi, para mim, um dos conjuntos de momentos em que a atitude da crença inundou as multidões, em prol de dias em que se poderia viver sem restrições às liberdades primárias do ser humano e mais justos.

Caminhando por Lisboa, sentiremos ainda a energia e a emoção das pessoas que ali moldaram o nosso futuro? Ao descer as escadas finas em direção ao Rossio, teremos noção da força humana que pisou aqueles degraus? Sentiremos a eletricidade no ar, os ideais que moveram a turba?

Mais do que uma revolução, o 25 de abril foi um ato de crença. Acreditar em valores, objetivos, leis, capacidades; todos nós personificamos esta palavra. E naquele dia, as ruas encheram-se por ela e reformaram as velhas ideias e os atos condenáveis por elas trazidos.

Sobre o pós-25 de abril, as interpretações divergem e complexificam-se. E a palavra de que falo preza a sua simplicidade. Hoje, 37 anos depois, acredito que a democracia é justa e que acreditar ainda é possível. As pessoas são imperfeitas e o poder é ardiloso; e esperávamos mais e a revolta perante situações presentes é palpável.

Enquanto cidadãos, não podemos demitir-nos das nossas crenças, nem esquecer que não estamos sozinhos. A essência é-nos comum a todos. A meu ver, foi isso que nos uniu há 37 anos e que hoje também nos pode ajudar a continuar e a caminhar, por Lisboa ou por onde quisermos.

Nem sempre o pudemos fazer.»

Leonor Riso, redatora

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