A faceta espiritual do Manifesto (parte II)

20 Mar

O Clique quis saber mais e Valdjiu fala-nos sobre ideologia  que inspira e faz mover os Blasted. Levanta ainda um pouco o véu do filme que pretende lançar e no qual já se encontra a trabalhar há dois anos. Também não podiria passar ao lado a sua participação na manifestação de dia 12 de março. Para além de tudo isto, falámos do próximo trabalho, no qual já se encontram a trabalhar.

O que é para ti o amor?

É interessante porque essa pergunta que me fizeste pouca gente faz. Eu ando a fazer um filme há dois anos que tenciono lançar agora. Vai ser mais do que um filme. Vai-se tornar num movimento social. Documenta uma viagem onde eu ando com alguns amigos pela Índia, América Central e partes da Europa perguntando às pessoas o que é o amor. Subentende-se que o amor é uma coisa e depois fala-se pouco dela porque parece que o medo está mais na moda. No entanto, para mim, o amor surge da terra através da água. A água é um ser. É dos seres mais complexos que há no universo devido à sua capacidade de permanência de estados em matéria diferentes. A água traz vida, desperta essa energia amorosa que é uma energia que se quer experienciar. Utilizando um exemplo linear, o percurso vital é uma linha que se divide em dois e quando atinge a maturidade volta à unidade. Ou seja, o amor divide-nos como uma experiência Yin e Yang mas depois volta a juntar-nos na morte. Essa experiência transforma-se num losango, seguindo um caminho que se espelha e que se volta a encontrar no final. Semelhante a um cristal. E, na realidade, somos todos cristais. Somos filhos dessa energia que nos traz à vida e que nos devolve à morte.

Qual é o combustível que dá energia aos Blasted Mechanism?

[Risos] O maior combustível que nós temos é o grande rei que está aqui presente neste momento e nesta conversa. O sol. A luz que é a inspiração, a intuição, a imaginação e a partilha. São esses os componentes que formam o combustível que me permite estar aqui. E a ti também.

Quando se vê o vosso nome dentro da manifestação da Geração à rasca é sempre peculiar porque as pessoas não associam a vossa música às típicas canções de intervenção. Vocês conseguiram provar o contrário?

Intervir é sempre intervir. Intervir não é só mandar para o buraco ou gozar. Intervir, no nosso caso, são quinze anos a gritar “Let’s start a revolution!”. A revolução tem de ser um movimento que começa de dentro e quando sai para fora manifesta-se na rua. Somos uma banda que pretende “pegar o fogo”. Neste caso, um fogo interno. Intervir em alguma coisa é fazer parte do que está a acontecer levando alguma coisa nova na mala. Quando chegámos, eu dei tudo. No caminho para casa, cheguei à meia-noite no comboio de volta para a Serra de Sintra e pus a carruagem toda a cantar: pessoas de todas as idades e culturas em festa.

Vocês têm um estilo muito diferente dos Homens da Luta. No entanto, como foi a experiência de partilhar um palco, tendo em conta a voga que existe à volta deles neste momento?

Estivemos lado a lado e posso dizer que o Jel é grande maluco e é uma pessoa que eu admiro imenso. É um gajo cheio de coragem e é um dos grandes amigos do Guitshu, o nosso último vocalista.

Tu estiveste presente na manifestação como Pedro ou como Valdjiu?

Eu sou o Valdjiu, seja como for. Não há diferença dentro e fora do palco. Dentro do palco, posso ser um pouco mais animado. Aqui tenho de me conter um bocadinho mais. No entanto, eu sou um só ser e vou surfar a mesma onda que tu e que as mesmas pessoas que vão ler esta entrevista. Sou a favor de criar novas propostas para uma sociedade. Nós temos neste momento um movimento de transição que é um movimento que começou no Reino Unido por um homem chamado Rob Hopkins. É um conceito que já mudou mais de 300 cidades, uma das quais eu faço parte aqui em Portugal. Existe o Sintra em Transição onde temos já mais de oito ou nove cidades que estão a começar a entrar em transição. O movimento de transição está muito ligado à permacultura (baseado na cultura permanente) e é um movimento de transição onde milhões de pessoas já estão a beneficiar com uma visão mais holística de viver. Constituímos uma grande área com muita gente que consegue lidar contra a dependência do petróleo e a emissão de gases maléficos para a biosfera. É, no fundo, uma maior observação da vida em comunidade.

Consideras os Blasted Mechanism um movimento alternativo ao mundo actual?

Alternativo ao quê? Ao mainstream? O mainstream e o alternativo são a mesma coisa. Está tudo nos olhos de quem observa. Se eu sou alternativo a esta loucura que se vive aqui na Terra, sinto então que a loucura é que é alternativa. Porque o que eu vejo é algo completamente alternativo. Vejo guerra. Vejo o Homem a brincar com energias atómicas. Vejo menores a morrer de fome. Vejo bancos que não pagam impostos. Ditadores. Isso é alternativo para mim. Viver na Terra é um presente que nos é dado. E o presente não é alternativo; daí o seu nome.

Abordemos o manifesto publicado no vosso canal do Youtube. Enquanto os Homens da Luta puxam por uma revolta incerta da parte do povo, tu apelas por algo diferente. Podes esclarecer a tua posição?

