Impressões Clique

14 Mar

A equipa de reportagem do Clique na manifestação desta tarde em Lisboa deixa aqui as suas impressões pessoais sobre o protesto.

«Os números pouco dizem do que se viveu esta tarde na Avenida da Liberdade e no Rossio. As fotografias, os vídeos, os áudios pouco reproduzem o que se sentiu. Pouco interessam os milhares que se diz que lá estiveram, porque o que importa realmente foi o que lá se fez.

Esta manhã, no editorial deste fim de semana, escrevia que tinha dúvidas sobre o sucesso do protesto e sobre a sua razão de ser. À tarde, em plena avenida, todos pudemos perceber que quem ali estava sabia bem ao que ia. Não foi, como pensei que pudesse ser, apenas mais um protesto. Não foi um protesto violento, mas foi um protesto que se fez ouvir.

Na manifestação desta tarde juntaram-se pessoas com as mais diversas sensibilidades políticas, unidas por um objetivo comum. Não se apresentaram alternativas, é certo. Apenas se disse “basta!” e não se sabe bem a quê. Mas a verdadeira força desta manifestação está na demonstração de que os portugueses estão finalmente atentos.

Ainda não há reações oficiais dos governantes. Talvez tardem, talvez nunca cheguem. Mas esperemos, todos os portugueses, que vejam com olhos de ver o que se passou hoje um pouco por todo o país.

Mais ou menos de acordo com a manifestação desta tarde, nenhum de nós pode ficar indiferente à quantidade de pessoas que saiu à rua. Mais que as palavras, as imagens falam por si.»

João M. Vargas, Diretor de Conteúdos


«Eram 15h30m da tarde quando hoje subi as escadas da estação do Metro do Marquês. Esperava ver muita gente precária e não precária. Velha e nova. Da esquerda e da direita. Mas o mar à rasca que encontrei superou todas as minhas estimativas. Lisboa estava contaminada por um espírito de revolução, de esperança, de mudar para melhor. Os jovens levantaram-se para marchar avenida abaixo. Foi muito comovente ver, passados 37 anos, Portugal a lutar, de novo, por uma vida melhor.

Porém, toda esta emoção que me invadiu, rápido se desvaneceu também. Éramos muitos e fazíamos muito barulho. Os recibos verdes, os estágios não remunerados, os contratos a prazo e o desemprego em geral eram os alvos principais. No entanto, esta mobilização em Lisboa, Porto Faro, Braga, Guimarães, Leiria, Viseu, Ponta Delgada e outras cidades não chegou para fazer o Governo parar de rir de mais uma brincadeira de miúdos.

Os Homens da Luta protagonizaram, numa carrinha de caixa aberta, todo este protesto. E cedo este se tranformou numa festa. De repente, os jovens já não tinham frustrações e tudo era alegria. E, consequência disso, o protesto perdeu todo o seu fulgor. Os manifestantes dispersavam e sensação de que estava num mero convívio tomou conta de mim. A luta por direito ao trabalho justo não é a luta da alegria.

Por momentos, pensei que algum de nós tivesse a coragem de se levantar e dizer: «Não saímos daqui enquanto não mudar este regime de (des)emprego que não nos permite andar para a frente!». Que fossem semanas, que fossem meses, pois não é preciso partir montras e incendiar carros para se ser ouvido. Porque um dia não chega. E um dia de festa ainda menos. Um dia em que, decerto, Lisboa deveria ter sido mais francesa.»

Sara Recharte, editora de Internacional


«Antes da hora marcada já os manifestantes se juntavam no Marquês de Pombal, ultimando os preparativos para darem voz à “geração à rasca”. Mais ou menos certos do que por lá faziam, todos acreditavam que a Avenida da Liberdade seria percorrida por milhares de pessoas em busca de um futuro melhor.

