Opinião: As Presidenciais

24 Jan
por Pedro Miguel Coelho, Editor de Portugal |

A política é feita de surpresas, de reviravoltas, de inesperados. Hoje, não o foi. A vitória há muito anunciada de Cavaco Silva foi confirmada massivamente pelos portugueses que votaram durante este domingo.

Os problemas técnicos arranjaram uma desculpa para a abstenção elevadíssima que, acho eu, continuaria a acontecer caso eles não tivessem ocorrido. Com ou sem problemas técnicos, Cavaco Silva ganha as eleições, mas com o menor número de votos já alcançado por um Presidente. Não que isso belisque o mérito da sua vitória, mas é um dado importante da falta de identificação que a população teve em relação aos candidatos.

Serei acusado de radicalismo pela minha opinião, mas penso que aqueles que não o reconhecem são pouco mais que hipócritas: Manuel Alegre, Fernando Nobre, Francisco Lopes e Defensor Moura perderam as eleições. Numa cruzada anti-Cavaco que fizeram ao longo de toda a campanha, preterindo a apresentação das ideias para optar pelo ataque pessoal e pelo constante questionamento ao Presidente da República, não conseguiram derrotá-lo e ainda ajudaram à agudização do seu comportamento de mártir, “pessoa íntegra que é atacada pelos ‘maus’”.

E eu sou da opinião que Cavaco Silva deveria ter esclarecido os portugueses em todas as suas ‘ligações perigosas’, mas também sou daqueles conservadores que consideram que as campanhas eleitorais devem surgir para apresentação de ideias e linhas de ação. E a falha disso levou a que os portugueses não pensassem sequer em trocar de Presidente, visto que a ‘concorrência’ não foi alternativa.

Mas o ex-primeiro-ministro sai reforçado destas eleições, com uma vitória expressiva e com a imagem praticamente intocável, como ele bem gosta, acima de todas as discussões e até da vida democrática. Esperemos que a magistratura ativa se manifeste com serenidade e que o mandato seja marcado por uma presença mais notável, mas também mais ponderada e ciente do seu papel. Sei que isso é exigir demais ou sonhar alto, mas para não ter que estar aqui a exceder o número de linhas, aproveito o momento para ocupar as mãos com um croquete ou uma fatia de Bolo Rei.

Manuel Alegre sofre hoje com a sua própria teimosia e leva consigo o Partido Socialista, profundamente fraturado na questão presidencial, vítima dos amuos do poeta e de todos aqueles que o iludiram com a possibilidade de um dia ele ‘chegar lá’. Por outro lado, Sócrates consegue livrar-se do gigantesco ego do ex-deputado, que não é tão cedo que volta a candidatar-se, a solo, a lugares de destaque. Como herança positiva, fica a possibilidade das esquerdas se juntarem e trabalharem em conjunto – o que poderia antever, caso os radicalismos não estragassem sempre tudo, uma alternativa diferente em relação ao que tem sido feito em Portugal, em que verdadeiras políticas de esquerda raramente têm sido adotadas, principalmente por falta de flexibilidade das oposições, demasiado ligadas à ortodoxia marxista e pouco próximas da realidade vivida pelos cidadãos nacionais.

Fernando Nobre sai desta candidatura com saldo positivo, mas apenas porque não foi um flop tão grande a nível de resultados como a sua campanha foi a nível de coerência, combatividade e oportunidade. Surge como o grande herdeiro do voto soarista de há 5 anos atrás, mas deve voltar à sua ação cívica em prol da AMI e nunca mais pensar em desafios políticos. Não que a política seja unicamente para os políticos, mas é com certeza para quem tem preparação para assumir cargos políticos, algo que não foi muito demonstrado pelo independente, que não raras vezes beirou a desconexão ou o excesso.

Francisco Lopes cumpriu a missão para que foi designado, mas não foi além disso. É certo que teve de partir do zero para uma campanha em que ninguém o conhecia, e registar 7% nestas condições ainda é digno de registo, mas Lopes apenas segurou o eleitorado fiel da CDU e nada mais. A agenda foi a mesma das outras campanhas do partido, as frases já as conhecemos todas, as baterias apontadas ao governo socialista também. Ponto positivo por ter conseguido surpreender e, com esta percentagem de votos, surgir mesmo como alternativa viável à sucessão de Jerónimo de Sousa.