Eu faço sempre uma pergunta inicial: “querem mudar para onde?”. A grande mensagem para mim, neste momento, é a questão do que se quer ver diferente em nós próprios para podermos espelhar no mundo. É também uma questão de até que ponto se está disposto a ir e o que é que nós precisamos de ter, verdadeiramente, à nossa volta para não interferir com os mecanismos naturais da Terra para sobreviver. Nesse aspecto, invoco Agostinho da Silva e os três S’s que ele divulga. Sustento, saúde e saber. O que é que nós queremos saber? É muito importante o que nós pensamos. A economia do pensamento é que faz o Homem andar para a frente e encarnar o amor e a verdade. Encontramos um sistema de saúde bastante negro tal como o sistema de alimentação. O sustento é relevante à partilha e às relações que temos dentro das nossas redes. Neste momento, vemos tribos e pessoas a viver em grandes arranha-céus. Temos movimentos que vão do mais tecnológico ao mais tribal.

Referes também como a natureza se encontra patenteada…

O que se passa é que uma semente que não venha da própria Mãe Terra é uma semente que depois não dará sementes. A terra é um organismo vivo. Meter uma semente na terra e sair de lá uma coisa que se manifesta e que se multiplica é um fenómeno magnífico. Interessante como no inicio não existe nada e, de repente, brota uma serpente verde que é capaz de alimentar uma pessoa. É incrível e eu fico altamente tocado e sensibilizado por essa manifestação de força e do poder da criação. Quando uma empresa toma poder sobre a semente, o fruto deixa de pertencer à terra. Qualquer agricultor que queira cultivar mais frutos terá de recorrer à tal empresa porque já não pode depender só da terra. Chama-se a isto roubar. Roubar a própria terra! É o cúmulo. É como vender água engarrafada.

Então o teu manifesto transcende o factor espaço. Estaremos a falar de uma situação mundial?

Neste momento, a monocultura está a dar cabo da Terra. As monoculturas destroem todos os mecanismos naturais. Sejam os insectos ou a desertificação ou a fraca qualidade da comida. A própria desflorestação desmedida é caótica. Vivemos numa realidade onde uma árvore morta tem maior valor monetário comparando com uma árvore viva. Se continuarmos assim, a Natureza irá criar a sua própria revolução contra o Homem e aí teremos de lutar pela sobrevivência.

Consideras o teu manifesto como uma proposta que se enquadra no manifesto proposto na manifestação da Geração à Rasca ou como uma luta completamente separada?

Nada está separado na Terra. Nós fomos habituados a olhar para a Terra com uma régua na mão para nos separar. A política é isso mesmo. A criação de grupos de separação quando nós somos todos inteiros. Fomos partidos, mas eu estou inteiro nesta questão. Eu estou constantemente a manifestar. Manifestar é trazer dentro de ti alguma coisa que até pode estar ligada à palavra “festa”. Estou cá todos os dias e envio muita luz para o planeta todo.

Tendo em conta o renascimento da música popular e da música de intervenção, consideras que a manifestação foi um movimento político ou um movimento cultural?

Isso também é separação. Uma separação entre o que é político do que é cultural. As coisas não se podem separar. Existe na Terra uma vontade grande de voltar a juntar tudo. Não nos podemos continuar a separar durante muito mais tempo. Temos de baixar as armas e abrir o coração.

Sendo os Blasted Mechanism uma aglutinação de várias culturas, como é que se mantêm nivelados dentro do patamar nacional?

Nós já tocámos nos principais festivais do mundo. Tocámos recentemente no Glastonbury Festival tal como já tocámos no Zeitgest Arts Festival. A questão é, como é que a indústria musical funciona. Somos portugueses e teremos sempre uma bandeira nacional por trás que estará sempre ligada a tudo menos à cultura musical. Devido a questões financeiras e culturais, é extremamente difícil exportar qualquer produto português. É difícil porque o mundo é enorme. O mundo é controlado pelas forças anglo-saxónicas e pela cultura norte-americana e são mercados altamente vampíricos, que querem o vosso dinheiro. Neste momento, nós estamos ligados ao Gabinete de exportação de música portuguesa. No outro dia, assisti à assinatura do protocolo do Ministro da Cultura que apoiaria esse departamento. Foi assegurado que os Blasted Mechanism seriam uma das bandas que teriam mais potencial a serem apoiadas pelo governo português no que toca à exportação e divulgação para outros países.

Achas que os Blasted Mechanism já atingiram os seus dias de glória ou que ainda têm muita energia por libertar?

Nós estamos a fazer um novo disco neste momento. Ponderamos lançá-lo para o próximo ano. Já temos um conceito, um nome, umas músicas e estamos agora em fase de pré-produção. Vamos lançar agora um tema massivo. Acredito que desde há vários anos que não lançamos algo tão transversal e ao mesmo tempo tão massivo. Está mesmo massivo e com imenso “power”! É um tema que puxa para cima qualquer pessoa que não se esteja a sentir bem e que obriga a dançar.

Então uma compilação de singles não irá sair tão cedo…

Não. Não! Não vai haver um «Greatest Hits» dos Blasted Mechanism. Não, nunca.

Mas achas que o sucesso que vocês atingiram até agora foi uma dádiva ou o resultado de muito trabalho?

É sempre o resultado de ambos. É sempre uma dádiva e é sempre muito trabalho.

A faceta espiritual do Manifesto (parte I).

Advertisements

2 Responses to “A faceta espiritual do Manifesto (parte II)”

  1. Ricardo April 4, 2011 at 4:30 pm #

    Complicação de singles não existe.

  2. José Mirante May 1, 2011 at 6:48 pm #

    Estes gajos sem dúvida q são complexos, mas n sei até q ponto o Valdjiu divaga para si ou satisfaz os seus fãs. No entanto está aqui uma grande entrevista que n deve ficar desconhecida.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: