Os problemas estruturais

13 Feb
por Pedro Miguel Coelho |

O problema mais antigo e um dos maiores desafios à sustentabilidade da ferrovia nacional é a diferença da bitola ibérica, utilizada em Portugal, em relação à bitola europeia. Este conceito, que pode ser desconhecido para a grande maioria dos leitores, está relacionado com a distância entre os carris e tem causado várias dificuldades, nomeadamente relativamente a percursos transeuropeus para além dos Pirinéus, que para serem feitos são necessárias operações de mudança nos ‘bogies’. Questão que poderia ser solucionada com a transposição do material circulante para um sistema de ‘bogies’ telescópicos, como o exemplo abaixo, já utilizado na vizinha Espanha.

Mas isto remete-nos para outro problema, o do material circulante. Para além de as empresas ferroviárias nacionais não fazerem a devida ‘atualização’ do mesmo, tendo uma idade média de utilização muito superior à recomendada, a maioria do mesmo não é ‘adequável’ à circulação em vias de bitola standard (também designada como europeia ou internacional), sendo a única solução possível esperar pelo seu fim de vida útil.

Mas o modelo de negócio e planeamento do mesmo também são eternas dores de cabeça e senão são irresolúveis, pelo menos as sucessivas administrações da CP fazem-nas parecer como tal.

No ano passado, o serviço regional da transportadora deu 56,6 milhões de euros de prejuízo, sendo que só 48 milhões foram operacionais, um valor que pode ser associado à falta de ligação entre este serviço e as restantes unidades de negócio, com as quais não corresponde. A oferta Longo Curso não se alinha com o Regional, sendo que acaba por ser prejudicado o efeito de rede, tal como é dito pela reportagem do Público de 3 de janeiro deste ano.

“Há horários em que o comboio regional partiu alguns minutos antes da passagem do Alfa Pendular ou do Intercidades, e noutros casos o passageiro que queira prosseguir viagem não tem correspondência em tempo útil no regional”. Deste modo não podemos associar a fraca procura apenas à baixa densidade populacional do Interior ou às alternativas rodoviárias, sendo que a gestão semidanosa da CP também é grande culpada pelo problema, com várias decisões controversas, nomeadamente os cortes na linha do Norte, um dos grandes locais de procura do serviço e onde foi reduzido o serviço de Aveiro para norte, com quem quiser seguir para o Porto a ter de seguir num suburbano, marginalizando as fontes de receita anteriormente conseguidas pelos regionais.

Os inúmeros transbordos são também desencorajadores das viagens, com os serviços regionais fragmentados e que obrigam a que quem viaje seja obrigado a fazer mudanças constantes e que resultam, muitas vezes, na perda dos comboios pretendidos.

Fora isso, a ausência de estratégia para potenciar o transporte multimodal, em articulação com outras operadoras, tem também fragilizado a exploração dos comboios em Portugal.

O fecho de linhas tem acentuado ainda mais outro dos grandes problemas da ferrovia portuguesa –  as assimetrias na distribuição dos quilómetros de linha pelo continente nacional, o que leva a novos problemas. Um ciclo vicioso que, parecendo impossível de quebrar, não parece para já ter fim à vista.

+++Este artigo foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.+++

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