Quem dera que caíssem mais batons

6 Mar

Todos os dias, a plataforma da gare era pisada pelas multidões que chegavam e partiam nos comboios. Eram multidões de gentes agitadas, gentes doentiamente obcecadas pelo tempo, pelas horas, pelos relógios. Eram multidões de gentes maquinalmente programadas para andar, correr e pensar no não chegues tarde ao trabalho ou no que tédio de emprego que tenho. Eram multidões de humanos, dos que pouco, ou muito, têm de humano.

A mulher de mala vermelha que descera do comboio, uma das humanas da multidão que, naquela manhã fresca e luminosa, pisara a plataforma da gare, era também dessas humanas apressadas e indiferentes aos humanos que as rodeiam. Pelo som dos seus saltos altos pretos que pisavam apressadamente o betão da plataforma, num convulsivo toc-toc ritmado, percebia-se que estava atrasada. Olhou para o relógio uma vez e, aproximando-se das escadas, saltitou até ao primeiro dos mais de trinta degraus que davam para a saída da estação.

Todos os dias, fazia o mesmo percurso, nem dando conta de que não era o pulsar do peito que a movia: era o pulsar do tempo, esse déspota que governa um regime de ponteiros e marcas numéricas. Tic-tac. Tic-tac. Tic. Tac. Tic. Tac. O som da pulsação eternamente ritmada, a mesma que dá vida a esse coração silencioso que regula a Humanidade.

A mulher pisou o segundo degrau, distraidamente. Lembrou-se de tirar da mala o batom, queria retocar os lábios. Pisou o terceiro degrau e espreitou para dentro da mala. Pisou o quarto degrau. Não encontrava o batom. Pisou o quinto degrau. Maldito batom desaparecido! Pisou o sexto degrau. Tropeçou! Não caiu, conseguiu equilibrar-se sobre os saltos altos pretos. Mas viu todos os objectos e bugigangas e pertences e lixo e coisas sem definição esgueirarem-se da mala e rolarem sobre as escadas, como se ansiassem libertar-se da clausura a que haviam sido remetidos.

A mulher deteve-se, desconcertada. Olhou para a mala vermelha no chão, vazia, e para todo o seu recheio disposto sobre os degraus que ainda teria de descer. Começou por apanhar a carteira, depois uma caixa com comida, as chaves de casa, as luvas. Parou. Percebeu que, dos humanos que desciam as escadas, nenhum parara para a ajudar. Talvez estivessem atrasados, como ela. Talvez não tivessem reparado, como lhe acontecia tantas vezes. Talvez não quisessem ajudar, era a hipótese mais plausível. Não os censurou, era igual a eles. E sentia na pele o que, por certo, já fizera sentir tantas vezes na pele de outrem: indiferença.

Pegou num pacote de lenços de papel e colocou-o dentro da mala. Pegou na escova com que costumava pentear-se e no pequeno espelho que trazia sempre consigo. Queria sair dali, estava envergonhada e entristecida. Pegou em papéis dobrados, em blocos de notas, em canetas e lápis. Devolveu todos os objectos à clausura da mala vermelha. Excepto um, que parecia esperar pacientemente que lhe pegassem: o batom.

A mulher desceu até aos últimos degraus. Mirou alguns dos humanos que continuavam a descer as escadas, focados no não posso chegar tarde ou no tenho mais que fazer, não a posso ajudar. Abstraindo-se do desconforto dos olhares que a evitavam, um sinal claro de não contes comigo, inclinou-se para apanhar, por fim, o maldito batom. Inesperadamente, uma mão adiantou-se a ela. Era um homem. Pegou no batom e entregou-lho. Ela, embasbacada, não conseguiu proferir qualquer palavra. Ele, simpático, limitou-se a olhá-la.

Olharam-se. Sorriram.

A mulher sorriu como quem diz obrigado. O homem sorriu como quem diz bom dia. E após um instante em que o mundo parou para ambos, num suspenso com tanto de irreal como de etéreo, tiveram a certeza de que há sorrisos e gestos que, por mais simples e ordinários, nos definem como humanos que se organizam em sociedade, mesmo quando se vive sob os caprichos de um regime ditatorial a que chamam de tempo. No fundo, somos humanos que vivem, segundo a moral e o civismo, uns para os outros.

Quem dera que caíssem mais batons…

Samuel Pimenta escreve ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico.

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8 Responses to “Quem dera que caíssem mais batons”

  1. Marta Spínola Aguiar March 6, 2011 at 2:11 pm #

    Adorei, Samuel! Está fantástico

  2. Steve March 6, 2011 at 3:33 pm #

    muito bom trxto rapaz!

  3. Steve March 6, 2011 at 3:33 pm #

    *texto

  4. Inês Garcia March 6, 2011 at 4:39 pm #

    Muito bom! Parabéns, Samuel!

  5. Vera Hoshi March 6, 2011 at 6:30 pm #

    Parabéns, Samuel!!! Gosto muito!!!
    Beijinhos 🙂

  6. Maria José Vilas Boas March 7, 2011 at 5:21 pm #

    Espectacular! 🙂 Muito bom Samuel!

  7. Susana Pacheco March 7, 2011 at 5:29 pm #

    Adorei Samuel 😉 Realmente são nesses momentos de indiferença, que vemos quem se distingue da “multidão”, presa ao tempo e à rotina dos dias. Que caiam mais batons!

  8. Cavaleiro Fantasma March 21, 2011 at 11:03 pm #

    Um belo texto cheio de sentido.
    Todos julgamos ser seres superiores cheios de formaliades ademiraveis…
    Pobres seres iludidos com a futilidade da Sociedade.
    São os gestos banais que nos tornam diferentes, que nos tornam humanos especiais, que nos amtem imortalmente amados.

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