E foi, de facto, o que aconteceu. Os Homens da Luta deram o mote e muitos se seguiram, avenida abaixo, com cartazes, faixas, megafones ou simples vozes. A meu ver foi um protesto apartidário, tal como se apresentou, mas acima de tudo uma forma de o cidadão comum poder fazer política.

Ao lado dos que fizeram da manifestação um passeio de sábado à tarde (e foram poucos, pelas impressões que recolhi) estavam os que tinham lido o manifesto, os finalistas de muitas e variadas licenciaturas, os jovens casais com crianças ao colo e os membros de grupos organizados com fins convergentes.

Por me ter surpreendido, não posso deixar de destacar a quantidade de pessoas “menos jovens” que se juntaram ao apelo. Uns solidários com esta geração intermitente, outros preocupados com o futuro dos seus, mas todos descrentes em relação à atual situação do país. Falavam do 25 de Abril, do maio de 68 e até da Revolução Francesa para lembrarem datas que outrora significavam liberdade e progresso e que hoje ocupam o lugar de memórias distantes.

Mudanças? Não creio que a curto prazo se registem muitas. A crise veio para ficar e a classe política, ao invés de fazer avançar o país, parece mais preocupada em perpetuar guerrilhas partidárias. Fica, pelo menos, a certeza de que a passividade lusitana começa a dar lugar à intervenção cívica. Consciente e crítica, assim se espera.»

Joana Margarida Bento, editora Grande Reportagem

«Uma música deu o mote, um evento no Facebook a logística e os descontentes a presença. Do Marquês ao Rossio, milhares de pessoas fizeram-se ouvir. Tantas quanto as vozes, as reivindicações: as suas, a dos seus ou simplesmente a de todos.

Não foi o protesto de uma só geração, a população saiu à rua.»

Rita Sousa Vieira, fotojornalista

«Desde que comecei o meu curso superior que tenho olhado para as manifestações com uma certa descrença; não porque algumas tenham más propósitos, não porque os objectivos sejam maus mas, simplesmente, porque as manifestações me pareceram algo cada vez mais fraco e um recurso cada vez mais comprometido. Desde que vim para a universidade que há manifestações estudantis quase todos os meses. Para algumas, alunos da minha faculdade pedem até o apoio e o comprometimento com manifestações ainda não convocadas oficialmente ou, até, com reivindicações. E se eu tinha uma boa impressão do poder do povo ao sair à rua, ao ver manifestações estudantis com reivindicações utópicas para a actual conjuntura…desacreditei. E isso só piorou quando vi pessoas que queriam “manifs” só pelo prazer de estar na rua, ou sem saberem porque estavam ali ou (a gota de água) porque não tinham querido ir às aulas. Uma manifestação verdadeira não é um passeio de domingo. Uma manifestação verdadeira não é um local para beber vinho ou cerveja ou fazer piqueniques ambulantes; é para, mesmo não apresentando soluções, apontar as falhas pungentes seja de um país, de um sistema de ensino ou de um Governo.

