Estação sem destino

20 Feb
por Pedro Miguel Coelho |

Cada vez mais jovens, em busca dos seus sonhos e de uma vida melhor, partem do interior para o litoral português. Deslocam-se, na sua maioria, em transportes públicos. Eu, nas minhas viagens de Norte para Sul, da profundidade do Portugal esquecido para a correria da capital, reparo que há muito mais gente a ir do que a voltar.

Os motivos há muito estão diagnosticados: uma política sem visão continua a deixar o Interior sem investimento, a lutar pela sua própria sobrevivência de forma heróica e sem meios para inverter uma tendência que levou a um vicioso ciclo descendente. Hoje os jovens são obrigados a sair para conseguir formação e emprego e não conseguem condições para voltar e ajudar a sua terra a crescer, deixando no sítio do costume as novas ideias, os investimentos de futuro e a produção de riqueza.

O Estado português, quando desinveste da melhoria das vias de comunicação para o interior, quando fecha mais carreiras da CP ou quando cancela novas obras públicas nestas regiões contribui, cada vez mais, para a existência de portugueses de primeira e portugueses de segunda.

Este interior esquecido e ostracizado, a fazer lembrar as rábulas humorísticas de Herman José, fica cada vez mais longe do mundo atualizado, das redes de tecnologia (grande parte do território português ainda não tem fibra ótica) e continua a acumular problemas e dificuldades na fixação de população, que não tem locais de trabalho no seu local de residência nem transportes que lhe permitam ir e voltar das grandes cidades.

Ao longo do nosso dossier ‘O fim da linha’, conhecemos a realidade das populações que ficaram sem estações para voltar, que ficaram mais isoladas do resto do país, que têm que pagar caro, na carteira e na qualidade de vida, as decisões economicistas de governos que lhe continuam a pregar rasteiras numa longa pista de corrida em que já se saiu atrás do litoral, pela falta de mar, pelo clima mais difícil, ou mesmo pelo acidentado terreno.

E é certo que a CP e a REFER continuam a acumular prejuízos no exercício da sua atividade, mas decerto seria mais fácil tentar organizar uma oferta consistente e complementar, não só entre si e os vários serviços que detêm, mas também com outras modalidades de transporte. Continua-se hoje a esfaquear a própria estrutura e cobertura nacional ferroviária, já de si desequilibrada e ineficaz.

É assim que se condena o crescimento das populações, que abandonadas e perdendo perspetivas de futuro, conduzirão ao despovoamento regiões de beleza ímpar e cuja história deveria orgulhar e inspirar os governantes a investir num país cheio de diferenças, mas que deveria ter cada vez menos assimetrias.

Para recuperar da crise, não só económica mas também de crença, é urgente andarmos a uma velocidade única, darmos a todos os portugueses a noção de que fazem parte de um país pelo qual devemos lutar, porque é de todos nós, de igual forma, e não mais de uns que de outros.

Fica a esperança de que, um dia destes, não tenhamos deixado de ter estação para voltar e que a nossa terra não tenha passado a ser mais uma na infindável contagem dos quilómetros desligados.

+++Este artigo foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.+++

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2 Responses to “Estação sem destino”

  1. Marta Spínola Aguiar February 21, 2011 at 9:13 pm #

    Pedro, é um prazer enorme ler o que tu escreves. Este dossier fascinou-me imenso, não tanto pelo tema em si, mas pela forma como conseguiste tornar um assunto que poderia ter sido tratado sem muita dinâmica, num trabalho espectacular e que capta a atenção logo no primeiro artigo. Adorei, adorei!

    Deixando as amizades de lado, enquanto tua colega neste projecto, devo dizer-te que um dia gostaria de escrever como tu.
    Parabéns!!! Está excelente!

  2. Clique February 22, 2011 at 12:43 am #

    Obrigado Marta, são palavras que me incentivam a continuar. Principalmente nesta divulgação dos males do Portugal Interior, tão esquecido mas tão presente e lutador 😀

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