Longe dos olhos, perto do coração

19 Feb
por Marta Spínola Aguiar |

Pouco passava das 11h da manhã do dia 20 de fevereiro de 2010. Era sábado e esse foi o principal motivo para começar o dia em frente à televisão, a ver os meus programas matinais preferidos e a planear esse fim de semana que seria, como sempre, passado com os amigos, a vaguear por Lisboa. Mas aquilo a que eu poderia chamar de «bom fim de semana», começou da pior forma possível. Os meus programas matinais preferidos foram rapidamente substituídos por notícias de última hora que retratavam a catástrofe natural que abalava a ilha da Madeira, a minha ilha.

O primeiro instinto? Tentar contactar família, amigos e manter a calma. Contudo, em vez da calma, instalou-se o pânico. As redes estavam cortadas e era impossível contactar quem quer que fosse. Cada minuto que passava, assemelhava-se a uma eternidade e as imagens da tragédia apareciam na televisão como se fosse um filme de slides. E uma. E outra. E mais outra. Tudo o que se via era um cenário negro: chuva, chuva e mais chuva. Derrocadas. Enxurradas. Todo o ambiente que me era familiar estava a ser consumido pela força das águas da chuva e das ribeiras, que não paravam de transbordar e traziam consigo pedras e lixo. As ruas da minha cidade transformaram-se num mar de lama, água e pedras. E tudo o que se ouvia na televisão e na rádio era que as autoridades estavam a fazer os possíveis para trazer de volta a normalidade e ajudar os mais afetados. Uma mensagem realista, sim, mas sentida de forma tão leve que rapidamente perdia a sua força.

Na minha cabeça não era isso, de todo, que importava. Pelo menos, não era essa a minha prioridade. Os meus olhos seguiam atentamente o rodapé dos telejornais que indicavam o número de mortos, feridos e desalojados. Um número cada vez mais assustador. Cada vez mais (sur)real. E os testemunhos não eram nada esclarecedores. Todos diziam o mesmo: «aconteceu uma desgraça. Isto não pode ser verdade». Pensei que era a frase mais indicada do momento, uma vez que era isso que eu também achava, mas que não conseguia verbalizar. As notícias, pouco esclarecedoras, tentavam transmitir os esforços da população e das autoridades para evitar ainda mais tragédias. E havia momentos em que se conseguia sentir toda a força do cordão humano que se estava a formar. Mas facilmente esses pequenos sinais de esperança eram interrompidos por algum vídeo amador que transmitia nada mais que medo. E incerteza. E preocupação. E sentimento de impotência. E o desejo de querer saber mais, quase que em primeira mão, o que realmente estava a acontecer. E para isso… tinha que ter notícias da família e dos amigos. Notícias que não chegavam. E tardaram a chegar.

+++Este artigo foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.+++

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7 Responses to “Longe dos olhos, perto do coração”

  1. Luis Castro February 20, 2011 at 1:55 am #

    Um relato muito sentido e comovente. Gostei.
    Continuem com o bom trabalho.
    Abraços

  2. Andreia Freitas February 20, 2011 at 2:27 am #

    Martinha adorei! Os madeirenses são um povo determinado, lutador e solidário e isso fez com que a Madeira voltasse a ser o que era!
    Parabéns por esta reportagem, em especial por este texto.
    Bjs

  3. Rita Abreu February 20, 2011 at 2:37 pm #

    Foi um dia trágico e eu também assisti à tragédia através dos meios de comunicação social.
    Fui à Madeira no Verão e está linda como sempre esteve. É sempre bom lá voltar.
    Parabéns pelo trabalho

  4. Sandra Vale February 20, 2011 at 3:03 pm #

    Este dia foi horrível, para todos. Para ti, que estavas longe e que querias saber das pessoas de cá e não conseguias; e para nós que cá estávamos e que só queríamos ter a certeza de que as pessoas mais chegadas estavam bem. As redes estavam cortadas, electricidade, tv, net deixaram de existir.. Só se ouviam sirenes, e no ar uma réstia de destruição. Pouco ou nada houve a fazer a não ser…. esperar! E eu sei que te custou imenso não saber absolutamente nada do que se estava a passar, e isso está tão bem descrito aqui! De uma maneira tão simples e tão comovente! Mas pronto, não me quero alongar com baboseiradas, queria só mesmo dar-te os parabéns, assim mais oficialmente, e dizer-te que de tudo o que escreveste até hoje, esta foi a que me deixou mais orgulhosa!
    Beijiii

  5. Pedro Coelho February 20, 2011 at 3:17 pm #

    Esta parte, em especial, é espelho de uma ideia bem concretizada. Quando o jornalismo põe um bocadinho as regras de lado e se torna mais humano, dentro das devidas medidas e com autores de qualidade, é fabuloso.

    Como disse noutros lados, este especial é algo que eu, enquanto editor de Portugal, me orgulho de publicar.

  6. Paula Spinola February 20, 2011 at 11:45 pm #

    Grande reportagens Marta!….
    Adorei…
    Estou muito orgulhosa de ti…
    Beijos grandes

  7. LFAguiar February 21, 2011 at 5:56 pm #

    Sentimos a mesma preocupação e frustação, em não te poder dizer que estávamos bem.
    Mas agora, que tudo passou, ou quase, ler esta tua mensagem de emoção, muito sentida, um pouco fora da isenção jornalistica, é perceber a proximidade das pessoas, mesmo longe fisicamente, mas de facto, ou “fato”, segundo o AO, perto do coração.
    Beijos. Bem escrito.

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