Foi com esse espírito que fui para a manifestação, sou sincero. Doía-me a cabeça e não me sentia muito bem nesse início de tarde. E a desconfiança que sentia em relação ao que se ia passar não ajudava: certo de que iria lá encontrar gente à toa, sem saber ao que vinha, gente que ia só porque não tinha planos para a tarde, gente que iria protestar por algo que nem sabia bem o que era. E como mau prenúncio, não me saía da cabeça a música Uniform, de Bloc Party, a tal que diz: “Eu sou um mártir, só preciso de uma causa (…) eu sou um crente, só preciso de uma causa”. E eu via essas pessoas lá. Sem nada porque lutar, manifestando-se só porque sim, a fazerem barulho sem acreditar verdadeiramente, sem estarem “à rasca”, só porque sim ou só porque nada de melhor tinham para fazer. Fui pela Clique e fui contrariado, mas isso mudou quando cheguei lá. Rapidamente me apercebi que não eram as pessoas que eu temia que estavam lá, não eram os “mercenários” das manifestações, que se vendiam a qualquer ideal desde que pudessem fazer barulho. Não. Eram as pessoas que estavam “à rasca”, que conheciam quem estivesse, que reconheciam o problema e algo queriam fazer para mudar alguma coisa. Por pequena que fosse a mudança. É certo que os Homens da Luta ajudaram a mobilizar as pessoas para um cântico único, sobretudo. Fizeram isso comigo, levaram-me a perder o meu cepticismo em relação ao que estava a acontecer. Porque me identifiquei com o que ouvi, como “é preciso correr com os políticos profissionais e pôr profissionais na política”. Não me arrependo de ter ido. De quase ter perdido máquina e objectiva, de me ter aleijado no meio da maré de pessoas. Não devia ter desconfiado, pelo menos desta vez; é que é preciso muito para pôr, só em Lisboa, 300.000 pessoas a gritar em uníssono, a defender algo de bom e a pôr as diferenças de lado por um dia. Não é fácil mas conseguiu-se. Só espero que seja um sinal que, por fim, se comecem a abrir os olhos e que a massa acrítica que se queixa nas costas deixe de o ser; que seja um sinal que, por fim, todos nós estejamos fartos de que nos deitem areia para os olhos para não vermos o quão (cada vez mais) negra é a realidade.»

Gonçalo Simões, fotojornalista

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3 Responses to “Impressões Clique”

  1. Pedro Coelho March 12, 2011 at 11:44 pm #

    É possível que os governantes não falem, não respondam, optem pela inflexibilidade, mas há um sinal claro desta manifestação. Chega, mas chega mesmo, que paguemos sempre os mesmos pela crise, chega que se ande a trabalhar de graça, chega que se aprenda para não chegar a lado nenhum. Chega de sonhos vencidos por um país que não se sabe auto-preservar e por uma classe política que há muito perdeu seja qual for a ideologia.

  2. João E Vargas March 13, 2011 at 2:01 pm #

    Estou plenamente de acordo com a vossa analise sobre este proptesto.Estão de parabens pela vossa repotagem.

  3. Sílvio Silva March 19, 2011 at 4:28 am #

    Escrevo neste espaço, pois entendo que de Opiniões se trata, e então aproveito para expresssar o meu pequeno ponto de vista.
    Infelizmente generalizou-se a ideia de que a “Manifestação à Rasca” iria alterar o estado das coisas, que de certa forma pode ter feito em termos de mentalidades e de consciencialização, mas mais importante que manifestações, greves e revoltas, é que no momento em que são chamados a decidir o façam.
    È vergonhoso pensar que para uma manifestação contra medidas do Governo “toda a gente” saí à rua, enquanto que se fosse para votar muitos (boa parte) teria ficado em casa.
    Assim, penso que para além de todo o brilhantismo da acção, seu apartidarismo, pacifismo e pluralismo, assim como o efeito de ter surgido pelo Facebook, é preciso que se estenda para outros campos, fazendo com que as pessoas ganhem consciencia e tomem uma posição quando realmente têm de a tomar, pois só assim se pode (realmente) mudar as coisas.
    Pessoalmente achei coerente com o espirito da manifestação o espirito de partilha de desagrado e ironia (com um bocado de alegria no meio), pois um bando de pessoas na rua desesperadas e a chorar seria bastante incomodativo, e não vamos copiar os franceses, que de tão sério que levam as manifestações, começam “partir montras e incendiar carros para” serem ouvidos (coisa que na crise actual não dava muito jeito) e o seu desenvolvimento.
    As Manifestações servem? A meu ver sim, pois demonstra um desagrado/manifesto generalizado, de um grupo de pessoas que assume o seu mal estar com alguma medida, mas não é uma arma política.
    Agora é esperar e ver se este primeiro movimento faz com que as pessoas tomem o poder que têm em mãos e o usem no seu devido momento.

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