José Manuel Coelho consegue entrar para a lista dos vencedores, não por ter sido o candidato ideal destas eleições, esteve longe de o ser, mas pelo saldo positivo que registou. Ninguém o conhecia para além dos casos do relógio e da bandeira nazi, mas de forma satírica e bem-humorada fez uma campanha inovadora, que pôs o dedo na ferida, levantou questões e capitalizou com os descontentes relativamente aos candidatos do costume. Na Madeira já promete ser adversário à altura do gigante Jardim, com o resultado de 39% desta noite a deixá-lo bem posicionado para conquistar mais espaço na Assembleia Regional. A nível nacional os seus 4,5% são a grande derrota das sondagens e a prova de que há gente a procurar novos rumos para a política nacional.

Defensor Moura foi, em votos, o mesmo que na sua campanha, pouco expressivo, pouco abrangente. Um candidato fortemente regional não conseguiu sequer subir acima dos 11% em Viana do Castelo, a sua terra natal, e nem deixou perceber quais os seus objetivos na campanha. A proteção dos animais, a regionalização, o combate desenfreado a todos os defeitos de Cavaco e…?

Mas não só os candidatos saem derrotados. Sai a política nacional, que se mostra amorfa, com falta de propostas de valor e com uma campanha que atingiu resultados nulos a nível ideológico ou valor político. Acredito que quase todos os portugueses que não votaram e grande parte dos que votaram sentiram que embora expressassem um determinado sentido de voto, nenhum destes candidatos, incluindo o re-eleito Cavaco Silva, ‘enche as medidas’.

Que em 2016 o PS volte a apresentar um candidato e que o PSD não precise de nascer duas vezes para encontrar alguém melhor que Cavaco Silva. O país merece mais.

+++Este artigo foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.+++

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4 Responses to “Opinião: As Presidenciais”

  1. Rita Sousa Viera January 24, 2011 at 1:21 am #

    Os meus parabéns pelo texto!

  2. João E Vargas January 24, 2011 at 10:37 pm #

    Parabens pela sintese deste texto.

  3. Pedro Pereira January 24, 2011 at 11:13 pm #

    Concordo com grande parte deste texto, mas fico reticente na questão do Manuel Alegre. Eu fui um dos que o fiz acreditar que podia “lá chegar”. A sua vaidade é bem conhecida, mas acho que as suas atitudes deveriam ser a regra e não a excepção: militantes mais activos, mais críticos.
    É certo que, no nosso país, situações de divergência entre os partidos e alguns militantes são vistas como crises internas; se vivessemos numa sociedade com mais aptidão democrática e menos hipocrisia (apoiar partidos por puro orgulho) teríamos um debate mais conclusivo, mais transigente, pois a forma como os deputados encarariam a militância seria diferente.
    No entanto, a realidade é assim e Manuel Alegre podia ter sido mais “suave”. No entanto, percebo a sua vontade em fazer questão de sublinhar que não subscrevia algumas posições do PS.

    Não vejo nessas situações uma razão para não apoiar Manuel Alegre. Como Presidente da República, via-o como uma pessoa capaz de ser, por vezes, deselegante, mas que, ao dirigir-se aos portugueses, fosse mais directo, evitasse os típicos discursos enfeitados de Cavaco Silva em que nada de importante diz senão trivialidades, e que assumisse uma postura positiva, Alegre. Para além de tudo isso, a grande questão das promulgações e a defesa, a todo o custo, do Estado Social.

    Ódio. Muito ódio pautou esta campanha. Mesmo antes de ter começado.

  4. Pedro Miguel Coelho January 25, 2011 at 12:22 pm #

    Pedro,

    Pondo de lado as questões pessoais que me fariam votar ou não em Manuel Alegre, há que reconhecer que muitos militantes do PS, nomeadamente deputados e dirigentes, têm toda a razão em estar descontentes com ele. Penso que para assumir o cargo a que se candidatou que lhe faltava provas dadas, para além do já ‘gasto’ argumento da luta anti-fascismo, um argumento muito válido mas que não pode segurar uma eleição por si só.

    Todos sabem que, dentro dos partidos, defendo a independência e a capacidade para discutir as decisões tomadas, abominando a acefalia. Valorizo quem, dentro das estruturas, saiba assumir o lugar de ‘persona non grata’ sem pôr em causa a integridade exterior das mesmas. E a maneira como Alegre foi intervindo, contra algumas decisões do governo, foi absolutamente aceitável, nada tendo a ver com os ‘acessos’ de há alguns anos atrás.

    Nunca ninguém me ouvirá dizer também que Manuel Alegre era pior que Cavaco Silva. Só não sei se seria suficientemente pior.

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